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Deus, Alma e Morte No Pensamento Da Historia Ocidental

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JOS MARIA ALVES

DEUS, ALMA E MORTE NA HISTRIA DO PENSAMENTO OCIDENTAL

JOS MARIA ALVES WWW.HOMEOESP .ORG1

PREFCIO

Deus, alma e morte, so questes inquietantes, talvez mais do que inquietantes, angustiantes. Atravs dos tempos, mltiplas e contraditrias tm sido as respostas dos filsofos e telogos. Deparamo-nos com um emaranhado de solues, muitas vezes conturbadas, como consequncia da estrutura da mente que as gerou. Estes textos, no so uma Histria Temtica da Filosofia, mas antes um acmulo de apontamentos, e como tal devem ser lidos. Desfilam neles, cerca de 140 filsofos. Nem todos os que deveriam constar da obra nela figuram, e mesmo os que dela constam, talvez no tenham o seu pensamento devidamente exposto. Estes textos constituem-se como uma provocao ao filosofar e instigao reflexo dos que julgam aquele acto travestido de esoterismo. Por outro lado, so dedicados a S. Toms de Aquino, no do modo que esperais que sejam, mas do modo como o devem ser.

Jos Maria AlvesOUTUBRO DE 2008

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INTRODUO

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1 FILOSOFIA

A filosofia Ocidental teve o seu incio na Grcia, no sculo VI a.C. Segundo uma tradio referida por Plutarco e por Ccero, teria sido Pitgoras o primeiro a utilizar as palavras filosofia e filsofo, num entendimento de que a expresso sbio, apenas aos deuses convm, devendo os mortais limitar-se por via das suas limitaes, a uma aspirao sabedoria. Pitgoras, distinguiu na vida trs espcies de homens, exactamente como nos jogos olmpicos. A classe inferior a dos que a se deslocam com o intuito de comprar e vender; a seguinte, a dos competidores; e, acima de todos estes, os que simplesmente vem. Estes so os filsofos, que actuam desinteressadamente, nica e exclusivamente por amor sabedoria. Mas, talvez mais do que com Pitgoras, foi Scrates e na sequncia deste, Plato, que definiram com algum rigor a palavra filosofia, entendida como amor da sabedoria, o que pressupe o seu desejo, que o desejo de conhecer, na medida do possvel, tudo o que passvel de conhecimento. Este conhecimento subsiste na constatao da ignorncia, que uma qualidade da imperfeio do ser humano, o que impe a pesquisa prvia da nossa natureza. Da decorre a afirmao do imperativo dlfico Conhece-te a ti mesmo. Os gregos esperavam da filosofia mais do que os filsofos modernos. Esperavam a modificao das suas vidas. O homem vive num estado intermdio entre a total ignorncia e a posse plena da sabedoria. Plato vem4

a determinar no Fdon, que o filsofo por meio da sua especulao, promove a purificao da alma e prepara-se convenientemente para a libertao final, que mais no do que a morte. No cincia nem teologia. A cincia uma circunstncia do conhecimento que abarca um conjunto de aquisies de ndole intelectual, que tm por finalidade propor uma explicao racional e objectiva da realidade, essencialmente com recurso verificao experimental. Por seu turno, a teologia dogmtica, revelada, restringe-se aos dogmas, tradio e revelao, estribando-se nos textos sagrados. Deparamo-nos ainda, com uma teologia natural, racional ou filosfica, que investiga o que a Deus respeita, ancorando-se na razo. Esta a cincia de Deus, que tem por fundamento a razo e no a revelao atente-se que foi durante o longo perodo qualificado na Histria da Filosofia como da Filosofia Crist, que foi realizada a distino entre teologia natural e teologia revelada. Ora, contrariamente revelada, a teologia natural, no nosso entender, a parte da metafsica que investiga a existncia e a essncia de Deus o Ser Absoluto e Infinito , objecto da filosofia primeira desde Aristteles. Mas, se no cincia nem teologia, qual o lugar que ocupa no mundo do conhecimento? As questes filosficas mais inquietantes, no tiveram, no tm, e provavelmente nunca tero uma resposta satisfatria. No pertencem ao domnio da cincia. Algumas so comuns teologia, quer dogmtica quer natural. No entanto, a primeira no se identifica minimamente com a filosofia, porquanto se atm revelao, violentando a liberdade de pesquisa. A segunda, em essncia metafsica, como j deixmos assinalado, cujo estudo incide sobre um dos problemas fundamentais: Deus. Assim, consideramos que a filosofia toma assento num campo neutro, donde no vislumbramos a cincia com o seu conhecimento definido, e nos afastamos com celeridade da teologia com os seus dogmatismos obnubiladores. Num campo neutral, no h certezas, verdades. As questes filosficas tm respostas mltiplas, condicionadas pelo homem que as postula, em funo dos seus condicionamentos e da sua mundividncia. Quando postulamos uma qualquer doutrina ou teoria v.g. a realidade Deus, todo o resto iluso; s a matria existe nas suas mltiplas combinaes; o conhecimento advm dos sentidos; ou advm dos sentidos e da razo; ou de ambos e da intuio ponderando todos os argumentos disponveis, e com a necessria abertura de esprito a fazemos nossa, estamos a filosofar. O mesmo no se poder dizer dos que admitem uma qualquer realidade ou crena, por fora da autoridade de outrem, da revelao manifestada em livros a que chamamos sagrados ou porque nos

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queremos simplesmente adequar multido. As questes mais apetecidas so em regra as insolveis ou praticamente incognoscveis. A filosofia, sendo a cincia das perguntas sem resposta pelo menos nos domnios que mais nos apoquentam , ter alguma utilidade? Valer ento a pena, tanto e to inglrio esforo? A inexistncia de respostas concludentes e apaziguadoras de uma curiosidade que a maior parte das vezes no pacfica, mas antes ansiedade patolgica, transportar-nos- no sinuoso trilho da felicidade? Ir concedernos tal beno, a almejada segurana, a sensao de permanncia pela qual tanto ansiamos e nos desespera em infundada e infrutfera busca? Seja como for, a inutilidade da filosofia, o seu fracasso, s poder relevar ao ser constatado pela anlise crtica do prprio filosofar. Quando percepcionamos a incerteza a que nos conduz a razo, quando penetramos nas profundezas do nosso ser convictos de que qualquer esforo indagatrio apenas pode causar maior confuso nos nossos limitados crebros, nessa quietude, que j no sabe o que a impermanncia e o desejo absurdo de encarar a verdade face a face, talvez algo surja, que no filosofia, teologia, cincia, mas antes harmonia e paz, uma paz que negada aos inquietos e aos arquitectos de iluses. A filosofia, primeira vista, parece ter triunfado sobre os males do passado. Tambm julgamos que triunfar sobre os do futuro. Pena , que nada consiga transformar no presente, e seja sinnimo de inutilidade prtica.

2 A METAFSICA E OS SEUS PROBLEMAS

A palavra metafsica, surge no sculo I a.C. com Andrnico de Rodes, que ao classificar os escritos de Aristteles, designou com tal denominao os textos que se seguiam Fsica. Em termos meramente literais, metafsica, o que vem depois da fsica, o que est para alm dela. A metafsica faz uso da razo e no da revelao religiosa como ocorre com a teologia revelada, para atingir respostas a questes cujo objecto so realidades imateriais, tais como Deus, a alma, a morte e seu significado. A metafsica comea onde todas as outras cincias terminam. Na perspectiva de alguns pensadores, nomeadamente Kant, a incognoscibilidade de tais inquietaes conduz fatalmente a uma iluso transcendental este um dos seus sentidos crticos. No obstante, mesmo6

que o seu decesso j tenha sido anunciado um sem nmero de vezes, assistimos ao seu renascimento renovado. Efectivamente, com este filsofo da modernidade tornado famoso entre outros, pela sua Crtica da Razo Pura , a metafsica parece ultrapassada. Mas, se por um lado a parece derrotar pela Crtica, tem a convico de que no se extinguir, pelo menos, como uma disposio profunda da natureza humana. Neste sentido so esclarecedoras as palavras quase profticas, com que termina a dita Crtica da Razo Pura: podemos estar certos de que voltaremos sempre metafsica como a uma amada com a qual por vezes discutimos; e isto, porque a razo, uma vez que se trata de fins essenciais, tem de trabalhar sem descanso ou na aquisio de um saber slido ou na destruio dos bons conhecimentos j adquiridos. Quer queiramos quer no, a busca da permanncia algo que est profundamente enraizado no homem, enquanto e desde que o , sendo uma das motivaes fundamentais que o conduziram filosofia. Deus e a imortalidade so as duas pedras angulares do instinto de segurana do homem. No entanto, como refere James Jeans, antes de falarem, os filsofos devem pedir cincia auxlio no que toca eventual verificao de factos e hipteses provisrias, s ento, podendo a sua anlise e discusso transcorrer legitimamente para o domnio da filosofia. interessante realar, que quer Descartes quer Leibniz, que podem legitimamente considerar-se como dois dos principais alicerces da cincia, foram eminentes metafsicos. Quando crianas e na adolescncia nos comeamos a questionar sobre questes insolveis ou para as quais apenas recebemos respostas insatisfatrias, somos desde logo metafsicos: Onde est o av que morreu, est no cu? Quem Deus? Quem fez Deus? Porque que eu nasci? Porque tenho de morrer? As questes metafsicas so questes sem resposta, mas mesmo assim, enquanto existirem homens estou certo de que no deixaro de ser formuladas. A sua inoperncia manifestamente suplantada pela angstia que decorre de uma inquietude essencial. O homem, na eminncia da sua extino, sofre a menos que, considerando o absurdo da sua existncia tenha optado pelo suicdio. Na constatao de que morre sozinho Pascal , busca ardentemente um alvio, que antes do mais, uma esperana, caso no se resigne fatalidade do decesso.

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Deus o resultado de um julgamento espontneo da razo S. Toms , uma ideia inata Descartes , uma pura intuio intelectual Malebranche , a ideia resultante do poder unificador da razo humana Kant , um fantasma da imaginao Huxley ou o fracasso de um sem nmero de seres pensantes atormentados por uma angstia existencial? O problema de Deus, da alma, do sentido da vida e da morte e suas implicaes espirituais, no susceptvel de anlise cientfica, no so factos empiricamente observveis. A cincia reduz-se explicao dos fenmenos, no s suas razes existenciais, aos porqus. Mesmo que possamos conhecer a sua existncia, no o compreendemos, nem compreenderemos desconhecemos a sua essncia. A grande questo metafsica, segundo Leibniz, e na sequncia deste, de Heidegger, a de saber porque existe alguma coisa em vez de nada. a grande questo da filosofia. Existindo, o homem um ser-para-a-sua-morte. Atormenta-nos a ideia que desde o momento do nosso nascimento comeamos imediatamente a morrer, e morremos sozinhos. Conseguimos imaginar o nosso prprio nada? Ou algo de carcter imperativo, nascido nos confins da nossa mente, vem assegurar-nos a existncia de uma alma imortal que um Deus criador receber no seu seio aps o nosso decesso? Mas, se no conseguimos definir a vida, encontrar o seu sentido se que algum sentido tem , como poderemos compreender a morte? Por outro lado, mesmo que ateste a minha existncia, a minha essncia e liberdade, estarei em condies de responder questo: porque existe o ser em vez do no-ser, do nada? Aristteles considera que ou se deve filosofar ou no se deve: mas para decidir no filosofar ainda e sempre necessrio filosofar; assim, em qualquer caso necessrio filosofar, mesmo com o risco da metafsica ser remetida para o vidro de reciclagem do conhecimento: H metafsica bastante em no pensar em nada. Onde finda a metafsica, inicia-se a teologia, com as suas revelaes, mediaes e dogmas. Se Pascal renunciou filosofia em detrimento da religio, outros abandonaram-na em detrimento daquela, na esperana de que a razo solucionasse as suas mais profundas inquietaes. As religies respondem na prtica a todas as questes metafsicas. Mas, se a razo absolutamente falvel pelas suas naturais limitaes, que dizer da f que no uma afeio racionalizada, mas antes um sentimento? No sero os pensamentos dos homens meras brincadeiras de crianas, como afirmou Heraclito?8

3 - FILOSOFIA ANTIGA

Quase todas as hipteses e questes da filosofia moderna foram pensadas pelos gregos. Os PR-SOCRTICOS so audazes e espontneos. Com eles, o pensamento organiza-se e pressagia-se uma nova era na histria da humanidade. Procuraram explicar o mundo utilizando um mtodo que qualificaremos ainda que com alguma impreciso cientfico, por oposio explicao mtica da realidade. Da a sua imensa importncia no panorama do pensamento. Conhecemos os seus pensamentos, quer por fragmentos das suas obras alguns recolhidos e transcritos por autores que lhes aditaram indevidamente interpretaes meramente pessoais quer fundamentalmente pelos escritos de filsofos posteriores, que vo de Plato sculo IV a.C. e Aristteles, a Simplcio sculo VI d.C. , realandose para alm dos citados, Teofrasto, Plutarco, Sexto Emprico, Clemente de Alexandria, Hiplito e Digenes Larcio historiador da filosofia grega, viveu no sculo III d.C., e escreveu Vida, Doutrinas e Sentenas dos Filsofos Ilustres. Atente-se, que da filosofia grega, apenas Plato, Aristteles e Plotino tm as suas obras preservadas quase que integralmente. No perodo anterior a Scrates, a palavra Deus no tem uma conotao religiosa idntica dos perodos subsequentes deus como objecto de culto. Os filsofos pr-socrticos poderiam ter desenvolvido a teologia natural, at aos seus fins ltimos, mas como ensina tienne Gilson, no o fizeram porque no queriam perder os seus deuses. Nas tradies religiosas em que abundam muitos deuses, cada ente divinizado representa uma energia positiva ou negativa, criativa ou destrutiva. Os deuses gregos so dinmicos, verdadeiras entidades viventes, tal como o homem. No entanto, no so atingidos pela morte por isso, tambm eram denominados Imortais e influenciam o destino dos mortais, dependendo estes da sua graa ou da sua desestima. Mas, com o nascimento da filosofia, o homem religioso que tambm filsofo, haveria de considerar que a causa primeira, ou se quisermos princpio, a explicao vlida para a existncia do todo, ou seja, do que existiu, do que existe e do que existir no porvir. Como bem anota Hobbes Da Natureza9

Humana , O Ser que existe com o poder de produzir, se no fosse eterno, deveria ter sido produzido por algum Ser anterior a ele e este por um outro Ser que o tivesse precedido. assim, que remontando de causas em causas, chegamos a um poder eterno, ou seja, anterior a tudo, que o poder de todos os poderes e a causa de todas as causas. isso que todos os homens concebem pelo nome de Deus, que encerra eternidade, incompreensibilidade, omnipotncia. Tales e os que se lhe seguiram eram filsofos e procuraram o primeiro princpio, independentemente da existncia de mltiplos deuses, que tambm dominavam o panorama religioso ao tempo de Scrates, Plato e Aristteles. No Timeu, Plato concede divindade um carcter politesta, dela participando vrios deuses, cada um com funes e domnios especficos o demiurgo apenas o seu superior hierrquico. E quer queiramos quer no, tambm o nosso mundo est repleto de deuses... Anote-se, apesar de tudo, que enquanto os filsofos gregos se debatiam com a questo dos seus deuses e do seu lugar no mundo, o povo judeu j havia encontrado a resposta s suas inquietaes: o seu Deus e Senhor era nico e apresentara-se a Moiss como Jav, Eu sou o que sou. Segundo Simplcio, alguns filsofos, nomeadamente Anaximandro, Demcrito, Leucipo e no perodo tardio da filosofia grega, Epicuro, imaginaram mundos incontveis que nasciam e morriam ad infinitum, alguns nascendo sempre e outros morrendo. Muito antes das descobertas cientficas iniciadas com Galileu e Coprnico, j os gregos expunham hipteses absolutamente verosmeis: Enpides, que viveu no tempo de Anaxgoras, descobriu a obliquidade da elptica; Heraclides do Ponto, nascido em 388 a.C., descobriu que os planetas Vnus e Mercrio giram em torno do Sol e que a Terra gira sobre o seu prprio eixo, com uma rotao completa a cada 24 horas; Aristarco de Samos, nascido em 310 a.C., afirmou que todos os planetas giram volta do Sol, incluindo a Terra, que tem um movimento de rotao de 24 horas; Arquimedes afirmou, por seu turno, que quer as estrelas fixas quer o Sol no se movem e que a Terra gira em volta deste. A hiptese de Aristarco apenas foi defendida na Antiguidade, por Seleuco, que floresceu por volta do ano 150 a.C, e tida por errnea at Coprnico custa-nos a acreditar que este a desconhecia. SCRATES, foi mestre de Plato e nas palavras de Ccero trouxe a filosofia do cu para a terra. Filosofa sobre o homem e o mundo que com ele interage, tendo adoptado a divisa dlfica Conhece-te a ti mesmo. Devemos o conhecimento dos seus ensinamentos a Plato.10

justo afirmar, que quer Plato quer o seu discpulo Aristteles foram os filsofos mais influentes de todo o perodo filosfico at idade moderna. Talvez Plato, tenha exercido uma maior influncia do que o seu discpulo Aristteles, j que a filosofia crist at ao sculo XIII foi essencialmente platnica. PLATO pensa tudo o que pensvel. Segundo Karl Jaspers Iniciao Filosfica , atingiu uma culminncia tal, que parece, ningum poder subir mais alto nos domnios do pensamento. dele que dimanam at hoje os mais profundos impulsos para a filosofia. O mesmo filsofo afirma que o futuro pensador assinala-se pela maneira como compreende Plato. Pode dizer-se que foi to longe quanto possvel. No h nada que lhe seja indiferente. Quis que a pesquisa filosfica incidisse sobre as figuras rectas ou circulares, as cores, o bem, o belo e o justo, todo o corpo artificial ou natural, o fogo, a gua e todas as coisas do mesmo gnero, toda a espcie de seres vivos, a conduta da alma, as aces e as paixes de toda a espcie. Para Plato, o Universo foi arquitectado por um demiurgo que teve como imagem ou padro o Bem. ARISTTELES, discpulo de Plato, indubitavelmente um dos fundadores da filosofia ocidental. Os seus ensinamentos tiveram uma fama imensa, quase ditatorial durante a Idade Mdia. Em Aristteles o Bem imutvel e o Universo tem uma tendncia irresistvel sua imitao. A ESCOLA PERIPATTICA nada trouxe de inovador aos ensinamentos do mestre Aristteles. Destacam-se Teofrasto, que defendeu a teoria aristotlica da eternidade do mundo e Estrato, que no se socorre da divindade para explicar a criao do mundo. As trs grandes escolas ps-aristotlicas, que dominaram o panorama filosfico da antiguidade, so: o ESTOICISMO, o EPICURISMO e o CEPTICISMO. Evidentemente, que as mencionadas escolas no podem estar de acordo quanto aos seus pressupostos tericos, mas nos fins a atingir ao nvel prtico, denotam uma curiosa concordncia: prosseguem todas elas a felicidade do homem, que se obtm essencialmente pelo fim da inquietude e ausncia de desejos e paixes. O estoicismo desbravou o caminho para o cristianismo.

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A poca clssica da filosofia grega, reconheceu na pesquisa o seu valor fundamental. A investigao filosfica alicera-se na razo, e no na tradio e na revelao, como ocorre com a teologia. Com os filsofos tardios contando-se entre eles os eclcticos e o seu profundo interesse religioso, muito especialmente com os do denominado perodo romano Sneca, Epicteto, Marco Aurlio , quer a tradio quer a revelao tomam assento nas especulaes, quase que pressagiando o aparecimento da filosofia crist. A filosofia antiga, termina com a figura mpar de Plotino.

4 FILOSOFIA CRIST

A histria do pensamento ocidental, a partir dos finais da Antiguidade, fortemente influenciada pelo cristianismo. A filosofia crist teve a sua existncia iniciada pelos Padres da Igreja v.g. Orgenes , passando por Santo Agostinho, S. Toms e outros, at ao Renascimento. O primeiro perodo dominado por Santo Agostinho e o segundo por So Toms de Aquino, que tal como os seus sucessores adoptou a filosofia aristotlica. Curiosamente, diga-se, que entre Bocio nascido em 480 e Santo Anselmo nascido em 1033 decorreram mais de cinco sculos, e se algum filsofo se destacou, foi Escoto Ergena. O perodo compreendido entre 600 e 1000, ficou conhecido como Idade Obscura. No entanto, na China a poca da dinastia Tang, florescente e prdiga fundamentalmente no domnio da poesia. Tambm a civilizao islmica floresceu neste perodo. Com a filosofia crist, estabeleceu-se o princpio de que a verdadeira vassalagem do homem para com Deus, e no para com a autoridade do Estado. Se a filosofia grega procura e liberdade, a filosofia crist comea por se ater revelao. Mas, no se cinge nica e exclusivamente verdade dogmtica, antes procura compreender para a poder realizar, a mensagem de Jesus. Para atingir os seus objectivos, no deixou de recorrer filosofia grega, em especial do seu ltimo perodo, profundamente imbuda de conceitos religiosos. O aproveitamento destas doutrinas, ocasionou no em poucas especulaes, resultados contraditrios ou at absolutamente12

incompatveis com os dogmas e princpios fundamentais do cristianismo. O telogo Dean Inge, afirma que no possvel separar o platonismo do cristianismo, sem que este seja dilacerado, e que So Toms sofreu maior influncia de Plato do que de Aristteles esta opinio no tocante maior influncia de Plato do que de Aristteles em So Toms no tem a anuncia da maior parte dos historiadores da filosofia. No olvidemos, que a influncia de Plotino ltimo dos grandes filsofos da antiguidade e fundador do neoplatonismo na teologia crist, se d por intermdio de Santo Agostinho. A pesquisa est limitada na maior parte dos filsofos aos ensinamentos e determinaes da Igreja. E aqui, ou se sabe para crer ou se cr para saber. Vive-se na certeza da existncia de Deus, da imortalidade da alma, da criao do mundo e da providncia divina. Na filosofia crist deparamo-nos com um conceito metafsico absorvente: o de Deus, o deus do monotesmo judaico, que se transforma no Deus do monotesmo cristo. Os Evangelhos so os alicerces de toda a estrutura do pensamento desta poca. Os judeus ainda aguardam o Messias, enquanto que os cristos j o tiveram na pessoa de Jesus Cristo, que o Logos da filosofia grega veja-se o Evangelho de Joo, onde Jesus identificado com o Logos platnico e estico. Tenha-se em considerao que o Inferno no uma crena de origem crist, mas baseia-se em crenas ancestrais.

A PATRSTICA a filosofia dos Padres da Igreja, que termina em meados do sculo VIII com Joo Damasceno e Beda o Venervel. Dedica-se essencialmente ao estudo das relaes entre filosofia e teologia, ao conhecimento da existncia de Deus e da sua essncia, ao mistrio da Trindade e criao do mundo. A gnose resultou num ataque contra o cristianismo. Mais do que a f, conhecimento, pesquisa filosfica, condio essencial salvao. Recebeu uma influncia determinante das doutrinas dos filsofos gregos. evidente que as teorias gnsticas afrontavam e colocavam em risco a harmonia doutrinal do cristianismo. A, surgem pensadores cristos que polemizam contra a gnose, vendo-se obrigados a uma elaborao doutrinal mais refinada, do que a assumida pelos padres apologetas dos primrdios da Patrstica.

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O sculo VI sofreu a influncia de trs grandes homens: Justiniano pelas leis , S. Bento pela organizao das ordens monsticas e Gregrio Magno pelo incremento do poder papal. O conhecimento da obra de Santo Agostinho d-nos um acesso seguro filosofia crist do primeiro perodo e a toda a pesquisa que tenha a alma por objecto. Para o Santo, Deus a substncia nica que tem uma existncia prpria, que existe por si s. Por outro lado, o mundo, tudo o que por excluso no Deus, e cuja existncia deste depende.

A ESCOLSTICA define a especulao filosfica e teolgica que teve abrigo nas mltiplas escolas eclesisticas e nas universidades da Europa a partir do sculo IX e at ao Renascimento. Durante este perodo procurou conciliar-se a razo com a f, com o apoio da filosofia grega em especial a de Aristteles. Em So Toms de Aquino, Deus o Ele que do monotesmo judaico. o Ser, uma das questes metafsicas mais obscuras e de difcil resposta. O Ser o acto em funo do qual a essncia . Retomando o conceito de causa ltima, sendo assim suprema, Deus o ente em que existncia e essncia coexistem, o que o leva a afirmar que todos os seres pensantes conhecem implicitamente Deus em toda e qualquer coisa que conhecem. Segundo tienne Gilson, So Toms foi to longe quanto possvel em metafsica, opinio que no partilhada por Bertrand Russel. Depois de S. Toms, realcemos as figuras de Rogrio Bacon representante do experimentalismo cientfico do sculo XIII , Duns Escoto e Occam ltimo grande filsofo da Escolstica , sem que olvidemos o misticismo de Mestre Eckhart.

5 RENASCIMENTO

Surgiu na Itlia, na primeira metade do sculo XIV, um movimento denominado Renascimento. Este, um verdadeiro regresso cultura grega e latina, por oposio ao obscurantismo da Idade Mdia.

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A filosofia grega era pesquisa, liberdade indagatria, busca da verdade. A filosofia da Idade Mdia, estribava-se fundamentalmente na verdade revelada, criando fortes amarras liberdade investigatria essencial ao conhecimento filosfico, j por si limitado pelas imperfeies da razo. Com o Renascimento h uma nova concepo do mundo, que no a aristotlica. Naturalistas v.g. Bruno , platnicos v.g. Nicolau de Cusa e cientistas v.g. Coprnico , so disso um exemplo. Pode afirmar-se que o pensamento moderno tem os seus fundamentos ou, se se quiser, o seu incio neste perodo. A incluso neste ensaio, de Coprnico, Galileu e Kepler, justifica-se porquanto, com o primeiro foi definitivamente destruda a cosmologia aristotlica, com o segundo a cincia moderna atinge o amadurecimento necessrio conducente s mltiplas investigaes posteriores, e todos, foram atacados ou perseguidos, quer por catlicos quer por luteranos.

6 FILOSOFIA MODERNAO perodo moderno caracterizado pela perda da autoridade da Igreja e pelo estabelecimento definitivo da autoridade da cincia. Durante a Idade Mdia, praticamente todos os filsofos eram religiosos. No perodo moderno, os filsofos so leigos, excepcionando-se, em especial, Malebranche e Berkeley. Pode dizer-se, que a partir do sculo XIX, a Igreja andou apartada da filosofia. Inexiste coeso sistemtica na filosofia moderna, contrariamente ao que aconteceu com a filosofia antiga e com a crist. O deus dos filsofos um conceito no religioso do divino. Pascal Memorial distingue aquele que no objecto de f, ao Deus de Abrao, de Isaac e de Jacob. O deus dos filsofos a causa do que o segue, e antes do mais, causa de si mesmo. Se Deus criou este mundo, podemos ou no assacar-lhe as mltiplas imperfeies dos seres, da responsabilidade do mal? A religio de Rosseau natural: Creio que o mundo governado por uma vontade poderosa e sbia: vejo-o, ou melhor, sinto-o e isso importa-me saber. Mas este mundo ser eterno ou criado? Haver um

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princpio nico das coisas? Haver dois ou vrios? E qual a sua natureza? Nada sei e que me importa! Kant julga que Deus indemonstrvel. No pela razo que Deus pode ser atingido, sendo a sua existncia um mero investimento moral. Ele uma pura crena da razo. Com as conquistas operadas pela cincia no sculo XX, os filsofos comearam a isolar a f na existncia de Deus, da compreenso do mundo natural. Acreditar em Deus, algo que decorre da interioridade de cada ser humano, algo de absolutamente prtico. No concordamos com Malraux quando afirma que o sculo XXI ser espiritual ou no existir, nem integralmente com a assero de Freud, que a religio nada mais exige para se curar do que a educao para a realidade. Deus, a alma, a ressurreio, a reencarnao, so pontos de referncia da inquietude humana que se compreendem em funo de uma angstia essencial e do seu melhor aliado: o medo. Na perspectiva de tienne Gilson, o problema metafsico de Deus dominado pelo pensamento de Kant e Comte. Relevam ainda, sobremaneira, todos os que nos dois ltimos sculos mataram Deus: Charles Darwin, Friedrich Nietzshe e Karl Marx. Procurmos resumir o pensamento de alguns dos mais importantes filsofos modernos, escolhendo como representante da ps-modernidade, Bertrand Russel.

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FILOSOFIA ANTIGA

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HESODOAristteles afirmou que foi Hesodo o primeiro a procurar um princpio das coisas. A Teogonia ter sido na Grcia o mais antigo escrito da cosmologia mtica. uma obra de carcter mitolgico, mas que uma cosmogonia. Hesodo narra a genealogia dos deuses personificadores de foras naturais e o modo como o mundo nasceu do caos mundo que tem em si a ordem. Zeus vitorioso, que garante a ordem e exerce o seu poder sobre todas as coisas e seres. Depois de Hesodo, conhece-se a cosmologia de Ferecides de Siros ver infra. Antes de todas as coisas era o Caos, depois veio a Terra, slido e eterno, assento de quanto existe. E Eros, o mais belo dos deuses mortais (...). Do Caos nasceram rebo e a escura Noite e, da Noite, se geraram o ter e a Luz do Dia. Teogonia

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FERECIDES DE SIROSSculos VII VI a.C. Ferecides, nasceu por volta de 600 a.C., foi contemporneo de Anaximandro e escreveu um livro onde se pode ler no seu incio: Zeus, Cronos e Ctnia so imortais. Ctnia tomou o nome de terra Quando Zeus lhe enviou uma oferenda. Zeus existiu desde sempre e juntamente com Cronos e Ctnia, um dos principais deuses. Zeus, transformado em Eros, que representa o Amor, procede construo do mundo.

SETE SBIOSA designao de Sete Sbios meramente simblica. Apenas quatro aparecem em todas as enunciaes: Tales, Ptaco, Bias e Slon. Plato fez-lhes acrescer: Clebulo, Mson e Qulon. So-lhes atribudas sentenas morais. Uma enumerao geralmente aceite: Clebulo de Lindos, Slon de Atenas, Ptaco de Mitilene, Tales de Mileto, Bias de Pirene, Qulon de Lacedemnia, e Periandro de Corinto.

BIAS DE PIRENEUm dos Sete Sbios. So-lhe atribudas, entre outras, as seguintes sentenas: A maior parte dos homens desonesta; A maioria perversa; V-te num espelho (que equivaler ao conhece-te a ti mesmo); Quanto aos deuses, limita as tuas afirmaes a dizer que so deuses.

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TALES DE MILETOVII VI a.C. Ter sido Tales quem primeiro recebeu o epteto de Sbio e quem unanimemente tratado em todos os tratados e histrias da filosofia como o primeiro dos filsofos, por ter sido provavelmente o primeiro, a negar a tradio mtica e a iniciar o trilho do mtodo cientfico. possvel que nada tenha escrito. O fundador da escola jnica deve ter nascido no ano 624 a.C. e falecido em 546 ou 545, e para alm de filsofo foi astrnomo, fsico e matemtico. Ficou famoso por ter predito um eclipse, que ter ocorrido em 585 a.C. Como refere Aristteles, na Poltica (1259,a), era bastas vezes censurado pela sua pobreza, que parecia mostrar a inutilidade da filosofia. Da, a famosa histria dos aluguer dos lagares de azeite, quando previu uma boa colheita de azeitona, demonstrando que se o sbio no enriquece por que o no pretende. Algumas sentenas morais que lhe so atribudas por Demtrio de Falera: Evita os adornos exteriores e procura os interiores; Evita a compaixo alheia; Evita a desonestidade. H ainda quem lhe atribua a mxima, Conhece-te a ti mesmo, adoptada por Scrates. Segundo Ccero, afirmou ser a gua a origem de todas as coisas, sendo Deus a inteligncia criadora, tomando a gua por matria prima. Assim, a gua para Tales o primeiro princpio de todas as coisas, talvez a substncia viva e divina do universo. Unida gua estaria uma fora vivificante, o que o ter levado a afirmar que tudo est pleno de Deus. As aparncias sensveis levaram-no a tal concluso, porque os seres vivos carecem de humidade para se manterem vivos, pois o que seca, morre, acontecendo por isso, serem hmidos todos os germes, os quais possuem uma seiva. (Simplcio) Ter tambm afirmado que a terra repousa sobre a gua (Simplcio) e o Cosmos Uno, sendo Deus a inteligncia universal e o lquido elementar penetrado pela energia divina, que assim o coloca em movimento (Acio).

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ANAXIMANDRO DE MILETOSc. VI a.C. Anaximandro, da Escola Jnica, da famlia de Tales, foi seu discpulo e sucessor. Teria 64 anos em 546 a.C. H quem refira que nasceu em 610 a.C., e que faleceu em 547. Na sequncia das investigaes fsicas encetadas por Tales, descobriu o equincio, o solstcio e os quadrantes relativos s horas, introduzindo os princpios do relgio de sol. o primeiro autor conhecido de escritos filosficos da Grcia antiga. A sua obra, denominada Acerca da Natureza, extraordinariamente interessante na audcia das teses cosmolgicas. Para Anaximandro, a terra tem a forma cilndrica e um astro que se encontra no centro do nosso mundo porquanto muitos outros nos circundam , no sendo arrastada para qualquer dos seus lados em virtude de se encontrar equidistante. Tudo deriva de uma substncia prima, infinita e eterna apeiron que contm em si todos os mundos. Essa substncia prima, no pode ser qualquer um dos elementos conhecidos, porquanto se um o fosse, conquistaria e destruiria os restantes. Todas as coisas provm do apeiron o que no tem limites, o infinito e todas retornam ao apeiron. Neste particular, lembra-nos Einstein, que afirmou a impossibilidade da matria ser criada ou destruda. A origem dos seres o infinito, no qual tudo se gera e tudo se dissipa, de onde j ter havido um nmero inestimvel de mundos gerados e corruptos pelo retorno origem. Exps as causas segundo as quais o princpio o infinito, dizendo que a razo da origem no conhece nenhuma carncia; mas no esclareceu se esse infinito o ar, a gua, a terra ou outro elemento. (Acio) O infinito o princpio ao que os seus predecessores denominavam substncia nica, chamou princpio que tudo abarca. Os seus atributos concedem-lhe o estatuto de divindade: indestrutvel e por conseguinte, imortal. Se infinito, ilimitado e, este, eterno. Ilimitado, indestrutvel, eterno, matria, mas matria em que os mais variados elementos esto ainda indiferenciados. Princpio infinito e indefinido.

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Pelo processo de separao decorrente do movimento incessante da matria infinita geram-se mundos finitos no h nada que o infinito no comporte que se sucedem ininterruptamente. No podemos dizer que Anaximandro previu, no a criao dos mundos, mas antes a sua evoluo. O prprio homem provm de espcies diversas da nossa.

ANAXMENES DE MILETOSc. VII VI a.C. Anaxmenes, da Escola Jnica, nasceu por volta do ano 550 a.C. e faleceu em 480. Foi discpulo de Anaximandro, e considerou constituir o ar o primeiro princpio, sendo manifestamente superior aos corpos simples. O ar encontra-se em incessante movimento, sendo um princpio infinito veja-se Anaximandro, que postulou as mesmas caractersticas para a substncia primeira, sem que no entanto a identificasse com qualquer elemento especfico. uma fora vivificante que produz a ordenao do mundo e do que o envolve. o princpio de que tudo deriva. Contrariamente ao seu mestre Anaximandro, reconheceu ser o ar a nica substncia infinita. Este elemento, difere nas substncias em virtude da dilatao e da condensao: quando subtil fogo, quando condensado, vento, nuvem, gua, terra e rocha (Simplcio). O ar divino. do ar que tudo deriva: deuses, seres, coisas. Assim como a alma, que ar, nos suporta, orienta e mantm, assim o sopro e o ar envolvem o cosmos (Fragmentos). O mundo respira a respirao a sua prpria vida e alma , e a nossa alma constituda por ar. H uma antiga tradio que julga que sendo a alma ar, poderia ser casualmente expulsa do corpo pelos espirros; da a atitude supersticiosa de proteco, que leva a que as pessoas que esto junto daquele que espirra, a pronunciar mecanicamente um Deus te abenoe ou santinho, fazendo assim, com que a alma retorne ao corpo, caso tivesse sido efectivamente expelida. A terra um disco cercado completamente por ar. No deixa de ser interessante anotar, que na Antiguidade foi mais clebre que Anaximandro, tendo-se invertido os papis a partir da Idade Moderna.

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ANAXGORASSc. V a.C. Membro da Escola Jnica, foi discpulo de Anaxmenes. Nasceu em Clazomene por volta de 500 a.C. Viveu durante cerca de trinta anos em Atenas, onde ter fundado uma escola. Faleceu no ano de 428 a.C. Na escola que fundou em Atenas, participaram entre outros, Pricles e Eurpides. De Anaxgoras ficaram-nos umas duas dezenas de fragmentos, que incidem sobre questes fsicas e metafsicas. Viveu para contemplar o Sol, a Lua e o cu. No se desassossegou com negcios ou com a vida poltica. Um dia, acusaram-no de ser indiferente sua ptria, ao que apontando para os cus, disse: A minha ptria importa-me muitssimo. Aceitou o princpio de Parmnides, no que toca imutabilidade do Ser. Para Anaxgoras, Deus a inteligncia criadora do Universo (Acio). Sendo Deus, ou estando o divino separado do mundo, sendo sua causa, alterou o pensamento dos filsofos que afirmaram a no criao do mundo, v.g., de Anaximandro. A existncia de ordem no mundo consequncia dessa entidade omnisciente. A alma distingue o homem da matria, e a origem do movimento. Segundo ele, em cada coisa h uma poro de todas as outras, exceptuando-se a alma, que apenas algumas coisas contm. A alma tem poder sobre tudo o que vivo, infinita, autoguiada, e nela no h qualquer mistura ou aglomerao de elementos das restantes coisas as coisas por mais pequenas que sejam, contm pores de todos os contrrios, como por exemplo, o quente e o frio, o branco e o preto. Todas as coisas estavam juntas, sendo infinitas em nmero e em grandeza, na ilimitada pequenez, porquanto o infinitamente pequeno tambm existia, e enquanto estiveram juntas, nenhuma podia distinguir-se das outras, como consequncia dessa pequenez. O Caos era ocupado pelo ar e pelo ter, ambos ilimitados, porque so eles que transcendem todas as coisas em nmero e em grandeza.

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A terra formou-se de coisas separadas, como a gua se separa das nuvens, a terra da gua e, da terra, em virtude do arrefecimento, as pedras, ainda mais do que a gua, precipitando-se para o exterior. Diz que os Helenos falam erroneamente quando dizem nascer e morrer, porque nada nasce, nada morre, apenas se verificando que as coisas se combinam ou se separam, ou melhor: todas as coisas tiveram um princpio por composio, e todas acabam por decomposio.

ARQUELAU DE ATENASSc. V a.C. Arquelau pertenceu Escola Jnica, foi discpulo de Anaxgoras e mestre de Scrates da que o mencionemos. Considerou ser o ar infinito o primeiro princpio, condensado e rarefeito.

HERACLITO DE FESOSculos VI V a.C. Para Heraclito, cidado de feso, da Escola Jnica, que viveu cerca de 500 a.C. ter nascido em 576 e falecido em 480 , contemporneo de Parmnides, o fogo a origem de todas as coisas e todas elas se convertem em fogo, a cujo destino no podem fugir. O fogo um princpio dinmico, criador, que existiu desde sempre e existir no porvir. Do fogo nasce a chama, mas para que esta nasa, algo tem de morrer verbi gratia, o combustvel. Os mortais so imortais e os imortais so mortais, uns vivendo a morte dos outros e morrendo a vida dos outros. Escreveu a obra Da Natureza, de que nos restam pouco mais de cem fragmentos. A sua fama depende essencialmente da doutrina que afirma o fluxo de todas as coisas. A vida uma sequncia de factos dissemelhantes, um fluxo contnuo de criao e morte. O fogo o elemento primitivo da matria, que est submetida a perptua mudana.

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Para alm da doutrina do fluxo perptuo, teorizou ainda a harmonia de tenses opostas ou da combinao dos opostos. Assim, bem e mal so o mesmo e para Deus todas as coisas so belas, justas e boas, sendo o prprio homem que erroneamente julga umas justas e outras injustas. Deus dia e noite, Vero e Inverno, guerra e paz, saciedade e fome; mas toma formas vrias como o fogo; quando misturado com aromas toma o nome de cada um deles. Tinha um manifesto desprezo pela humanidade, tendo afirmado entre outros, que o burro prefere a palha ao ouro. Por oposio a deuses, Heraclito fala em Deus. O caminho que conduz sabedoria o de Deus, nunca o dos homens, j que estes so como crianas para Deus, tal como a criana para o homem. O Universo Uno e no foi criado por nenhuma divindade. Todas as coisas tm a sua origem no Uno que Deus. O Uno vem de todas as coisas e todas as coisas do Uno.

Segundo Plato, sustenta que todas as coisas se encontram em processo, em perptua mudana, que nenhuma permanece como parece e, comparando-as a um rio, ningum pode descer duas vezes nas mesmas guas: No possvel descer duas vezes ao mesmo rio nem tocar duas vezes numa substncia mortal no mesmo estado; pela velocidade do movimento, tudo se dissipa e se recompe de novo, tudo vem e vai. A morte da terra a sua transformao em gua, a da gua a sua mudana em ar e o ar transforma-se em fogo e o fogo em ar. A doutrina do fluxo perptuo no aquieta o homem na busca de algo que seja permanente. Foi Parmnides, que procurou resolver esta inquietude essencial, inerente natureza humana. A alma composta por fogo e gua, o primeiro, obviamente um elemento nobre, enquanto que a gua lhe inferior. Da que a alma seca, seja mais sbia e melhor. Interessante a imagem do homem bbado: Um homem bbado conduzido por um rapazola imberbe, tropea, no sabe onde pe os ps, por ter a alma hmida. Heraclito defende que o conhecimento da alma nos interdito: Tu no encontrars os confins da alma, caminhes o que caminhares, to profunda a sua razo. Antecedendo Scrates, considera que o ser humano deve examinarse a si mesmo e aos outros.25

FRAGMENTOS O Sol tem um dimetro correspondente ao tamanho do p do homem. Noctmbulos, magos, sacerdotes de Baco, sacerdotisas da pipa de vinho, negociantes de mistrios. Os mistrios praticados pelos homens so mpios. Juntai o pleno ao nulo, a concrdia discrdia, a harmonia desarmonia, pois tudo uno, e o uno tudo. O que espera os homens aps a morte no , nem o que esperam, nem o que julgam. Este mundo, o mesmo para todos, no foi criado, nem pelos deuses, nem pelos homens; , como sempre foi, e sempre ser, um fogo permanente, com moderao se extinguindo e com moderao se iluminando. E eles dirigem preces a essas imagens, e como se falassem para as paredes, no sabendo o que so os deuses e os heris. Descemos e no descemos s guas do mesmo rio, somos e no somos. Todas as coisas se modificam pelo fogo e o fogo modifica-se por todas as coisas, assim como as mercadorias se trocam por oiro e o oiro por mercadorias.

DIGENES DE APOLNIASc. V a.C. Digenes de Apolnia, da Escola Jnica, foi discpulo de Anaxmenes e um fisilogo de renome. Considera que o ar infinito a origem de todos os seres e defende a tese da finitude do mundo. Segundo Digenes Larcio, so estas as teorias de Digenes de Apolnia:26

- Existe um elemento, o ar, e um caos ignoto e insondvel. Consoante a densidade, o ar gera os seres; - Nada nasce do nada e nada volta ao nada; - A terra esfrica e situa-se no centro do Universo.

FRAGMENTOS Penso que a substncia primordial que contm a razo o elemento chamado ar, que governa e ordena todas as coisas, sendo ainda o ar, na minha opinio, a prpria divindade, por se encontrar em toda a parte.

PITGORAS DE SAMOSSculos VI V a.C. Pitgoras, discpulo de Ferecides de Siros, dever ser englobado na Escola Itlica. Talvez tenha tambm sido discpulo de Anaximandro e viveu por volta de 532 a.C. uma personagem enigmtica, mtica, a quem foram atribudos poderes miraculosos. Como S. Francisco, pregava aos animais, j que todas as coisas vivas devem tratar-se como aparentadas. Era considerado pelos seus discpulos como um semideus. No sabemos se escreveu alguma obra. No entanto, h uma doutrina que lhe unanimemente reconhecida: a imortalidade da alma e sua transmigrao para outros seres. Dicaiarcos afirma que Pitgoras foi o primeiro a ensinar que a alma imortal e se transforma em outras espcies de seres vivos. Os seus ensinamentos estaro reunidos num poema denominado Os Versos de Ouro, datado do sculo IV, ainda que de forma muito incompleta. A matemtica enquanto demonstrao dedutiva, inicia-se com Pitgoras. A vida um jogo de nmeros. Bertrand Russel considera-o um dos homens mais importantes de sempre. Foi fundador de uma religio onde se afirmava a transmigrao das almas e a proibio de comer favas. Eis alguns preceitos da sua religio: - No comer favas; - No apanhar o que caiu; - No tocar num galo branco; - No partir po;27

- No passar sobre uma tranca; - No comer o corao; - No passar em estradas. Algumas das doutrinas que lhe foram atribudas tiveram uma divulgao quase universal: - a alma imortal; - a alma transforma-se em outros seres; - os fenmenos naturais so cclicos; - no existe nada de novo na terra; - tudo se parece. Segundo Pitgoras, somos estrangeiros no mundo; o corpo o tmulo da alma, mas no devemos fugir pelo suicdio; porque ns somos bens de Deus, nosso pastor, e sem sua ordem no temos o direito de nos evadirmos. Na vida h trs espcies de homens, exactamente como nos jogos olmpicos. A classe inferior a dos que vm comprar e vender; a seguinte, a dos competidores; e, acima de todos, os que simplesmente vem. A maior purificao portanto a cincia desinteressada, e o homem que mais se lhe dedica, o verdadeiro filsofo, quem mais se liberta da roda dos nascimentos. Para os pitagricos a matemtica exprimia a verdade. O nmero 10 o nmero autntico. A sua energia depende do nmero 4: se partirmos do nmero 1 e somarmos os nmeros at ao 4, obtemos o 10 1+2+3+4. Russel, cr ser a matemtica a principal fonte da crena na verdade eterna e exacta e num mundo inteligvel supra-sensvel. Matemtica e teologia, numa combinao profcua, tiveram o seu comeo com Pitgoras e influenciaram as filosofias religiosas da Grcia, da Idade Mdia e da Moderna, at ao aparecimento de Kant. Algumas das regras de oiro estabelecidas por Pitgoras: - Presta culto aos deuses conforme o grau de divindade que lhes atribudo; - Cumpre a tua palavra; - Honra pai e me e parentes de sangue; - Domina o desejo, o sono, as paixes e a ira; - Evita as aces pecaminosas, estejas s, estejas acompanhado; - Cultiva o respeito por ti prprio; - Exercita a prtica da justia; - Pensa antes de fazer seja o que for, evitando aces fteis; - Procura ser saudvel; - Examina a tua conscincia diariamente;28

- Cumpre tudo isto (...) e ters fugido lei da morte! No que ao mundo respeita, os pitagricos admitiam no seu centro, a me dos deuses, um fogo central donde derivaram todos os astros.

EMPDOCLES DE AGRIGENTOSc. V a.C. Empdocles, da Escola Itlica, foi condiscpulo de Parmnides, apesar de mais novo, e dos pitagricos. Nasceu em Agrigento e ter vivido por volta de 440 a.C. H quem estabelea a data da sua morte no ano de 490 a.C. Foi poltico e intitulou-se deus. um filsofo lendrio, do qual se diz ter operado inmeros milagres v.g. a ressuscitao de uma mulher e ser capaz de dominar os ventos. Morreu tentando demonstrar a sua prpria divindade, precipitando-se na cratera do vulco Etna. De Empdocles dispomos de cerca de 500 versos, das obras Da Natureza e As Purificaes. No poema Da Natureza, conceptualiza como origem de todas as coisas, quatro razes quatro elementos. Nas Purificaes, trata da transmigrao das almas, o que sempre um mal para o homem. No domnio cosmolgico, afirmou a existncia de quatro elementos: o fogo, o ar, a gua e a terra. Estes so eternos, mas combinam-se uns com os outros, em propores diferentes, formando-se assim, todas as substncias conhecidas. Existem duas energias criadoras: o Amor e a Repulsa, uma que une e outra que cinde. O mundo nasce ou morre consoante o predomnio do Amor ou da Repulsa. Quando o Amor domina, h um perfeito equilbrio. Mas, durante este perodo os elementos esto fundidos num todo, que mais no do que um deus que se compraz na sua prpria solido. sublimao chama Zeus, ao ar chama Hera, terra chama Adnis, enquanto Nstia e a fonte viva significam o smen e a gua. A purificao dos homens, faz-se atravs da transmigrao das almas.29

Os elementos no existem em lugares determinados, nem constantes, uma vez que se encontram em perptua e recproca transmutao.

FRAGMENTOS Dos elementos provm tudo o que foi, tudo o que , e tudo o que ser. Fui rapaz, depois rapariga, rvore e ave, peixe mudo do mar. Deus incorpreo, no tem cabea humana, nem dorso de onde saiam, como dois ramos, os braos; no tem ps, nem joelhos flexveis, nem membro viril, tufado de pelugem; um esprito augusto, uma inefvel energia, cujo veloz pensamento trespassa o Universo.

XENFANES DE CLOFONSculos VI V a.C. Xenfanes foi o iniciador da Escola Eletica. Esta afirma, que as denominadas coisas no so mais do que uma coisa. Das suas Elegias pouco sabemos, apenas que defendeu o pantesmo e distinguiu a cincia da mera opinio. O mundo incriado, eterno e incorruptvel. (Acio) Os homens nascem da terra e da gua. Todas as coisas tm a sua origem na gua. Acreditava num nico Deus, que sem esforo dirigia todas as coisas pela fora do esprito. O seu Deus um deus total e obviamente eterno e imutvel, que dirige o mundo pela fora incomensurvel do seu esprito. Criticou veementemente Homero e Hesodo: Homero e Hesodo atriburam aos deuses as causas do oprbrio e da desonra dos mortais; o roubo, o adultrio e a traio. Os mortais julgam que os deuses so gerados como seres mortais, que se vestem, falam e possuem um corpo como o nosso. Se os bois, os cavalos e os lees tivessem mos, poderiam com elas apanhar os objectos e produzir obras como fazem os homens; os cavalos pintariam figuras divinas semelhantes a equdeos, os bois pint-las-iam30

tauriformes, enfim, cada animal pintaria os deuses sua prpria imagem e semelhana. Os etopes afirmam que os deuses so baixos e pretos; os trcios dizem que os deuses tm olhos azuis e cabelos ruivos. H um s Deus, senhor soberano dos deuses e dos homens, que no se parece com os homens, nem pelo corpo, nem pela alma. Que v o todo, pensa o todo, sabe o todo. Que tudo pe em movimento, por vontade do pensamento, sem esforo. Contrariou a doutrina da metempsicose, chegando mesmo a ridicularizar Pitgoras. Este, passava numa rua enquanto um co estava a ser maltratado. Xenfanes, dirigindo-se a quem maltratava o animal, de forma a que Pitgoras o ouvisse, disse: Pra, no lhe batas, a alma de um amigo! Reconheci-o pela voz. Tinha um perfeito conhecimento das suas limitaes, quer filosficas quer teolgicas: Nenhum homem sabe nem saber a verdade exacta acerca dos deuses e de todas as coisas de que falo. Mesmo que um homem pudesse dizer alguma coisa inteiramente verdadeira, no o saberia; s h conjecturas.

PARMNIDES DE ELEIASculos VI V a.C. Ter nascido em Eleia no ano de 540 a.C. e falecido em 450. Parmnides foi discpulo de Xenfanes e de Anaximandro. Pode considerar-se o fundador do eleatismo. Scrates, ainda jovem, ter-se- encontrado com Parmnides, com quem adquiriu preciosos conhecimentos. Do poema Da Natureza, apenas temos acesso ao seu incio, que profundamente esotrico. Se Heraclito considerava o fluxo permanente das coisas, ou seja, que tudo muda, Parmnides em resposta a tal doutrina, afirmava que nada muda e que a mudana uma iluso. A sua doutrina est condensada no poema Da Natureza, do qual subsistem 160 versos. Para Parmnides, o Todo finito, equidistante do centro. O mundo Uno.

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Os sentidos iludem-nos, como ilusrias so as coisas sensveis. O Uno, infinito, o nico ser verdadeiro o Uno de Parmnides no o que podemos entender por Deus, j que material, infinitamente extenso, sendo uma esfera indivisvel porquanto em toda a parte presente. Deus imutvel, limitado, esfrico. O Ser completo e perfeito. Completo apenas o pode ser algo finito, j que o infinito incompletude. E esfrico, que o smbolo da perfeio. Quer Parmnides quer Demcrito afirmaram que tudo se processa em funo da necessidade, que consiste numa conjuntura de fatalidade, justia e providncia, criadora do mundo. O mundo incriado, eterno e incorruptvel. A eternidade a pura negao do tempo, contrariamente tese que defende a infinitude temporal. As duas vias indagatrias, segundo Parmnides: - Uma afirma que o Ser , e que o ser no pode deixar de ser, sendo esta a via da verdade; - A outra, que o Ser no , que o No-Ser , nada se podendo aprender por esta via. Em suma, o Ser ! O Ser no pode em caso algum nascer. Se nascesse derivaria do noser, o que de todo impensvel, porquanto o no-ser no . Tambm no pode perecer, porque ao perecer teria de se dissolver no no-ser, que como j ficou dito no . O que de Parmnides foi mais marcante na complexa histria da filosofia, no foi a impossibilidade de existir qualquer mudana, mas antes, a permanncia da substncia, atenta a sua indestrutibilidade.

MELISSOS DE SAMOSSc. V a.C. Melissos, da Escola Eletica, foi discpulo de Parmnides. Temos a informao de que comandava a frota de Samos, que no ano de 422 a.C. derrotou os Atenienses. Postulou um universo ilimitado, um Cosmos infinito, imvel, idntico a si mesmo, com as qualidades do uno e do pleno. O Ser infinito e eterno. Para alm disso incorpreo. Se , necessrio que seja uno; e se32

uno no pode ter corpo, porque se o tivesse seria constitudo por partes, e o que constitudo por partes no pode ser considerado uno. Afirmava que o movimento no existe, sendo antes uma iluso dos sentidos. No tocante aos deuses, teorizou ser desnecessria de todo uma explicao definitiva, atenta a sua incognoscibilidade.

FRAGMENTOS O ser sempre foi e sempre ser, porque se antes de ser tivesse sido, deveria no ter sido, e se no era, no poderia vir a ser. Se no comea, nem acaba, mas sempre foi e ser, no tem, nem princpio, nem fim, pois uma coisa no totalmente se assim no for. O que tem um princpio, ou um fim, no pode ser, nem eterno, nem infinito. O cosmos eterno, infinito, uno e contnuo; no se pode aumentar nem diminuir, nem internamente mutvel, nem sofre, nem se desgosta.

ZENO DE ELEIASc. V a.C. Zeno, da Escola Eletica, ter nascido por volta do ano 490 a.C. em Eleia. Faleceu cerca de 425. Foi influenciado por Parmnides, de quem foi discpulo. So muito poucos os fragmentos de um Tratado escrito por Zeno. Assim, para a reconstituio do seu pensamento, teremos de contar com a preciosa colaborao de Aristteles, muito em especial, no que respeita aos seus famosos paradoxos. As suas doutrinas assemelham-se s do seu mestre. Aceitava a simplicidade e imutabilidade da Realidade e considerava os sentidos fonte de iluso ou erro. Ficou famoso pelos seus paradoxos procurando contrariar a tese dos que atribuam aos sentidos papel fundamental na aquisio do33

conhecimento e que defendiam a pluralidade e a mudana , sendo notveis, o da seta, de Aquiles e da tartaruga e o do monte. Postulou quatro teses sobre o movimento, as quais constituem uma fonte de dificuldades para quem as intentar entender ver Aristteles, Fsica VI, 239-a. Por outro lado, argumentou contra a multiplicidade e a divisibilidade das coisas. Zeno nega a multiplicidade, o espao e o tempo. O mvel no se move, nem no espao onde se encontra, nem no espao onde no se encontra.

LEUCIPO DE ABDERASc. V a.C. Se considerarmos a existncia de uma Escola Abdertica, ento Leucipo foi o seu primeiro representante, seguido por Demcrito. Deve ter vivido por volta de 440 a.C. H quem aponte o seu nascimento para o ano de 460 a.C. e o falecimento em 370. Julga-se que algumas das suas obras tenham sido atribudas a Demcrito. Influenciou Epicuro e Lucrcio. Teofrasto atribuiu a Leucipo a obra Grande Cosmologia, da qual muito poucos fragmentos restam. Leucipo, ter sido discpulo de Zeno e foi o primeiro a sustentar que todas as coisas tm a sua origem nos tomos. Postulou que o universo ilimitado, sendo uma parte plena, enquanto que a outra vazia. O Ser o pleno, enquanto o no-ser, o vazio.

FRAGMENTOS Nada se cria em vo, tudo se cria por determinao de uma causa, ou em virtude de uma necessidade.

DEMCRITO DE ABDERASc. V a.C. Nasceu em Abdera e foi contemporneo de Scrates. Discpulo de Leucipo, ter segundo a tradio viajado muito, estudando inclusivamente com os gemetras do Egipto. No obstante tenha sido contemporneo de34

Scrates, parece que no travou conhecimento com ele. Conheceu Anaxgoras. Ter escrito vrias obras, mas apenas nos restam poucos fragmentos incidentes sobre a fsica e a tica, e alguns relativos educao. Tudo composto por tomos. Entre eles, existe o vazio. Esto na origem de todas as coisas. Existem em grandeza e quantidades inumerveis, movimentando-se num turbilho no explica o seu primeiro movimento. Deles geram-se os compostos, o fogo, o ar, a gua e a terra. Os tomos so divisveis e a sua divisibilidade eterna. No entanto, existem tomos que so incorruptveis os que constituem o fogo, o ar, a gua e a terra. Contrariamente ao que muitos afirmam, para os atomistas nada parece acontecer por acaso. Os mundos so ilimitados, uns nascendo e outros morrendo. Apesar de incriados, so perecveis. Pode acontecer que os mundos tenham sido criados, mas o Criador incognoscvel. O Ser no deriva do No-ser, nem a este retorna. Nada pode surgir a partir do que no existe, nem extinguir-se no que no existe. A felicidade um estado de repouso e de paz da alma, a qual no se deixa inquietar, quer por supersties quer por afectos. Onde faltar a justia e a razo, haver sempre medo da morte. A alma, composta de tomos, mortal, extinguindo-se com o corpo. Demcrito pode assim ser tido como materialista. Pode ser considerado um cidado do mundo quando diz: A ptria da alma excelente todo o mundo.

PROTGORAS DE ABDERASc. V a.C. Ter nascido em Abdera no ano de 485 a.C. e falecido em 410. Era familiar de Pricles. Protgoras, discpulo de Demcrito, viajou muito e foi um dos sofistas os sofistas ensinavam a troco de dinheiro , tal como Grgias e Prdico de Ceos. Os sofistas ensinavam aos jovens coisas teis para a vida prtica, mormente a arte de discursar em tribunal.35

So muito poucos os fragmentos da obra de Protgoras. No entanto, para o conhecimento da sua especulao, poderemos sempre contar com o testemunho de Plato. Conta-se que Protgoras ensinou um jovem com a condio de ser pago caso este ganhasse o seu primeiro litgio. Ora, foi o prprio Protgoras que lhe moveu uma aco para poder ser ressarcido do montante estipulado para ensinar o dito discpulo... Ter sido o primeiro a sustentar que um orador pode efectuar dois discursos perfeitamente contraditrios sobre o mesmo tema, mtodo que utilizou. O homem a medida de todas as coisas, das que existem e das que esto na sua natureza, das que no existem e da explicao da sua inexistncia. Escreveu um livro, com o ttulo, Dos Deuses, dizendo nada poder afirmar relativamente a tal questo. Nem afirmar nem negar a sua existncia ou a sua forma, em virtude de muitos serem os impedimentos, entre eles se contando, quer a obscuridade do assunto quer a brevidade da vida humana. Esta sua indiferena para com os deuses, que deveriam ser olvidados, atenta a nossa incapacidade para atingir quer a sua existncia quer a sua essncia, fez com que fosse condenado morte por impiedade, acabando por fugir de Atenas.

GRGIASSc. V a.C. Nasceu em Lencio no ano de 487 a.C. e faleceu em Larissa no ano de 380. Deslocando-se a Atenas como embaixador da sua cidade, fascinou os atenienses com a sua arte oratria, ao que abriu uma escola. Tornou-se assim o primeiro dos professores de eloquncia, a quem Plato chamou sofistas. Escreveu uma obra denominada Da Natureza ou do No-Ser, da qual existem duas verses, a do pseudo-Aristteles e a de Sexto Emprico. Grgias recusa qualquer problemtica ontolgica.36

Sofista, definiu trs princpios clebres: - Nada existe; - Se algo existe incognoscvel; - Se for cognoscvel, no poder ser comunicado ou divulgado.

PRDICO DE CEOSViveu no tempo de Scrates. Escreveu As Horas, obra que se encontra reproduzida em Os Memorveis, de Xenofonte. Nela, Heracles expe com conciso as suas dvidas morais. Duas mulheres, personificando respectivamente o vcio e a virtude, fazem a apologia destas. A virtude vence e convence Heracles. Foi rotulado de ateu, por julgar que os antigos criavam e veneravam os deuses em funo da sua utilidade o Sol, a Lua, os rios (v.g. Nilo) , e por isso, o po era considerado Demter, o vinho Dioniso, a gua como Posdon, o fogo como Hefesto, e assim cada um dos bens segundo a sua utilidade. Tal como Protgoras, foi condenado morte, mas com a acusao de corromper os jovens.

SCRATESNasceu no ano de 470 a.C. Era filho de um arteso e de uma parteira. Poder ter sido aluno de Prdico. um marco decisivo na histria da filosofia, no obstante desconheamos se sabemos muito ou pouco acerca da sua vida. Tal como nos foi apresentado por Plato, exerceu uma grande influncia sobre cnicos e esticos. Se fosse possvel resumir o que parece derivar dos seus ensinamentos, arriscar-nos-amos a reduzi-los a dois:

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- uma vida sem indagao ou constante investigao no merece ser vivida; e - o autoconhecimento o alimento da sabedoria. Entende a investigao filosfica como pesquisa. Uma pesquisa que no se esgota, quer em ns quer nos outros. Ccero disse que Scrates fez com que a filosofia descesse do cu terra. Tinha uma personalidade extraordinariamente forte, o que fez com que Plato, seu discpulo, o comparasse tremelga, que entorpece quem a toca. Conhecemos a sua vida, essencialmente pelos escritos de Plato, em especial: - Pela Apologia de Scrates que narra o processo e a sua condenao morte. Scrates foi acusado por Meleto, nito e Lcon de ser culpado de investigar, em excesso, os fenmenos subterrneos e celestes, de fazer prevalecer sobre a melhor causa a pior e de ensinar aos outros esta doutrina. No entanto, o texto da acusao, tal como se encontra descrito por Digenes Larcio, o seguinte: Esta acusao jurada de Meleto, filho de Meleto, natural do demo piteu, contra Scrates, filho de Sofronisco, natural do demo alopecense. Scrates culpado de no acreditar nos deuses em que acredita a cidade e de introduzir divindades novas; ainda culpado de corromper a juventude. Pena pedida: a morte. A obra apresenta-se dividida em trs partes. Na primeira, Scrates expe a sua defesa, sem os ornatos retricos utilizados pelos oradores da poca prescindiu inclusivamente dos servios de um profissional afamado , atendo-se antes pureza das suas palavras e verdade, exprimindo-se do modo como habitualmente o fazia. Na segunda, depois de ter sido considerado culpado, prope a pena que julga justa ao seu caso, ou seja, alimentado como os benfeitores da cidade at ao fim dos seus dias, no Pritaneu. Tal facto deve ter sido apreciado pelos juzes como uma provocao, levando-os a proferirem uma sentena de condenao morte. Na terceira e ltima parte, filosofa sobre a sua condenao e sobre a prpria morte. - Pelo Crton Scrates condenado morte, recusa-se evaso, fundamentando tal atitude nos seus princpios, e no respeito dos seus ensinamentos filosficos. - E pelo Fdon Esta obra narra os ltimos momentos da sua vida, que depois de se ter negado evaso, mantendo-se fiel aos seus princpios, discursa com serenidade, indiferente ao trgico momento que se aproxima, acerca da imortalidade da alma.38

Se bem atentarmos, quer o processo quer a morte de Scrates, constituem um acontecimento que s tem possibilidade de ser comparado ao de Jesus no sendo este o lugar prprio para valorar as duas personalidades tendo em conta a sua atitude perante a morte e aos princpios que enformaram as suas vidas. Neste particular, leia-se o pequeno ensaio de Bertrand Russell, Porque No Sou Cristo, onde afirma que em termos de sabedoria, Cristo no est to alto como outras figuras histricas, nomeadamente Scrates e Buda. Para alm destas obras, devemos mencionar a Carta VII, onde entre outros, Plato, enuncia os motivos que o empenharam na defesa de Scrates, o velho que amava, e da sua injusta morte. Scrates adoptou a divisa dlfica Conhece-te a ti mesmo, mas no limitou a actividade filosfica a si prprio, antes a estendeu aos outros, e aos inevitveis relacionamentos nas suas mltiplas vertentes, entre ambos. Considera que a filosofia antes do mais uma misso divina. No cremos, no entanto, que o Deus socrtico seja o deus ou deuses dos gregos. Durante toda a sua vida diz ter ouvido uma voz orientadora. Seria a voz da sua conscincia ou a do seu Deus? Ao longo de toda a minha vida, a voz divina que me familiar nunca deixou de fazer-se ouvir, mesmo a propsito de actos de menor importncia, para me deter se eu estivesse para cometer alguma coisa de mal. Plato, Apologia de Scrates. O que est para alm da morte uma incgnita, um mistrio metafsico. Scrates tinha a esperana da existncia de algo para alm dela, que segundo a tradio e as crenas estabelecidas, seria muito melhor para os bons do que para os maus. Se realmente a morte nos libertasse de tudo, que boa sorte seria para os maus, ao morrerem, verem-se desembaraados quer do corpo quer do mal e da sua maldade, ao mesmo tempo que da alma veja-se de Plato, o Fdon. (...) recear a morte no seno cuidar-se sbio quando se no , pois ser crer que se sabe o que no se sabe. Ningum, efectivamente, sabe o que a morte, nem se ela ser justamente para o homem o maior dos bens, receando-a como se fosse coisa certa ser ela o maior dos males. Apologia de Scrates, Plato. Dirigindo-se aos juizes que o absolveram no processo em que foi condenado morte, Scrates ter dito:39

De duas coisas, uma: ou aquele que morre fica reduzido a nada e no tem nenhuma conscincia seja do que for, ou, de acordo com o que se diz, a morte uma mudana, uma transmigrao da alma deste lugar em que nos encontramos para um outro lugar. Se a morte a extino de todo o sentimento e se parece com um daqueles sonos em que nada vemos, mesmo em sonho, morrer ento um maravilhoso lucro (...) Por outro lado, se a morte for como uma passagem de aqui debaixo para um outro lugar e se for verdade, como se diz, que todos os mortos a se encontraro reunidos, poderemos, juizes, imaginar um maior bem? Apologia de Scrates, Plato. Despedindo-se do tribunal que o condenou, disse: Mas chegou a hora de nos irmos, eu para morrer, vs para viver. Quem de ns tem a melhor parte, ningum sabe, excepto o deus. O exame constante de si e dos outros justificou o sentido que sempre procurou dar sua vida. Condenado morte instou os juizes a aceitarem a morte com esperana, j que certo o facto de que no h mal possvel para o homem de bem, nem durante a sua curta vida nem depois de sua morte. Encarou a sua condenao com uma doura quase inconcebvel pelo comum dos mortais, reagindo-lhe como os cisnes lhe reagem, que sentindo aproximar-se a sua hora, cantam mais melodiosamente que nunca, pois sentem uma felicidade indescritvel por irem encontrar-se com o deus que servem Plato, Fdon. Manteve-se sempre fiel aos seus princpios, no anuindo na fuga que os amigos lhe propuseram. A aceitao da condenao, da pena de morte, o testemunho, o exemplo de tudo o que vinha ensinando. Na perspectiva de se poder evadir, evitando a morte, disse dando voz s Leis: Vamos, Scrates, escuta-nos, a ns que te sustentmos, e no ponhas os teus filhos, a tua vida, nem seja o que for acima da justia, a fim de que, chegado ao Hades, possas declarar tudo isso em tua defesa aos que governam nesse lugar. (...) Se partires hoje para o outro mundo, partirs condenado injustamente, no por ns, as leis, mas pelos homens. Se ao invs, te evadires depois de haveres to vilmente respondido justia com a injustia, ao mal com o mal, (...) ento ficaremos iradas contigo o resto da tua vida.

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E, no outro mundo, as nossas irms, as leis do Hades, no te iro receber favoravelmente (...). Plato, Crton. Antes da execuo, exortou os amigos a cuidarem de si mesmos. Seguidamente, pegou na taa de veneno com perfeita serenidade e, sem tremer ou vacilar, levou-a aos lbios esvaziando-a na totalidade, com uma facilidade e calma perfeitas. Um dos seus amigos, escondeu a cabea e chorou, no a infelicidade de Scrates, mas a sua, ao pensar no amigo que perdia. Este facto, confirma a assero de que os mortos no choram, mas so os vivos que se choram a si mesmos. As suas ltimas palavras foram: Crton, devemos um galo a Asclpio. No te esqueas de o pagar! Plato, Fdon. Na poca pagava-se um galo a Asclpio pela cura de uma doena, e Scrates curara-se da doena da vida. Aps longa argumentao, Scrates, no dilogo Fdon, conclui pela imortalidade da alma e pela sua imperecibilidade. A alma impura tem o destino de errar sozinha, na maior solido, enquanto que a pura tem os deuses por guias. A alma que ornamentada com a temperana, a justia, a coragem, a liberdade e a verdade, parte para o Hades, onde receber como consequncia a suprema recompensa.

AS ESCOLAS SOCRTICASPara alm de Plato, quatro discpulos de Scrates fundaram outras tantas escolas: Euclides, a Escola Megrica; Fdon, a Escola de lida; Antstenes, a Escola Cnica; e Aristipo a Escola Cirenaica. Haver ainda que referir tambm como discpulos de Scrates, Xenofonte, squines, Smias e Cebes.

XENOFONTEDeve ter nascido no ano 440. A histria da filosofia deve-lhe os Ditos Memorveis de Scrates.

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No Banquete, obra em forma de dilogo, inspira-se em Plato. Num banquete em casa de Clias, Scrates e alguns amigos expem as suas ideias, contrapondo o amor terreno ao celeste. Nos Memorveis elabora a biografia de Scrates. Aqui, Xenofonte, para alm das suas prprias recordaes acerca do velho Mestre, estriba-se de novo nas obras de Plato v.g. Apologia, Fdon e Crton. Na Apologia de Scrates, tal como Plato, relata o processo de condenao do velho Mestre.. Refira-se que o estilo e capacidade filosfica de Xenofonte, so uma mera sombra das faculdades platnicas.

EUCLIDESDa Escola Megrica, afirmava que o Bem apenas um e a Unidade, que sempre a mesma, seja qual for o nome que lhe quisermos atribuir Deus, Razo, ou qualquer outro. Os megricos foram exmios no desenvolvimento de argumentos paradoxais: - do sorites tirando um gro de areia de um monte o monte no diminui (Eublides); - antinomia se afirmas que mentiste ou ests a falar verdade e ento mentiste ou falas falso e ento ests a dizer a verdade. Interessante a posio de Estlpon, que cultivava a impassibilidade, e declarava que o sbio no tem necessidade de amigos, bastando-se a si mesmo. Foi contrariado por Anceris, da Escola Cirenaica, que julgava dever o homem basear a sua vida na amizade e no altrusmo.

ANTSTENES DE ATENASDiscpulo de Grgias e de Scrates, cerca de vinte anos mais velho do que Plato, foi o fundador da Escola Cnica. Cnicos, so os que vivem como ces e no em funo de convenes, preceitos sociais ou convenincias, demonstrando-o de uma forma que Scrates provavelmente no aprovaria. Era senhor de uma personalidade marcadamente forte. Ter sido a morte de Scrates que o levou a desprezar os prazeres e luxos da vida,

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pregando o regresso natureza. Foi contrrio a todas as convenes e poderes institudos, tais como o Estado, a propriedade privada, a religio, o casamento. Condenou veementemente a escravatura. O sentido da vida a capacidade que o homem tem para atingir a felicidade, que consegue por intermdio da virtude, libertando-se dos condicionamentos e das amarras da vida social. Afirmou que perante as leis, muitos so os deuses, mas segundo a natureza, s um existe, s h um Deus.

DIGENES DE SINOPEFoi discpulo de Antstenes, mas foi mais famoso do que o seu mestre. A palavra cnico, deriva da sua inteno de viver como um co. Do filsofo restam-nos fragmentos coligidos por Digenes Larcio e Don de Pruse. Levou o ensinamento de Antstenes s ltimas consequncias, rejeitando tambm todas as convenes. Conta-se que quando Alexandre o Grande o visitou, lhe ter perguntado se desejava algo, algum favor em especial, ao que respondeu: desejo apenas que no me tires o Sol. A vida dos cnicos era de simplicidade e desprezo pelos bens do mundo, prezando apenas os que lhes eram estrictamente necessrios sobrevivncia. A doutrina cnica influenciou em muito o estoicismo.

ARISTIPOFundador da Escola Cirenaica, ensina que o fim a atingir pelo homem no a felicidade, mas antes o prazer, que vivido no instante presente, sendo irrelevantes, quer o passado quer o futuro, porquanto o primeiro j no existe e o segundo uma incgnita, desconhecendo-se se existir ou no. Vivendo o instante, atingiu a liberdade que lhe permitia asseverar que possua sem ser possudo.

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TEODORO O ATEUTambm da Escola Cirenaica, julga que o fim a atingir pelo homem a felicidade, que identifica com a sabedoria. Negou a existncia de todos e quaisquer deuses.

EGESIASDa Escola Cirenaica, julga que a felicidade algo praticamente inatingvel, atento o padecimento que acompanha a vida. O sage, mais do que buscar a felicidade deve evitar os males. Um seu escrito denominado O suicida, fez com que lhe atribussem o cognome de advogado da morte. Na sua perspectiva, a vida que um bem para o nscio, indiferente ao sbio.

PLATOPlato, jovem aristocrata de Atenas foi familiar de Alcibades e de Crtias tinha como nome verdadeiro Arstocles. O cognome dever ter-se ficado a dever envergadura dos seus ombros ou ento sua largueza de vistas, sua abertura de esprito S. Toms de Aquino, na sua poca de estudante, tambm foi alcunhado de boi mudo, por via da sua estatura e do silncio com que assistia s aulas. Nasceu no ano 428 a.C. e faleceu em 347. Com apenas vinte anos fez-se discpulo de Scrates, at ao ano da sua condenao morte (399). Teve sempre pelo mestre um enorme respeito e considervel admirao. Consta-se que antes de ter sido discpulo de Scrates, seguiu as lies de Crtilo. A injusta condenao do mestre, e a sua marcante personalidade, modelaram as especulaes platnicas no sentido da pesquisa de uma comunidade organizada onde vigorasse a justia. Logo aps a morte de Scrates, viajou pela bacia oriental do Mediterrneo. De retorno a Atenas, depois de uma estadia em Siracusa, fundou no ano de 387, a Academia.44

Obras: Hpias Menor Neste dilogo, Plato procura demonstrar que o mal apenas pode ser cometido por ignorncia. Alcibades Deste dilogo nasceram todos os grandes temas relacionados com a reflexo filosfica de Plato. on O tema do dilogo a poesia e a sua criao, que um privilgio concedido pelos deuses ao homem. Eutifrn Trata de descobrir o que a piedade. Piedoso o que agrada aos deuses, ou piedoso o que do agrado dos deuses? Lisis Dilogo sobre a amizade. Apologa de Scrates Obra de referencia, respeita ao processo e condenao de Scrates. Crton Trata da justia. Scrates recusa-se a evadir-se. neste dilogo que surge a clebre Prosopopeia das Leis. Crmides Dilogo sobre a verdadeira natureza da sabedoria. Laques Da coragem. Protgoras Um dos dilogos mais importantes do filsofo. Aborda as questes essenciais do seu pensamento. Grgias fundamentalmente uma crtica da retrica. Mnon Dilogo sobre a virtude. Menexeno Este dilogo denuncia a arte dos oradores e dos sofistas. O Banquete Dilogo eloquente, que tem por motivo principal o amor. Crtilo Ou da justia dos nomes. Eutidemo Caricatura os sofistas, tratando temas como a virtude, os meios de a ensinar e a natureza do saber. Fdon Narra os ltimos instantes da vida de Scrates e um dilogo sobre a alma. Constitui com o Crton e com a Apologia, uma trilogia essencial ao conhecimento da personalidade do Scrates histrico. A Repblica Ou sobre a justia. Uma utopia, que ter nascido da indignao consequente condenao injusta do velho Mestre. Talvez a obra mais reconhecida do filsofo. Fedro Trata do amor e da retrica. Teeteto Tem como objecto o conhecimento. Parmnides O mais difcil dos dilogos platnicos. A Teoria das Ideias e a relao do Uno e do Mltiplo, ocupam-no em parte. O Sofista Aqui, Plato elabora uma crtica exaustiva aos materialistas. O Poltico As Leis Sobre a legislao. Carta VII Expe as viagens que realizou Siclia entre 390 e 388 a.C. Expe algumas das suas teses. Filebo O Bem Soberano. Prazer ou Sabedoria? Crtias Nesta obra exposto o mito da Atlntida.45

Hpias Maior Do belo ou da beleza. O que a beleza? Timeu Aqui, Plato explora a sua fsica, a sua cosmologia lembremonos do demiurgo. A Repblica a mais antiga de todas as utopias. A sua trave mestra a de que os governantes devem ser filsofos, e o seu objectivo o de nos fornecer um conceito de justia. A causa do mundo o demiurgo, o deus artfice criador do universo, que tem como funo a difuso do bem. incorpreo, tem inteligncia pura, alma e vida. Deus criou o mundo, que por tal motivo no pode ser eterno. Sendo bom, desejou que toda a criao fosse boa, tanto quanto possvel. O mundo, entidade viva dotada de alma e de inteligncia, no foi criado do nada, mas a partir da matria preexistente, ou seja, de todos os elementos. S h um mundo e no muitos, como pensavam alguns dos filsofos pr-socrticos. Plato sustentava a existncia da Ideia suprema do Bem. Na filosofia platnica no ser a Ideia de Bem a do prprio Deus? Na sua perspectiva, o Bem o autor csmico de todas as coisas belas e correctas, pai da luz e da verdade. Temos dvidas, mas o filsofo parece elaborar uma aproximao entre a Ideia de Bem e a de Deus. Plato no monotesta, politesta e tradicionalista. O demiurgo ocupa o lugar mais elevado dos deuses, cada um com seus atributos e funes. Para alm do Deus criador existem muitos outros deuses. O mundo s pode existir por fora da aco da divindade. Se algo se move por efeito de uma outra coisa, no pode este ser o primeiro movimento. O primeiro movimento o que se move a si mesmo. E o que se move a si mesmo a alma, que tambm move tudo o que o mundo contm. Deus, alma deu inteligncia, e ao corpo deu uma alma. Esta, foi criada antes do corpo. A divindade preocupa-se com os homens se no se preocupasse seria indolente e preguiosa , mas devemos afastar a superstio de que a podemos influenciar com ofertas: esses pem a divindade a par dos ces que, amansados com presentes, deixam depredar os rebanhos, e abaixo dos homens comuns, que no atraioam a justia aceitando presentes oferecidos com inteno delituosa.

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A morte a separao da alma e do corpo dualismo platnico. O corpo visvel, enquanto que a alma invisvel, assim, a alma eterna. A alma imortal, tendo nascido inmeras vezes. invisvel e no destrutvel, sendo a reminiscncia uma prova da sua imortalidade. Renascero os vivos dos mortos, utilizando a expresso platnica? As almas dos mortos existem forosamente algures, de onde regressam vida. Plato, Fdon. Se a alma se encontrar impura, contaminada pelos apetites do corpo, ento, ficar prisioneira da natureza que corresponde conduta que teve durante a vida, nomeadamente: os que se entregaram gula e violncia, iro encarnar em corpos de asnos e de outras bestas similares, enquanto que os que optaram pela injustia e pela rapina, encarnaro em corpos de lobos e milhafres. Apenas a alma pura do que se entregou filosofia verdadeira, ser recebido no seio da raa dos deuses. Sendo certo que aprender recordar, a alma tem necessariamente de existir em qualquer outra parte antes de ser aprisionada no corpo.Plato, Fdon. A psicologia em Plato fundamentalmente espiritualista. A alma eterna, tendo antes de estar unida ao corpo, contemplado em plenitude as Ideias. Como consequncia da reminiscncia reconhece essas Ideias quando encarna. Desde o momento em que a viso de uma coisa te levou a pensar noutra, seja ela semelhante, seja dissemelhante, absolutamente necessrio tratar-se de uma reminiscncia. Plato, Fdon. No Fdon, Scrates examina se a alma depois de haver usado um grande nmero de corpos em mltiplas encarnaes, no perecer tambm ela ao deixar o ltimo corpo, e se no precisamente na destruio da alma que consiste a morte, j que o corpo est em constante decesso. Mas aps longa pesquisa justifica a metempsicose. No obstante um verdadeiro filsofo no tenha medo da morte, e contrariamente ao comum dos homens at a possa desejar como libertao, no a dar a si mesmo, por ser contra a lei aqui entendida como lei natural. Assim, o homem prisioneiro sem direito de fuga. No Eutifrn, Plato pergunta-se quem o santo: O que agrada aos deuses? Ou agrada aos deuses porque santo? A santidade identifica-se com a virtude, que a justia no seu sentido mais amplo.47

A ACADEMIAPlato elegeu para dirigir a sua escola, Espeusipo, seu sobrinho. A Antiga Academia teve uma existncia de vrios sculos, aps a morte daquele.

ESPEUSIPOIdentificou a divindade razo, concebendo-a como a alma que ordena o mundo.

XENCRATESInfluenciado pelas doutrinas pitagricas, divinizou os elementos e afirmou a existncia de inmeros demnios, verdadeiros intermedirios entre a divindade e os homens. Define a alma, como um nmero que se move por si nmero que querer dizer ordem.

PLEMONConsiderou que a vida do homem deve ser o mais possvel conforme natureza influncia da Escola Cnica.

CRANTORAfirma que a dor moral nos afasta dos instintos animais.

HERACLIDES DO PONTONascido em 388 a.C., descobriu que os planetas Vnus e Mercrio giram em torno do Sol e que a Terra gira sobre o seu prprio eixo, com uma rotao completa a cada 24 horas. A alma constituda pelo ter, que a matria mais subtil entre as subtis.

FILIPE DE OPUNTE48

Para Filipe os corpos celestes so perfeitos no seu movimento. So vivos e foi a divindade que lhes concedeu uma alma. Assim, so tambm deuses, passveis de adorao.

ARISTTELESNasceu em Estagira, em 384 a.C. Foi educado na corte macednica, em virtude de seu pai, Nicmaco, ter sido mdico de Amintas II, rei da Macednia. Entrou para a escola de Plato com dezoito anos, tendo sido o seu melhor discpulo, a permanecendo durante vinte, at morte do mestre ocorrida em 347. Depois da morte de Plato, foi suspeito de ser partidrio dos Macednios, o que o obrigou a abandonar a cidade de Atenas. Foi preceptor de Alexandre a partir do ano 343 e voltou a Atenas em 335, tendo fundado o Liceu, escola que apresentava alguma rivalidade com a Academia. As obras a que temos acesso, foram escritas tendo em vista o ensino. Durante cerca de dois mil anos influenciou o pensamento ocidental, com uma autoridade quase indiscutida. Obras: Protrptico uma instigao aos estudos filosficos. tica a Eudemo Trata do problema moral. Histria dos Animais O primeiro estudo de cariz biolgico, do filsofo. Potica Trata da tragdia e da epopeia. A parte relativa comdia, ter-se perdido. Fsica Estudo da realidade natural. Os Meteorolgicos Estudo dos fenmenos meteorolgicos. Da Gerao e da Corrupo Poder ser considerado um verdadeiro apndice ao Tratado do Cu. Das Partes dos Animais Da Gerao dos Animais Retrica Obra composta por trs livros. Os Livros I e II so dedicados argumentao e o III forma do discurso. Constituio de Atenas

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Da Alma Obra que se consagra ao estudo da alma, sua essncia e faculdades. tica a Nicmaco Obra composta por dez livros, designa as concepes morais. A Metafsica Rene os conhecimentos de Aristteles em sede de filosofia primeira, do estudo do Ser enquanto ser. Organon Obra consagrada lgica formal. composta por outras seis: As Categorias, Da Interpretao, Os Primeiros Analticos, As Refutaes Sofsticas, Os Segundos Analticos, e Os Tpicos. A Poltica Estuda a forma e a possibilidade de moderar os costumes do Estado, por intermdio das instituies e da cultura. Tratado do Cu nesta obra, que em quatro livros exposta a cosmologia aristotlica. Assemelha-se ao mestre, quando julga que nada h na natureza, seja ou no aparentemente insignificante, que no valha a pena ser investigada. Como j se disse, foi preceptor de Alexandre, entre os treze e os dezasseis anos deste, desconhecendo-se na realidade, qual a influncia que exerceu sobre o jovem discpulo as opinies de historiadores so diversas, inexistindo consenso. Em 335 fundou a sua escola em Atenas e faleceu no ano de 322. Se Plato influenciou pela sua metafsica, Aristteles f-lo essencialmente pela lgica, sendo certo que como ensina Russel, quem hoje quiser aprender lgica perder o seu tempo a ler Aristteles ou qualquer discpulo seu. Tal como Plato, Aristteles no monotesta, mas politesta. Deus um ser vivo, eterno, maximamente bom, dono da vida e da eternidade. a Primeira Causa, a Primeira Forma ou Ideia. Autocontempla-se ininterruptamente e no tem qualquer interesse nos acontecimentos terrestres. Deus identificado com o primeiro motor, o motor imvel que tudo move sem que seja movido. Tal como Espinoza, julga que os homens devem amar Deus, mas a este no lhe possvel amar os homens. No que ao movimento respeita, Deus o primeiro motor, o motor imvel e transcendente que dirige o mundo. Ordena-o, mas no o cria.

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Deus sendo uma forma pura e uma realidade pura, no pode mudar. Deus forma sem matria. Para Aristteles, h trs tipos de substncias: - as sensveis perecveis plantas e animais; - as sensveis no perecveis os corpos celestes; - as no sensveis nem perecveis a alma e Deus. Logo a seguir divindade por excelncia, seguem-se as divindades dos cus e dos astros celestes. Anote-se que para Aristteles o ter era concebido como o que mais se aproximava da divindade e do qual eram constitudos os corpos celestes. Se o mundo sublunar era composto pelos quatro elementos gua, terra, ar e fogo , o dos astros era-o pelo ter, no estando sujeito mudana ou extino. Esta doutrina foi aceite at ao sculo XV, acabando por ser abandonada em grande parte por obra de Nicolau de Cusa. O seu principal argumento quanto a Deus, o da primeira causa. O que produz o movimento tem de estar imvel, tem de ser eterno. Deus, motor imvel, ordenador do mundo no sentido da perfeio, a causa primeira, mas no o nico motor, porquanto se limita a mover o primeiro cu. As restantes esferas so movidas por outras tantas divindades ao tempo, os astrnomos identificavam um conjunto de esferas celestes susceptveis de movimentar os astros num movimento circular. Sendo Deus o que de mais perfeito pode existir, pensa-se a si mesmo e pensamento do prprio pensamento, o que o faz plenamente feliz o pensamento o que pode existir de mais doce, o que de mais excelente existe. O argumento da existncia de Deus, prende-se com a hierarquia da perfeio. Na existncia de gradaes no sentido da perfeio, ter de existir sempre algo absolutamente perfeito. Essa entidade, sumamente perfeita, s poder ser Deus. Interessante a adaptao que realizou do mito da caverna. Da retirava uma prova inequvoca da existncia da divindade. Caso tivessem existido homens a viver em casas sumptuosas, rodeados por tudo o que de mais belo o homem possa conceber, mas no subsolo, sem que alguma vez tivessem contemplado o mundo natural e apenas tivessem uma ideia, ainda que tnue de Deus, seriam imediatamente convencidos da sua existncia, se pudessem contemplar, ainda que por breves minutos, a natureza e a sua perfeio. Para Plato, o mito da caverna demonstra-nos a iluso que gerada pelo mundo sensvel, enquanto que para o seu discpulo, dignifica e51

atesta a sua perfeio, bem como adianta um argumento a favor da existncia de Deus. O mundo, para Aristteles, existiu desde sempre, e nunca deixar de existir, alicerando-se num Acto de Pensamento que tem por essncia a eternidade e a completude, aqui entendida como auto-suficincia e subsistncia total. O mundo perfeito, finito e eterno. finito, porque se fosse infinito seria incompleto. Para alm das estrelas fixas no h espao. Assim, estariam erradas as teses de Anaximandro e de outros filsofos quanto existncia de inumerveis mundos e de todos aqueles que admitiram o vazio. A alma objecto de estudo da sua Fsica, porquanto forma incorporada na matria, vivificando-a. No entanto, no podemos dissociar tal estudo da metafsica. Tal como Plato admite que a alma ao encarnar esquece as percepes adquiridas ao longo da sua existncia. Mas, regressando ao alm, por efeito da morte, rememora o que aprendeu nesta vida. Com algum pessimismo, anota que a mais preciosa condio da alma a sua existncia independente do corpo, chegando a afirmar que: Dado que para o homem impossvel participar da natureza do que verdadeiramente excelente, seria melhor no ter nascido, e dado que nasceu, o melhor morrer quanto antes.

A ESCOLA PERIPATTICAPor volta do ano 335, aps treze anos de ausncia, Aristteles regressou a Atenas e fundou o Liceu, onde era praticada a vida em comunidade. Para alm do edifcio principal e dos jardins, existia o passeio ou peripato, donde a designao da escola.

TEOFRASTO morte de Aristteles sucedeu-lhe na direco da escola. Escreveu Os Caracteres, que representa um conjunto de trinta retratos morais, de uma forma algo cmica, apesar da argcia do seu autor, nomeadamente, o vaidoso, o cnico, o idiota, o adulador.

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Atente-se que esta obra influenciou La Bruyre (sculo XVIII). Escreveu tambm a obra Metafsica, que reuniu mltiplas questes colocadas por Plato e por Aristteles. Defendeu a doutrina aristotlica da eternidade do mundo doutrina que padecia de alguma contestao.

ESTRATOSofreu a influncia de Demcrito, no recorrendo divindade para explicar o aparecimento do mundo.

ESTOICISMOComo j vimos na introduo, o perodo concernente filosofia psaristotlica ocupa-se fundamentalmente do problema moral. Scrates, foi no nosso entender, o filsofo que mais influenciou os esticos. A aceitao de uma sentena injusta que poderia ter sido por si evitada, a resignao que demonstrou no crcere, a recusa em aproveitar uma fuga organizada, a tranquilidade no momento da execuo, a sua indiferena ao luxo e aos prazeres mundanos consubstanciam uma atitude puramente estica. O estoicismo teve um primeiro desenvolvimento grego e um segundo romano. A virtude o caminho para a felicidade. O filsofo estico dever recolher-se na fortaleza da alma (Marco Aurlio). De todos os esticos, s dos tardios Sneca, Epicteto, Marco Aurlio (sculos I e II d.C.) temos obras completas. O estico obedece a Deus, acolhe com uma alma pura todo e qualquer acontecimento no se lamentando do destino. Aceita e reconhece o que os infortnios trazem de bom porquanto nada s bom ou mau , no se deixando inquietar pelas excitaes produzidas pelo prazer e pela dor. Procuravam aceitar sem se revoltarem as inmeras contrariedades e o sofrimento causados pela vida.

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ZENO DE CITIUMNascido por volta de 336 a.C., foi o fundador da escola, tendo sido discpulo do cnico Crates. Da a aproximao da doutrina estica cnica. Supe-se que tenha posto fim aos se