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Dissertacao Mestrado Paulo Irineu

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1. INTRODUONuma civilizao autenticamente humana, a existncia humana jogar em vez de labutar com esforo, e o homem viver exibindo-se, em vez de permanecer vergado necessidade. Herbert Marcuse ... todo homem e toda mulher devem percorrer todo o curso de sua existncia desempenhando esse papel, divertindo-se com os jogos mais excelentes, mas no entendendo seus jogos como os entendem hoje. Plato

O objetivo do presente trabalho demonstrar que a relao entre a transformao social e a arte est presente em toda a obra de Herbert Marcuse e sofre modificaes na maneira como o autor a concebe ao longo de sua trajetria intelectual. Alm disso, o trabalho busca evidenciar que a transformao social pressupe uma mudana na conscincia do indivduo. A arte, preservando a sua autonomia, pode contribuir para essa transformao, auxiliando na construo de uma nova sensibilidade. O filsofo, dessa forma, defende que a autonomia da arte lhe confere um poder poltico e subversivo importante no processo de transformao da conscincia dos indivduos e da sociedade como um todo. A partir do que foi apresentado, corre-se o risco de entender que o percurso de Marcuse seja o mesmo proposto por Schiller, no sculo XVIII. Marcuse, no entanto, conta com dois pressupostos impensveis para Schiller, na sua poca: o desenvolvimento da sociedade capitalista a um estado inimaginado e o surgimento do materialismo histrico dialtico de Marx e Engels. Somam-se a esses pressupostos os acontecimentos marcantes do sculo XX, como o nazi/fascismo, as duas guerras mundiais e os eventos de protesto dos anos 1960. Alm disso, enquanto Schiller entendeu o problema da civilizao como um conflito entre a sensibilidade e a razo, cuja soluo poderia ser encontrada no impulso ldico, Marcuse, por um lado, a partir da leitura de Kant, Freud e do prprio Schiller, defende a possibilidade de reconciliao, na dimenso esttica, entre o princpio de prazer e o princpio de realidade. Por outro lado, a partir da leitura de Hegel, Marx e Weber toma como pontos de partida a historicidade, a dissoluo do indivduo, a unidimensionalidade da sociedade capitalista e a necessidade da revoluo. Somando todas essas influncias e dando s mesmas um carter muito prprio, Marcuse prope a construo de um novo indivduo e de uma 9

nova sociedade a partir da revoluo, tanto social quanto da conscincia e da sensibilidade. A arte, cumprindo a funo de elemento inspirador, uma das variveis que podem contribuir para esta mudana. Esta possibilidade, presente ao longo de toda sua obra, lhe confere um carter nico entre os demais autores da Escola de Frankfurt e est de acordo com o que escreveu Habermas:Desde os anos 30, Marcuse no deixou de lado um problema, que agora visto sob outra luz, face s experincias dos anos 60 a relao entre arte e a revoluo, ou mais exatamente o papel que a arte pode desempenhar para a transformao revolucionria de uma sensibilidade amortecida e uma estrutura pulsional repressiva.1

A arte, historicamente, sempre assumiu um carter ambguo, no que se refere ao seu papel social, ora representando os interesses das classes dominantes, ora se manifestando como veculo de oposio e de contestao. O carter ambivalente da arte2, no entanto, se deve sua prpria autonomia, o que impede que ela seja usada como instrumento de uma classe especfica. Isso nem sempre foi muito claro, de acordo com Marcuse, e este aspecto o presente trabalho tambm pretende demonstrar. Dessa forma, aquilo que poderia ser alvo de censura o fato de prestar-se a um papel ambguo ou ambivalente acaba por conferir arte a sua autenticidade, sendo este o fator de sua sobrevivncia, embora a sua morte tenha sido por muitos prevista e, em alguns casos, at anunciada. Nem sempre fcil identificar a maneira como Marcuse interpreta tanto a arte, quanto a revoluo. De acordo com Kangussu, seus pensamentos [de Marcuse pibf] sobre esttica no se encontram sistematizados em uma obra s, mas dispersos em muito do que escreveu3. Habermas acentua: Marcuse continua defendendo a rebelio contra o todo, o salto qualitativo, a ruptura com o continuum da Histria4. Isso nos leva a pensar tambm que alguns elementos da obra de Marcuse referentes articulao entre arte e revoluo no se encontram explicitamente formulados. Existem aspectos importantes do seu pensamento que aparecem em diversos escritos e no apresentam uma linearidade, como prprio de uma obra que no tem carter sistemtico, o que explica o fato de no termos adotado um procedimento predominantemente cronolgico no presente trabalho.1 2

HABERMAS, Jrgen. Arte e revoluo em Herbert Marcuse, p. 133. Conforme SILVEIRA, Luis G. G. Alienao artstica: Marcuse e a ambivalncia poltica da arte. 3 KANGUSSU, Imaculada. Leis da liberdade, p. 17. 4 HABERMAS, Jrgen. Arte e revoluo em Herbert Marcuse, p. 137.

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No que se refere transformao social e sua relao com a arte, no entanto, defendemos que seja possvel, com base no pensamento de Marcuse, defender a seguinte hiptese: h, no quadro da Teoria Crtica marcuseana, um lugar para a arte, como elemento inspirador de uma nova prxis poltica que, por sua vez, pressupe uma transformao da conscincia. Isso tambm est de acordo com o que escreveu Kangussu: ...ao longo das obras de Marcuse, a fundamentao argumentativa para revelar a necessidade de transformaes na organizao social vai, crescentemente, sendo encontrada na dimenso esttica.5 Partindo do princpio de que existem dois grandes pontos de referncia no pensamento de Marcuse, no que compete relao entre a Poltica e a Esttica, apresentamos, no captulo Sobre o papel da arte para a revoluo, a influncia do pensamento de Kant, Schiller e Freud e a importncia do pensamento de Hegel, Marx e Weber no que denominamos, respectivamente, de percursos esttico-cognitivo e histrico-social do pensamento de Marcuse. Alm disso, abordamos aqueles que se nos apresentam como os pressupostos do trabalho que ser desenvolvido na sequncia: a definio, a legitimidade e a tica da revoluo e a afirmao de Marcuse de que a teoria social e poltica revolucionria permanece acadmica. No captulo O carter emancipatrio da arte: da cultura afirmativa grande recusa, abordamos a maneira como o autor definiu o carter afirmativo da cultura, no qual a arte exerce, ao mesmo tempo, um papel de afirmao e de negao do mundo. Em seguida, apresentamos a noo de boa alienao, em que a arte apresenta o seu aspecto emancipatrio, a partir do que Marcuse, com base na leitura de Whitehead, denominou de Grande Recusa. No captulo A unio do social e do esttico, pretendemos mostrar, a princpio, a partir da leitura de Breton e Trotski, os fundamentos da esttica marxista. Tais fundamentos so importantes para que se entenda o papel atribudo por Marcuse aos movimentos de protesto e para que se entenda a noo de autonomia da arte, que ser apresentada posteriormente. Em seguida, apresentamos a crtica de Marcuse esttica marxista, bem como a sua noo de transcendncia da arte, em relao ao seu uso meramente poltico. A partir da, passamos apreciao de como Marcuse, movido por um desespero devido incapacidade da linguagem tradicional de comunicar o que acontecia no momento poltico de ento, identificou-se com os movimentos de protesto do anos 1960, com os quais o filsofo passou, em alguns casos com exagero, a ser5

KANGUSSU, Imaculada. Leis da liberdade, p. 15.

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associado. Alm disso, abordamos a importncia que Marcuse atribuiu formao de uma nova sensibilidade, requisito para uma nova compreenso da realidade e para que se manifeste a fora social produtiva da dimenso esttica. No captulo A unio da teoria com a prtica: as Imagens da libertao, verse- que Marcuse assinala, a partir da nova sensibilidade, a possibilidade de unio entre a teoria revolucionria e a prtica social, centrada na noo de autonomia da obra de arte. Isso depois de haver considerado, a partir do que Marcuse denominou de dialtica da libertao, a necessidade de uma mudana na conscincia dos indivduos, pois nenhuma mudana efetiva da sociedade dispensa a mudana dos seus integrantes. Finalmente, apresentamos a definio e exemplos das Imagens da libertao, nas quais encerra-se o papel da arte para a revoluo, pois, como lembrou Douglas Kellner, com base num poema de Brecht:A imagem da libertao est no vo dos grous, atravs de um belo cu, com as nuvens que os acompanham: cu e nuvens lhes pertencem sem domnio e dominao. A imagem est na sua capacidade de abandonar os espaos onde so ameaadas: a chuva e os disparos de rifles.6

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KELLNER, Douglas. Marcuse, Art, and Liberation, p.172. The image of liberation is in the flight of the cranes, through their beautiful sky, with the clouds which accompany them: sky and clouds belong to them without mastery and domination. The image is in their ability to flee the spaces where they are threatened: the rain and the rifle shots. (a traduo nossa)

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2. SOBRE O PAPEL DA ARTE PARA A REVOLUOA arte no pode mudar o mundo, mas pode contribuir para a mudana da conscincia e impulsos dos homens e mulheres, que poderiam mudar o mundo Herbert Marcuse Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver. Bertold Brecht

A relao entre a revoluo social e a arte esteve presente nos escritos de quase todos os autores da Escola de Frankfurt. Marcuse, no entanto, foi o nico dos tericos da Teoria Crtica a manter essa relao em todas as fases de sua trajetria intelectual. Considerando que essa relao no tenha sido feita sempre na mesma perspectiva, seria interessante investigar as influncias recebidas por Marcuse, a partir das quais ele estabeleceu as premissas do seu pensamento, no que se refere relao entre revoluo e arte. Dividiremos estes antecedentes do pensamento marcuseano em dois percursos distintos. Ao primeiro, denominaremos esttico-cognitivo, no qual analisar-se- a influncia de elementos do pensamento de Kant, Schiller e Freud que fundamentaram o pensamento de Marcuse. Ao segundo percurso, deno

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