Apostila 12 - escatologia

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escatologia

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Apostila 08

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Apostila 12

Estudo Sobre a Escatologia

Parte I

ESPERANA ESCATOLGICA

I -- Que princpios norteiam a pesquisa teolgica?

A) O princpio arquitetnico > revelao = base e eixo da teologia > f objetiva.B) O princpio hermenutico > interpretao dos aspectos histricos da salvao = produto da razo. Da razo ordinria, que a universalidade do senso comum; da razo filosfica, que produz ordenao; e da razo cientfica, ligada aos fenmenos.

A utilizao de tais princpios possibilitam diferentes verses da revelao. Por que?Porque o princpio arquitetnico depende do que colocamos como base da estruturao geral de nosso estudo: a graa e a f, no caso de Lutero; a soberania de Deus, no caso de Calvino; ou o amor, a justia, a liberdade, etc.?

E porque o princpio hermenutico depende do uso de uma ou de vrias das mltiplas vises filosficas que podem ser utilizadas como instrumento de interpretao da histria da salvao. por isso que se diz: a ideologia define a hermenutica.Aqui reside a dificuldade. A revelao universal e plena, mas toda teologia transitria, pois reflete um momento de compreenso da revelao e da histria da salvao.

II -- Jrgen Moltmann, telogo da esperana

Depois de uma criativa ruptura com a modernidade, enquanto pensamento, tradio e histria, necessrio sentir de novo a alegria da esperana escatolgica, para compreender a natureza do terreno sobre o qual pisamos.H um momento de ciso no qual modificou-se, de modo essencial, a concepo do que significa teologia. Esse momento foi assinalado a partir dos anos 60 com a teologia da esperana, de Jrgen Moltmann.Trata-se de uma reflexo prodigiosamente proftica, pois enuncia, no somente a queda do muro de Berlim, mas o processo de aglutinao vivido por alemes, em primeiro lugar, por europeus, na seqncia, e agora muito possivelmente por parte da humanidade. sem dvida, uma das elaboraes mais impressionantes, se entendermos sua abordagem epistemolgica. Sugere um campo normativo, a ser percorrido pelos movimentos e comunidades que abririam aguerridamente, a golpes de machado, a senda ps-moderna.A expresso abordagem epistemolgica no exagerada. Conforme, Bachelard, "os filsofos justamente conscientes do poder de coordenao das funes espirituais consideram suficiente uma mediao deste pensamento coordenado, sem se preocupar muito com o pluralismo e a variedade dos fatos (...). No se filsofo se no se tomar conscincia, num determinado momento da reflexo, da coerncia e da unidade do pensamento, se no se formularem as condies de sntese do saber. E sempre em funo desta unidade, desta sntese, que o filsofo coloca o problema geral do conhecimento". G. Bachelard, Filosofia do Novo Esprito Cientfico, Lisboa, Presena, 1972, pp. 8-9.

Assim, abordagem epistemolgica, aqui utilizada, refere-se ao projeto teolgico, de herdadas estruturas hegelianas e marxistas, relidas e traduzidas por ele e Ernest Bloch. sobre a questo da identidade histrica, entendida como processo a realizar-se, que recai a crtica da teologia realizada por Moltmann.Usando a leitura de Roberto Machado, diramos com ele que "a histria arqueolgica nem evolutiva, nem retrospectiva, nem mesmo recorrente; ela epistmica; nem postula a existncia de um progresso contnuo, nem de um progresso descontnuo; pensa a descontinuidade neutralizando a questo do progresso, o que possvel na medida em que abole a atualidade da cincia como critrio de um saber do passado". Roberto Machado, Cincia e saber. A trajetria arqueolgica de Foucault, Rio de Janeiro, Graal, 1982, p. 152.

justamente a experincia de viver, enquanto comunidade que se realiza no futuro, que realada por Moltmann. No nvel antropolgico, trabalha os elementos dessa esperana, a partir da qual se produz saber e praxis crist. Suas heranas so translcidas:

"Por meio de subverter e demolir todas as barreiras -- sejam da religio, da raa, da educao, ou da classe -- a comunidade dos cristos comprova que a comunidade de Cristo. Esta, na realidade, poderia tornar-se a nova marca identificadora da igreja no mundo, por ser composta, no de homens iguais e de mentalidade igual, mas, sim, de homens dessemelhantes, e, na realidade, daqueles que tinham sido inimigos... O caminho para este alvo de uma nova comunidade humanista que envolve todas as naes e lnguas , porm, um caminho revolucionrio". Jrgen Moltmann, "God in Revolution", em Religion, Revolution and the Future, NY, Scribner, 1969, p. 141.

Como num laboratrio, o telogo da esperana extrai o fato teolgico de sua contingncia histrica, tratada sob condies de extrema pureza escatolgica. Muito claramente afirma a escatologia como essncia da histria da redeno e leva concluso de que essa mesma essncia seja a expresso maior da ressurreio, enquanto metfora da cruz de Cristo. Essa cruz repousa sobre o esvaziamento da desesperana, enquanto praesumptio e desperatio, na relao que mantm com o mundo.

A teologia, vida crist em movimento, numa permanente autoformao, advm das pulsaes criadoras da prpria esperana, cujo sentido volta-se para ela prpria. Essa construo, que se nos apresenta como caleidoscpio, belo, mas aparentemente ilgico, traz em si a fora combinatria do devir cristo. Assim, a teologia de Moltmann quebra os grilhes do presente eterno da neo-ortodoxia, e nos oferece um conceito realista da histria, que tem por base um futuro real, lanando dessa maneira as bases para uma teologia que responda s reais necessidades do homem ps-moderno.

"O passado e o futuro no esto dissolvidos num presente eterno. A realidade contm mais do que o presente. Ao desenvolver sua teologia futurista, Moltmann realmente tem o peso considervel da histria bblica do lado dele, e faz bom uso dela. (...) Ao enfatizar o futuro, desenvolveu um pensamento bblico legtimo que jazia profundamente enterrado na teologia tica e existencial dos sculos XIX e XX". Stanley Gundry, Teologia Contempornea, SP, Mundo Cristo, 1987, p.167.

A teologia de Moltmann nasce enquanto reao ao existencialismo e absoro do revisionismo de Bloch. A descontruo do marxismo, realizada por esse filsofo, no agradou ao mundo comunista, mas estabeleceu uma ponte, diferente daquela da teologia da libertao, entre o hegelianismo de esquerda e o cristianismo. Substituiu a dialtica pelo ainda-no, enquanto espao que no est fechado diante de ns, e definiu uma antropologia que no mais est calcada no imprio dos fenmenos econmicos, mas na esperana.

Os escritos filosficos do jovem Marx serviram de ponto de partida para o vo de Bloch. A alienao do homem um fato inquestionvel, no como determinao econmica, mas enquanto determinao ontolgica. Afinal, o universo em que vive essencialmente incompleto. Mas a importncia do incompleto que suceptvel de complemento. Por isso, o possvel, o ainda-no, o futuro traduz de fato a realidade.

Nesse processo esto presentes a subjetividade humana e sua potncia inacabada e permanente em busca de soluo e a mutabilidade do mundo no quadro de suas leis. Dessa maneira, o ainda-no do subjetivo e do objetivo a matriz da esperana e da utopia. A esperana traduz a certeza da busca e a utopia nos d as figuras concretas desse possvel.

Para Bloch, o homem impelido, assim, ao esforo permanente de transcender a alienao presente, em busca de uma ptria de identidade'. no vermelho quente' do futuro que est a razo fundamental da existncia humana.

Nenhum marxista chegou to prximo da escatologia crist!

"Deus -- enquanto problema do radicalmente novo, do absoluto libertador, do fenmeno da nossa liberdade e do nosso verdadeiro contedo -- torna-senos presente somente como um evento opaco, no objetivo, somente como conjunto da obscuridade do omomento vivido e do smbolo no acabado da questo suprema. O que significa que o Deus supremo, verdadeiro, desconhecido, superior a todas as outras divindades, revelador de todo o nosso ser, vive' desde j, embora ainda no coroado, ainda no objetivado (...) Aparece claro e seguro agora que a esperana exatamente aquilo em que o elemento obscuro vem luz. Ela tambm imerge no elemento obscuro e participa da sua invisibilidade. E como o obscuro e o misterioso esto sempre unidos, a esperana ameaa desaparecer quando algum se avizinha muito dela ou pe em discusso, de modo muito presunoso, este elemento obscuro". Ernst Bloch, Geist der Utopie, Franckfurt, 1964, p. 254 in Battista Mondin, Curso de Filosofia, So Paulo, Paulinas, 1987, vl. 3, pp. 246-7.

Bloch realiza uma penetrante releitura da cosmoviso judaico-crist. Entende o clamor proftico do mundo bblico e da proclamao crist no como alienao e pio, mas como fermentos explosivos de esperana, protestos contra o presente em nome da realidade futuro, a utopia.

Talvez por isso possamos dizer que nos anos 60, os caminhos de Moltmann e Bloch no apenas cruzaram-se na universidade de Tbingen, mas abriram espao para o mais enriquecedor dilogo cristo-marxista que conhecemos.

interessante lembrar que em 1968, quando manifestaes estudantis varriam Tbingen, Heidelberg, Mnster e Berlim Ocidental, grande parte dos lderes estudantis eram oriundos das faculdades de teologia. Sua Theologie der Hoffnung (Jrgen Moltmann, Teologia della Speranza, Queriniana, Brscia, 1969), publicada no incio da dcada na Alemanha, estava na oitava edio, e no ano seguinte, ele lanaria Religion, Revolution and the Future nos Estados Unidos.