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Empreendedorismo e Inovacao

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Texto sobre Inovação

Text of Empreendedorismo e Inovacao

  • RAI Revista de Administrao e Inovao

    ISSN: 1809-2039

    DOI: 10.5773/rai.v10i3.896

    Organizao: Comit Cientfico Interinstitucional

    Editor Cientfico: Milton de Abreu Campanario

    Avaliao: Double Blind Review pelo SEER/OJS

    Reviso: Gramatical, normativa e de Formatao

    AS EMPRESAS OLHAM ALM DE SEUS MUROS PARA INOVAR?

    Carlos Torres-Freire

    Doutorando em Sociologia na Universidade de So Paulo USP

    Pesquisador do Centro Brasileiro de Anlise e Planejamento CEBRAP

    [email protected] (Brasil)

    Frederico Henriques

    Mestre em Sociologia pela Universidade de So Paulo USP

    [email protected]

    RESUMO

    Este artigo trata da influncia de atores como universidades, centros de pesquisa, consultorias,

    fornecedores, clientes e concorrentes em processos de inovao de firmas industriais. Com as

    transformaes na economia nas ltimas trs dcadas, os fluxos de informao e a difuso de

    conhecimento passaram a ser mais cada vez mais importantes para a qualidade do sistema produtivo e

    para a competitividade das empresas. Tais atores externos s firmas conformam redes que criam

    conexes para processos de aprendizado e transferncia de conhecimento. A hiptese que o

    desempenho inovador de empresas industriais brasileiras tem relao direta com o grau de interao

    destas com agentes como universidades, centros de pesquisa, fornecedores, clientes e consultorias. A

    anlise de entrevistas com 106 empresrios realizadas na Pesquisa de Atitudes Empresariais para

    Desenvolvimento e Inovao (PAEDI CEBRAP/IPEA) indica uma relao entre atitude inovadora

    mais forte e grau de interao: empresas com alto grau de interao com atores externos tendem a ser

    aquelas mais inovadoras.

    Palavras-chave: Inovao; Indstria; Difuso de Conhecimento; Interaes Sociais; Brasil.

    Cdigos do Journal of Economic Literature: L20; O30

    mailto:[email protected]

  • As empresas olham alm de seus muros para inovar?

    Revista de Administrao e Inovao, So Paulo, v. 10, n.3, p.143-164, jul./set. 2013.

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    1 INTRODUO

    Inovao um tema que est em pauta. E h motivo para isso. Experincias internacionais e

    nacionais mostram que inegvel a sua relevncia para o desenvolvimento econmico e social dos

    pases ao melhorar a qualidade dos sistemas de produo e aumentar a competitividade das empresas.

    fato tambm que ainda h muito a ser descoberto sobre inovao. A complexidade do tema caminha

    ao lado da assuno cada vez mais forte de que o processo de inovao produto de interaes de

    diversos tipos, as quais envolvem atores variados.

    No sentido de entender parte desse fenmeno, o objetivo geral deste artigo discutir qual o

    peso de fatores externos empresa no desenvolvimento de seus processos de inovao. Em que

    medida a parceria com fornecedores e clientes, a cooperao com universidades e centros de pesquisa,

    a contratao de servios e a prospeco de informaes no exterior so relevantes para processos de

    inovao nas empresas industriais?

    A voz que nos informa sobre essa questo neste artigo a do empresrio. O seu discurso e as

    atividades de sua empresa so as fontes para analisarmos um componente bastante relevante nos

    processos de inovao das empresas: a interao com os agentes externos firma. Este empresrio tem

    se preocupado com tal componente? Como sua empresa tem atuado? Tais atores externos so vistos

    como importantes? Por fim, eles so realmente relevantes para o desempenho da empresa,

    especialmente no que diz respeito inovao?

    A partir dessa anlise baseada na exposio das ideias do empreendedor e do executivo,

    possvel compreender melhor as redes de apoio construdas para fora dos muros das empresas, assim

    como mudanas na estrutura organizacional da prpria companhia a fim de intensificar o

    relacionamento e a troca de conhecimento com terceiros. Trata-se de elementos mais difceis de serem

    apreendidos em anlises estritamente fundadas em dados quantitativos, mas que so passveis de

    escrutnio em anlises de cunho mais qualitativo.

    A ideia aqui mostrar que a unidade de pesquisa e desenvolvimento (P&D) interno empresa

    ou o nmero de patentes, por exemplo, variveis comumente vistas em estudos de inovao, deveriam

    ser acompanhadas de outros elementos para a melhor compreenso do fenmeno. Especialmente nos

    ltimos anos, com a profuso de redes de informao, a difuso de conhecimento e a necessidade de se

    adaptar mais rapidamente a mudanas e antecipar oportunidades, os fatores externos empresa tm se

    tornado mais importantes para a inovao.

    O texto a seguir est assim organizado: alm desta introduo, na segunda parte apresentamos

    as premissas tericas e a hiptese da pesquisa; na terceira, descrevemos a metodologia (variveis

    utilizadas); a quarta seo composta pelo trabalho com o material emprico (anlise das entrevistas e

  • Carlos Torres-Freire & Frederico Henriques

    Revista de Administrao e Inovao, So Paulo, v. 10, n.3, p.143-164, jul ./set. 2013.

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    criao de categorias); por fim, uma breve concluso explicita que a interao das empresas com

    agentes externos firma positiva para processos de inovao.

    2 PREMISSAS E HIPTESE

    O ponto de partida desse artigo retoma brevemente algumas premissas. Primeiramente, a

    inovao aqui vista como um fenmeno sistmico interaes contnuas entre diferentes atores

    permitem o desenvolvimento de processos inovativos. Recusa-se a viso linear da inovao, na qual se

    expressa uma trajetria hierarquizada, com um caminho da pesquisa bsica para a aplicada at se

    chegar aos produtos novos no mercado. Com as transformaes no capitalismo desde os anos 70,

    elementos externos s empresas, como fornecedores, clientes, empresas de servios e universidades,

    passam a ser cada vez mais importantes para os processos de inovao especialmente porque tais

    processos se tornam crescentemente mais dependentes de comunicao e colaborao de distintos

    atores. O fato a ser considerado que as firmas no inovam isoladamente e, alm disso, elas esto cada

    vez mais sujeitas a influncias externas (Edquist & Chaminade, 2006; Fagerberg, 2006).

    Em segundo lugar, o estudo do tema inovao ganhou um carter multidisciplinar nas ltimas

    dcadas, principalmente porque nenhuma disciplina poderia dar conta sozinha de todos os aspectos do

    fenmeno (Fagerberg, 2006). A sociologia pode conquistar espao principalmente quando se abre a

    caixa-preta da inovao e o conceito de aprendizado ganha corpo no debate. Em outras palavras, h o

    entendimento de que a questo do aprendizado e consequentemente dos processos de inovao esto

    enraizadas nas relaes sociais.

    O conceito de learning economy, bem explicado e explorado por Bengt-ke Lundvall

    (Lundvall, 1996; Lundvall & Johnson, 1994), permite pensar como o conhecimento e o aprendizado

    so essenciais para o desenvolvimento neste novo momento da economia contempornea.

    Conhecimento um ativo coletivo compartilhado em redes e organizaes; e aprendizado um

    processo interativo de construo de competncias. O autor destaca que a capacidade de indivduos,

    firmas, regies e economias nacionais em aprender determinante para o desenvolvimento. E to

    importante quanto criar, processar e recriar conhecimento. Os atos de compartilhar e combinar

    elementos de know-how so centrais (Lundvall, 1996). A relevncia dos elementos externos s firmas

    em seus processos de inovao est justamente no fato de que estes permitem o desenvolvimento de

    conhecimento tcito ou fornecem conhecimento codificado mediante os processos de aprendizado.

    Parte deste processo a relao direta entre conhecimento tcito, competitividade e inovao.

    Este conhecimento ganha materialidade na interao entre os agentes como parte dos processos de

  • As empresas olham alm de seus muros para inovar?

    Revista de Administrao e Inovao, So Paulo, v. 10, n.3, p.143-164, jul./set. 2013.

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    aprendizado. Por sua vez, tais processos esto diretamente relacionados ao desempenho inovativo de

    firmas. A terceira premissa a ser considerada neste artigo, portanto, que a organizao do fluxo de

    conhecimento e o compartilhamento de conhecimento tcito so definidores de um novo padro de

    competitividade.

    Diversos trabalhos trazem evidncias a respeito da relao entre desempenho inovador e

    cooperao entre atores combinada diversidade de mecanismos de comunicao (Albagli & Maciel,

    2004; Consoli & Patrucco, 2003; Patrucco, 2002). Lundvall (1996), por exemplo, apresenta o caso de

    firmas que buscam pesquisas em universidades ou outros centros no apenas pelo fim daquela

    investigao em si mesma, mas tambm para acessar as redes informais de pesquisadores, para buscar

    atualizao ou para abrir novas oportunidades de desenvolvimento de produtos e processos.

    No que tange relao entre inovao e servios, particularmente aqueles conhecidos como

    intensivos em conhecimento, como tecnologia da informao (TI) e consultorias diversas, o debate

    tambm vem sendo alimentado com evidncias empricas. H exemplos de como empresas de

    servios, especialmente de TI, so capazes de influenciar positivamente processos de inovao nas

    firmas industriais que as contratam (Torres-Freire, 2006; Organisation for Economic Co-operation and

    Development [OECD], 2006; Torres-Freire, 2010; Torres-Freire, Abdal e Bessa, 2012).

    Outra referncia o trabalho de Jensen, Johnson, Lorenz e Lundvall (2007) no qual introduzem