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A historioa das doutrinas

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  • A HISTRIA DAS

    DOUTRINASCRISTS

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    Louis Berkhof^ I M*

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  • A HISTRIA DAS DOUTRINAS CRISTS

    Esta obra realmente excelente e promete m anter o seu lugar por longo tempo entre os livros mais valiosos de teologia. especialmente til como manual concernente ao assunto tratado.

    Como seria de se esperar de um homem ocupando alta posio teolgica, semelhante a teolgos eruditos como Charles Hodge e Benjamin Warfield, este livro foi elaborado de m aneira magistral e um companheiro digno para os outros livros do m esm o autor. Constitui um complemento adequado para a srie sobre Dogmtica.

    O mterial to bem coordenado e assinalado que, como livro de texto, idal na sua apresentao. Vinculada a cada seco est uma lista de perguntas para ajudar em estudo posterior. Tam bm est relacionada um a lista de livros sobre cada assunto. Estas aumentam consideravelmente o valor da obra .

    Da revista The Evangelical Quarterly

    Louis Berkhof faleceu em 1957, com 83 anos. Ele era um professor americano extraordinrio e autor de 22 livros. Depois de dois pastorados, ele comeou sua longa carreira como professor em Calvin Seminary, Grand Rapids, em 1906. Ficou ali por 38 anos, dedicando seus talentos e imensos recursos de conhecimento ao preparo de hom ens para o ministrio da Palavra de Deus. Sua Teologia Sistemtica foi a sua m agnum opus.

    PUBLICAES EVANGLICAS SELECIONADASRua 24 de Maio, 1 1 6 -3 - andar - sala 17 - 01041.000

    So Paulo, SP.

  • A HISTRIA DASDOUTRINASCRISTS

    BIKLIOTECA, A UB RE V GUULCK SIB1MA

    RIJA UO CIRO. M PARANGABA CKP: M .n*-U FOKTAI J'.ZA/CE

  • A HISTRIA DASDOUTRINASCRISTS

    L. Berkhof

    voliiim* acompanha ti 'IVnlo^lii Sisk-mtica tio autor e li-in o material histrico 11 w*r usado com acjuela obra

    NIMIHLK AICS i;VAN70 Sao Paulo - SP

  • Ttulo original:The History of Christian Doctrines

    E d ito ra :Wm. B. Eerdmans Publishing Co.

    P rim eira Edio:1937

    C opyright:L. Berkhof

    T radu to res:Joo M arques Bentes Gordon Chown

    Revisor:Antonio Poccinelli

    P rim e ira edio em portugus:1992. Permisso concedida por Wm. B. Eerdmans Publishing Co.

    C apa:Ailton Oliveira Lopes

    C om posio e im presso:Imprensa da F

    - 4 -

  • PREFCIO

    O volume originalmente intitulado Dogmtica Reformada agora11 parece com novo ttulo, A Histria das Doutrinas Crists. Obras sobre o desenvolvimento gradativo da verdade teolgica na Igreja de lesus ( 'l isto geralmente so postas ao lado das que tratam de teologia Histemtica, assim destacando-se como obras distintas. Julgou-se melhor sc*juir essa prtica, pois frisa a verdade que, em ltima anlise, a histiia do desenvolvimento do pensamento cristo no seio da Igreja um estudo distinto.

    Apesartlc* ser um estudo distinto, porm, no um que os estudantes i | i > leologii possam dar seno luxo de negligenciar. O estudo da verdade di 11111111(11111, rt |Hirto de sen fundo histrico, leva a uma teologia

    Jrt Itcilivr muito disso IIO passado, e no presente muito se v il# llll viiInn, O lowulliido tem sido uma compreenso errnea e uma H VhIImvAi i 11 li* il 11 > 111 ilii veidadc, Niioiem ha vido apreciao do fato que o I '|ili llii NumIo pulou ii l|',irja na interpivtaaoe desenvolvimento da vclilmli', tn*p,unilii ria e irvelada na Palavra de Deus. As senhas e iiiiii ou do passado nao loram tomados em considerao, e antigas hftobim, desde ha muito condenadas pela Igreja, so constantemente irpetldns e apresentadas como novos descobrimentos. As lies do piHiNiiilo r.ao bastante negligenciadas, e muitos parecem sentir que levem seguir seu prprio rumo, como se quase nada tivesse sido feito tio pii.v.ndo. Sem dvida um telogo deve levar em conta a situao nl iuiI do nitiiido reI igioso, reestudando sempre a verdade, mas no pode tirtflipriuiiir impunemente as lies do passado. Enfim que este breve 1'studi 11la historia das doutrinas sirva para criar maior interesse em tal estudo histrico, conduzindo a uma melhor compreenso da verdade.

    L. Berkhof

    < inmd Rapids, Michigan Iu de aposto de 1949

    - 5 -

  • N ota de Esclarecim ento

    norma da PES usar a letra I maiscula nas suas publicaes quando se refere verdadeira Igreja de Cristo, em sua totalidade. Outrossim, usamos i minsculo em todas as referncias igreja numa determinada localidade. Em particular usamos minsculas em toda aluso igreja catlica romana ou quando as palavras a Igreja se referem a essa entidade pois no a consideramos uma igreja verdadeiramente crist, muito menos A Igreja. No sempre fcil saber a que Igreja o Berkhof est aludindo, portanto provavelmente tenhamos errado em certas ocasies.

    Semelhantemente, usamos E maisculo ao referir-nos aos Evangelhos ou ao Evangelho de Joo, etc. Conservamos e minsculo para a mensagem anunciada, que se chama o evangelho.

  • NDICE

    IN TR O D U O G ERA L

    1. O ASSUNTO DA HISTRIA DO D O G M A .......................171. Significado da palavra dogma .......................................... 172. Origem e carter dos dogm as ................................................ 18

    2. A TAREFA DA HISTRIA DO D O G M A .......................... 211. Suas pressuposies................................................................. 212. Seu a ssu n to ................................................................................ 24

    O MTODO E AS DIVISES DA HISTRIA DO D O G M A ................................................................................ 26

    1. Divises da histria do dogm a .................................................262. Mtodo de tratam ento ................................................................27

    (a) A distino entre o mtodo horizontal e o vertical......... 27(l>) A distino entre um mtodo puramente objetivoo um mtodo confessional...............................................28

    I () I )I'.SIiN VC )I .VIMliNTO DA HISTRIA1)0 DOGMA ................................................................................30

    1. litorcs (jiic originaram a histria dodogma como disciplina separada ..............................................30

    2. Obras anteriores sobre a histria do d o g m a ........................ 31J. Obras posteriores sobre a histria do dogm a ....................... 33

    I) I0S KN V O LV IM EN TO D O U TR IN R IO PR E PA R A T R IO

    .S. OS PAIS APOSTLICOS E SUASPERSPECTIVAS D O U TR IN R IA S......................................37

    /. Escritos a eles atribudos ........................................................ 372. Caractersticas form ais de seus ensinos............................... 38.1. Contedo real de seus ensinamentos.....................................39

    PERVERSES DO E V A N G ELH O ........................................42/. Perverses ju d a ic a s ................................................................. 42

    (a) Os N azarenos.......................................................................... 42

    - 7 -

  • (b) Os E bionitas.......................................................................... 43(c) Os Elquesatas ................................................................... 43

    2. Perverses gentlicas: gnosis gentlico-crist ......................43(a) Origem do gnosticism o.......................................................44(b) Carter essencial do gnosticism o....................................... 44(c) Ensinos principais do gnosticism o.....................................45(d) Significao histrica do gnosticism o..............................47

    7. M OVIMENTOS REFORMADORES NA IG R E JA .......... 491. Mrcion e seu movimento de reform a ....................................49

    (a) Seu carter e p ropsito ........................................................ 49(b) Seus ensinamentos principais.............................................49

    2. Reforma dos m ontanistas......................................................... 50(zjSua o rig em .............................................................................50(b) Seus ensinos principais........................................................ 51(c) Seu acolhimento pela Igreja................................................ 51

    8. OS APOLOGETAS E O COMEO DA TEOLOGIADA IG R E JA ................................................................................ 53

    1. Tarefa dos apologetas ...............................................................532. Sua construo positiva da verdade ....................................... 543. Significao dos apologetas na histria do dogm a .............56

    9. OS PAIS ANTI-GNSTICOS ...............................................581. Pais anti-gnsticos .....................................................................582. Suas doutrinas sobre Deus, o homem e a histria

    da redeno ................................................................................. 593. Suas doutrinas sobre a Pessoa e obra de C risto ................. 60

    (a)Irineu .......................................................................................60()Tertuliano...............................................................................60

    4. Suas doutrinas sobre a salvao, a Igreja e asltimas coisas..............................................................................62

    10. OS PAIS ALEXANDRINOS ................................................. 651. Pais alexandrinos.......................................................................652. Suas doutrinas sobre Deus e o homem ...................................663. Suas doutrinas sobre a Pessoa e obra de C risto ................. 674. Suas doutrinas sobre a salvao, a Igreja e as

    ltimas coisas ..............................................................................68

    - 8 -

  • 11. O M ONARQUIANISM O.......................................................... 711. Monarquianismo d inm ico ........................................................712. Monarquianismo m odalista .......................................................72

    A D O U TR IN A DA TR IN D A D E

    12. A CONTROVRSIA T R IN ITA R IA N A ............................... 771. Pano de fu n d o ...............................................................................772. Natureza da controvrsia ........................................................... 78

    (a)rio e o arianism o................................................................... 78(b) Oposio ao a rian ism o...................................................78

    3. Conclio de N icia ........................................................................ 804. Conseqncias............................................................................ 80

    (a) Natureza insatisfatria da deciso.........................................80(b) Ascendncia temporria do semi-arianismo naIgreja O rien ta l................................................................................ 81(c) Mudana da m a r .................................................................... 82(d) A disputa em torno do Esprito Santo .................................. 83(V)Coinplcinentao da doutrina da T rin d ad e .........................83

    M. A DOUTRINA DA TRINDADE NA TEOLOGIAPOSTERIOR.................................................................................. 86

    1 Doiitiina da Trindade na teologia latina ............................... 862 Doutrina da Trindade no perodo da Reform a ..................... 87.i. Doutrina da Trindade aps o perodo da R eform a .............. 88

    A DO UTRINA DE C R ISTO

    14. AS CONTROVRSIAS CRISTO L G ICA S........................931. Primeiro estgio da controvrsia ..............................................94

    (V/jPano de fundo........................................................................... 94(b) Os partidos da controvrsia................................................... 95(c) Deciso do Conclio de C alcednia......................................98

    2. Segundo estgio da controvrsia ...............................................99(a)Confuso aps a deciso do C onclio .................................. 99(b) A controvrsia m onotelita ............................... 100(c) Estruturao da doutrina por Joo D am asceno............. 101(V/)Cristologia da Igreja O cidental........................................ 101

    15. AS DISCUSSES CRISTOLGICASPOSTERIO RES....................................................................... 104

    I. Na Idade M dia ....................................................................... 104- 9 -

  • 2. Durante a Reforma .................................................................. 1053. No Sculo X IX ......................................................................... 107

    (a) Ponto de vista de Schleierm acher.................................... 107(b) Concepes de Kant e de H e g e l...................................... 108(c) A teoria ken tica ................................................................ 109(d) Concepo de Dom er da encarnao.............................. 110(e) Posio de Ritschl sobre a Pessoa de C risto .................. 111(f) Cristo na teologia m oderna............................................... 111

    D O U TRIN A DO PECA D O E DA GRAA E DO UTRIN AS AFINS

    16. ANTROPOLOGIA DO PERODO PA T R ST IC O ........ 1151. Importncia dos problemas antropolgicos...................... 1152. Antropologia dos Pais g regos .............................................. 1153. Surgimento gradual de outra posio no O cidente ......... 117

    17. DOUTRINAS PELAGIANA E AGOSTINIANADO PECADO E DA G RA A ............................................... 119

    1. Agostinho e P e lg io ............................................................... 1192. Posio de Pelgio sobre o pecado e a graa .................. 1203. Posio de Agostinho sobre o pecado e a g raa .............. 121

    (a) Sua idia do pecado............................................................ 121(b) Sua idia da g raa ............................................................... 123

    4. Controvrsias pelagianas e semi-pelagianas.................... 124

    18. ANTROPOLOGIA DA IDADE M D IA ......................... 1271. Idias de Gregria o G rande .............................................. :~1272. A Controvrsia Gottschalkiana ........................................... 1283. A Contribuio de Anselm o .................................................. 129

    (a) Sua doutrina do p e c ad o ....................................................... 129()Sua doutrina da liberdade da von tade............................. 130

    4. Peculiaridades da antropologia catlica-romana ............ 131

    19. ANTROPOLOGIA DO PERODO DA R E FO R M A .... 1331. Antropologia dos reform adores.......................................... 1332. Posio de Socn io .................................................................. 1353. Antropologia arminiana ........................................................ 1364. Posio do Snodo de D ort.................................................... 1375. Posio da escola de Saumur............................................... 138

    - 10-

  • 20. IDIAS ANTROPOLGICAS DOS TEMPOSP S-R EFO RM A D O S............................................................ 140

    1. Pontos de vista d ivergentes .................................................... 140(a) M odificao da posio arminiana parao arminianismo w esleyano............................................. 140(b) M odificao da posio reformada na NovaInglaterra...................................................................................... 141

    2. Algumas modernas teorias do pecado ................................. 142(a)Filosfica s ........................................................................... 142(b) T eolgicas............................................... ......... 143

    A D O U TRIN A DA EX PIA O OU DA OBRA D E C R ISTO

    21. A DOUTRINA DA EXPIAO ANTES DEA N SELM O ................................................................................. 149

    1. Na teologia dos Pais gregos................................................. 1492. Na teologia dos Pais latinos................................................. 151

    22. A DOUTRINA DA EXPIAO DESDE ANSELMOA RH FORM A............................................................................ 155

    I. Doutrina da expiao conforme A nse lm o .......................... 155Teoria da expiao conforme A belardo .............................. 157Rcaao de Bernardo de Clairvaux contra A b e la rd o ........ 159

    4. Visoes sincretistas da expiao ............................................ 159(V/) Pedro Lom bardo................................................................... 159(b) Boaventura............................................................................ 160(c) Toms de A qu ino ................................................................. 160

    5. Duns Scoto sobre a expiao ............................................... 162

    23. A DOUTRINA DA EXPIAO NO PERODO DAR E FO R M A ............................................................................... 164

    1. Os reformadores aprimoram a doutrina de Anselm o ...... 1642. Concepo sociniana da expiao ...................................... 1663. Teoria grotiana da expiao ................................................ 1674. Idia arminiana da expiao ................................................ 1695. Transigncia na escola de Sa u m u r ..................................... 171

    24. A DOUTRINA DA EXPIAO APS AR E FO R M A .............................................................................. 173

    1. Controvrsia da M edula na E sccia .................................. 173

    - 11 -

  • 2. Schleiermacher e Ritschl sobre a expiao ........................ 174(a)Schleiermache r ................................................................. 174(b) R itsch l...................................................... 175

    3. Teorias mais recentes da expiao....................................... 176(a) Teoria governamental da teologia deNova Ing la terra ........................................................................ 176(b) Diferentes tipos da teoria da influncia m o ra l.............. 176(c) Teoria mstica da exp iao ............................................... 178

    A D O U T R IN A DA A P L IC A O E A P R O P R IA O DA G R A A DIVINA

    25. SOTERIOLOGIA DO PERODO PATRSTICO ........... 1831. Soteriologia dos trs primeiros scu lo s .............................. 1832. Soteriologia dos sculos restantes do

    perodo patrstico ..................................................................... 185

    26. SOTERIOLOGIA DO PERODO ESCOLSTICO........ 1901. Concepo escolstica da graa .......... ................................ 1902. Concepo escolstica da f ................................................. 1913. Concepo escolstica da justificao e do m rito .......... 192

    27. SOTERIOLOGIA DA REFORMA EP S-R EFO R M A ..................................................................... 195

    1. A ordem luterana da salvao ............................................... 1952. A ordem reformada da salvao ........................................... 1973. A ordem arminiana da sa lvao ........................................... 1984. Concepes secundrias da ordem de sa lvao ............... 199

    (a)A ntinom iana........................................................................ 199(Z?) M stica..................................................................................... 200

    A D O U TR IN A DA IG R E JA E A DOS SA CRA M ENTO S

    28. A DOUTRINA DA IG R E JA ................................................... 2051. No perodo pa trs tico .............................................................. 2052. Na Idade M dia ........................................................................ 2093. Durante e aps a R eform a .....................................................212

    (a) A idia lu te rana ..................................................................... 212( jA id iaan ab a tis ta .................................................................. 213(c) A idia reform ada..................................................................214(d)Idias divergentes ps-reform adas.................................... 214

    - 12-

  • 29. A DOUTRINA DOS SA CRA M EN TO S.......................... 2171. Os sacramentos em g era l ...................................................... 217

    (a)Desenvolvimento da doutrina antes da R e fo rm a ......... 217(b) Doutrina dos reformadores e da teologia poste rio r.220

    2. B atism o .....................................................................................222(a)Desenvolvimento da doutrina antes da Reforma ......... 222()Doutrina dos reformadores e da teologia posterio r......223

    3. A Ceia do S enhor ................................................................... 225(a) O desenvolvimento da doutrina antes da R eform a.......225(b) A doutrina dos reformadores e da teologia posterior ... 227

    A DO UTRIN A DAS LTIM A S COISAS

    30. O estado interm edirio .............................................................23331. A segunda vinda e a esperana m ilen ia l...............................23632. A ressurreio ............................................................................23933. O juzo final e os galardes f in a is ......................................... 241

    IfihlioKni/hi...........................................................................................245fiitlii r

  • INTRODUO GERAL

    - 15 -

  • 1

    O ASSUNTO DA HISTRIA DO DOGMA

    A histria do dogma no se preocupa com a teologia em geral. Trata pr mariamente dos dogmas, no estrito sentido do termo, e s em sentido secundrio aborda as doutrinas que ainda no receberam a sano eclesistica.

    I. SIGNIFICADO DA PALAVRA DOGM A

    A palavra domina se deriva do termo grego dokein, o qual, na exprPNNilo(lokri/t /mu significava no s parece-me ou agrada-me, ttinM f ttinhi^in "delerminei definidamente algo de modo que para mim luto i'Ntnlieleeidi>", "Domina" chegou a designar uma firme resoluoi m i um Irereii i, especialmente de forma pblica. Era termo aplicado a vevilmles indiscutveis tia cincia, a convices filosficas que so lidas como vlidas, a decretos governamentais e a doutrinas religiosas olii ialmente formuladas.

    A Hblia usa o vocbulo como designao de decretos govemamen- liin na Septuaginta (Est. 3:9; Dan. 2:13; 6:8; Luc. 2:1; At. 17:7), de ordenanas do Velho Testamento (Ef. 2:15; Col. 2:14) e das decises da assemblia de Jerusalm (At. 16:4). Apesar de que no foi o uso blhlico do termo, porm o filosfico, que originou seu significado posterior na teologia, ocorre que seu uso em At 16:4 indica pontos de semelhana com seu uso posterior na teologia. verdade que a assemblia de Jerusalm no formulou doutrina, mas regulamentou a vida tica da Igreja; sem embargo, sua deciso foi motivada por uma controvrsia doutrinria, teve vnculos doutrinrios e no serviu apenas de aviso, pois foi injuno positiva e dotada de sano eclesistica.

    1 nbora a palavra dogma algumas vezes seja usada na religio e na teologia com sentido amplo, sendo praticamente sinnimo de "doutrina, geralmente tem um sentido mais restrito. Doutrina a expresso direta, s vezes ingnua, de uma verdade religiosa. No

    - 17 -

  • necessariamente formulada com preciso cientfica, e mesmo quandoo , pode ser meramente a formulao de uma s pessoa. Um dogma religioso, por sua vez, uma verdade religiosa baseada sobre autoridade, oficialmente formulada por qualquer assemblia eclesistica. Esse sentido do termo no determinado por seu uso bblico, dentro do qual sempre denota um decreto, mandamento ou regra de vida prtica, mas est mais em harmonia com o uso filosfico da palavra, denotando proposio ou princpio. Alguns dos primeiros Pais da Igreja usaram- -na para descrever a substncia da doutrina. Cf. Hagenbach, History o f Doctrines I, pg. 2 s.; Hauck, Realencyclopaedie, Art. Dogmatik.

    2. ORIGEM E CARTER DOS DOGMAS

    H doutrinas religiosas nas Escrituras, embora no em forma elaborada; contudo dogmas no sentido corrente do termo no se acham ali. E que estes ltimos so fruto da reflexo humana, da reflexo da Igreja, com freqncia motivados ou intensificados pelas controvrsias teolgicas. Os catlicos romanos e os protestantes divergem um tanto em sua descrio da origem dos dogmas. Os primeiros reduzem ao mnimo, se no chegam a excluir, a reflexo da Igreja, como o corpo dos crentes, substituindo-a pelos estudos da igreja docente ou seja, a hierarquia. Sempre que surge uma nova forma ou erro, a igreja docente, isto , o clero, que agora tem um porta-voz infalvel no papa, aps cuidadoso exame, formula a doutrina ensinada nas Escrituras ou pela tradio, declarando-a verdade revelada e impondo sua aceitao por parte de todos os fiis. Diz W ilmers, em seu Handbook o f the Christian Religion, pg. 151: Um dogma, por conseguinte, uma verdade revelada por Deus, e ao mesmo tempo proposta pela Igreja para nossa crena . Similarmente, diz Spirago-Clarke em The Catechism Explained: Uma verdade que a igreja nos expe como revelada por Deus chamada verdade de f, ou dogma, pg. 84. E visto que a igreja infalvel em questes de doutrina, uma verdade assim proposta no s autoritria, mas por semelhante modo irrevogvel e imutvel. Se algum asseverar ser possvel que algumas vezes, conforme o progresso da cincia, seja dado s doutrinas propostas pela igreja um sentido diferente daquilo que ela tem entendido ou entende, que seja antema. Dogmatic Decrees o f the First Vatican Council, cnones IV 3.

    Os reformadores substituram esse ponto de vista catlico-romano por um outro que, a despeito de suas similaridades, diverge do mesmo em pontos importantes. Segundo eles, todos os autnticos dogmas religiosos derivam seu contedo material das Escrituras, e exclusivamente delas. No reconhecem a palavra oral, nem a tradio, como

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  • lonte de dogmas. Ao mesmo tempo, no consideram os dogmas como declaraes extradas diretamente da Bblia, porm os apresenta como IVuto da reflexo da Igreja, como corpo dos crentes, acerca das verdades reveladas, e como formulaes oficiais de corpos representativos competentes. Visto que a reflexo da Igreja com freqncia determinada e aprofundada pelas controvrsias doutrinrias, as form ulaes a que os Conclios ou os Snodos da Igreja so finalmente levados por orientao do Esprito Santo freqentemente trazem sinais dos conflitos passados. No so infalveis, embora se revistam de alto tfrau de estabilidade. Todavia, so autoritrias, no meramente porque so propostas pela Igreja, mas porque so form alm ente definidas pela Igreja e porque esto materialmente aliceradas sobre a Palavra de Deus.

    Sob a influncia de Schleiermacher, Ritschl, Vinet e outros, desen- vol veu se um conceito radicalmente diferente da origem dos dogmas, (|ue foi prontamente aceito em muitos crculos protestantes. Represen- tn ii conscincia, a experincia, a f ou a vida crist como fonte do contedo material dos dogmas, e reputa isso como algo mais em harmonia com os princpios da Reforma. Os dogmas da Igreja seriam iipeiiiiN formulaes intelectuais de suas experincias, sentimentos e eroniiN, ns quais, de ncordo com alguns, seriam despertados por um Iwliil' oltjtMivo, no qunl a piedade reconhece uma revelao divina. Ne lilolei imicliei eonteiule pela imediao dessas experincias religio- Niri, in i pav.oqiie Uiischl e sua escola asseveram que so mediadas por itlp.um latui objetivo, que a le honra como revelao de Deus. A comunidade religiosa reflete sobre essas experincias e, finalmente, mediante algum corpo competente, lhes d uma expresso intelectual loi inale assim transforma-as em dogmas. Segundo esse ponto de vista, bein como o outro, a formulao de dogmas no obra de um telogo | mi t ieular, e sim de uma comunidade, quer sejaalgreja (Schleiermacher), quer seja o Estado de mos dadas com a Igreja (Lobstein). Essa concepo da origem dos dogmas defendida por Schleiermacher, Kil-.i hl, Kaftan, Lobstein, Vinet, Sabatier, Is. Van Dijk e outros.I levei se ia notar, entretanto, que ela no descreve o modo como os dogmas existentes realmente se originaram nas igrejas protestantes, mas somente como, de acordo com esses escritores, os dogmas deveriam vir existncia. Eles reputam antiquados os velhos dogmas, por serem demasiadamente intelectuais e por no exprimirem adequadamente a vida da Igreja, e assim requerem novos dogmas que vibrem com a vida da comunidade religiosa.

    A opinio de Ham ack merece meno especial aqui. Em sua obra nu inumenlal, The History o f Dogma, ele busca lanar no descredito o

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  • ensino inteiro (isto , o complexo total de dogmas) da Igreja Primitiva, representando-o como uma mistura desnaturai da filosofia grega e da verdade crist, dentro da qual o ingrediente filosfico estranho o elemento preponderante. Diz ele: O dogma, em sua concepo e desenvolvimento, obra do esprito grego no solo do evangelho. A Igreja teria cedido ante tentao de apresentar sua mensagem em forma que a fizesse parecer sabedoria, e no loucura, para que assim ganhasse o devido respeito de pessoas educadas. A f prtica da Igreja teria sido transmutada em um conceito intelectual, em um dogma, e isso ter-se-ia tomado o eixo real da histria da Igreja. Teria sido grande equvoco, um equvoco que continuou a ser feito na formulao posterior de dogmas; e assim a histria inteira do dogma na realidade a histria de um erro colossal. grande ambio da escola de Ritschl, qual Ham ack pertence, eliminar toda metafsica da teologia.

    Um dogma pode ser definido como uma doutrina, derivada da Bblia, oficialmente definida pela Igreja e declarada firmada sobre a autoridade divina. Essa definio em parte d nome e em parte sugere suas caractersticas. Seu assunto se deriva da Palavra de Deus, pelo que autoritrio. No mera repetio do que se encontra nas Escrituras, mas fruto da reflexo dogmtica. E oficialmente definido por um corpo eclesistico competente, sendo declarado ter base na autoridade divina. Tem significao social por ser a expresso de uma comunidade, e no de um s indivduo. E reveste-se de valor tradicional, pois transmite as preciosas possesses da Igreja para geraes futuras. Na histria do dogma, vemos a Igreja tomando-se mais e mais cnscia das riquezas da verdade divina, sob a orientao do Esprito Santo, atenta s suas elevadas prerrogativas como coluna e fundamento da verdade, atarefada na defesa da f que de uma vez por todas foi entregue aos santos.

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    A TAREFA DA HISTRIA DO DOGMA

    A tarefa da histria do dogma consiste, em poucas palavras, em descrever a origem histrica do dogma da Igreja e de seguir o curso de suas alteraes e desenvolvimentos subseqentes; ou, conforme as palavras de Seeberg, consiste em mostrar como o dogma na sua totalidade e os dogmas em separado tm surgido, e indicar o curso de desenvolvimento pelo qual foram conduzidos at chegarem forma e in terpretao que prevalecem nas igrejas em qualquer poca . As o b s e r v a e s gerais que se seguem podem ser feitas acerca de suas pressuposies, do seu contedo geral e do ponto de vista do qual foi escrito esta histria.

    I. S1JAS 1KlSSlIPOSK/HS

    A ('laiule pressuposio tia histria do dogma parece ser que o (lo)',nia da Igreja mutvel ede fato tem passado por muitas modificaes duiaiite seu desenvolvimento histrico. O que imutvel no pa ss v e I de desen vo I vi mento e nem tem histria. A teologia protestante sempre manteve a posio de que o dogma da Igreja, posto que caracterizado por alto grau de estabilidade, est sujeito a modificaes e no curso da histria vem sendo enriquecido por novos elementos, recebendo formulao mais cuidadosa, e at certas transformaes. Ela no encontra dificuldades, portanto, com a idia de uma histria do ilogma, Todavia, a situao um tanto diferente no caso da teologia eatlica-romana. Os catlicos romanos ufanam-se no fato de possurem um dogma imutvel e se sentem muito superiores aos protestantes, os quais, nas palavras do cardeal Gibbons, apelam para uma Bblia imutvel em apoio s suas doutrinas em constante m utao. Diz ele que o credo da igreja atualmente idntico ao que era no passado. Faith ofourFathers, pgs. 11,87. Wilmers fala em tom similar, quando diz: A religio crist imutvel em todas as suas doutrinas reveladas em todos aqueles preceitos e instituies que visam a todos os lioinenS- Nenhum artigo de f (pois quanto a artigos doutrinrios h

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  • principalmente dvidas) pode ser adicionado ou subtrado; e nem pode qualquer dogma receber significao diversa da que foi dada por Cristo. Handbook o fth e Christian Religion, pg. 67. Por repetidas vezes os autores catlicos-romanos afirmam que a igreja no pode fazer novos dogmas, podendo apenas transmitir a outros o depsito sagrado que lhe foi confiado.

    Todavia, se so verdadeiras as reiteradas afirmaes de que a igreja no pode adicionar novos dogmas, ento segue-se que os dogmas j haviam sido dados no depsito original, na f uma vez por todas entregue aos santos, a qual est contida nas Escrituras e na tradio apostlica. Nenhum dogma jam ais foi adicionado ao depsito sagrado, e nenhum dogma ali contido foi alterado em qualquer ocasio. S a igreja tem o poder de declarar uma verdade como algo revelado por Deus, conferindo-lhe uma interpretao infalvel, assim dissipando incertezas e aumentando o conhecimento positivo dos fiis. Assim ela fez no passado e continuar fazendo, sempre que as oportunidades histricas o exijam. Portanto, o prprio dogma no se desenvolve e, assim sendo, no tem histria; s h desenvolvimento na apreenso subjetiva do mesmo, ficando assim determinado o conceito catlico - -romano da histria do dogma. Diz B.J. Otten, autor catlico-romano &A Manual ofthe History o f Dogmas (3 edio): Ela (a histria dos dogmas) pressupe que as verdades reveladas so objetivamente permanentes e imutveis, e tambm que a apreenso subjetiva e a expresso externa delas admitem progresso. Vol. I, pg. 2.

    Por longo tempo os catlicos romanos olharam de soslaio para a histria do dogma. Neander diz que um moderno telogo, Hermes de Bonn, asseverou que tratar a histria dos dogmas como um ramo especial de estudo, devido mudana de desenvolvimento que ela pressupe, milita contra a igreja catlica, e por essa razo ele tinha escrpulos em fazer prelees a respeito. The History o f Christian Dogmas, I, pg. 28. Petavius foi o primeiro dos catlicos romanos a sugerir algo parecido com uma doutrina de desenvolvimento, mas sua obra no foi bem acolhida, e ele foi obrigado a qualificar suas afirmaes. Mais tarde, Moehler, e sobretudo Newman, advogaram uma teoria de desenvolvimento que obteve considervel favor, embora no universal. A teoria deste ltimo em efeito dizia que muitas das doutrinas da igreja estavam presentes no depsito original em forma apenas germinal. Seriam como sementes implantadas na mente da igreja, prenhes de insuspeitadas possibilidades e, no curso do tempo, desdobradas em doutrinas amadurecidas. Embora as novas expresses doutrinrias com freqncia encontrassem oposio, gradualmente foram ganhando terreno e se foram tomando populares. Finalmente, a

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  • igreja docente, a hierarquia, interveio a fim de testar os resultados desse novo desenvolvimento, apondo o selo de sua infalvel aprovao quanto a alguns deles, e isso pela declarao que eram verdades divinamente reveladas. Essa teoria foi favorecida por muitos catlicos romanos, entretanto no se impe diante de todos, e nunca recebeu aprovao oficial.

    Uma segunda pressuposio da histria do dogma a de que o desenvolvimento do dogma da Igreja se deu ao longo de linhas orgnicas, pelo que foi sobretudo um crescimento contnuo, a despeito do fato que os lderes eclesisticos, nos seus esforos de apreender a verdade, com freqncia se desviaram para becos sem sada, perseguindo fogos-ftuos e brincando com elementos estranhos; e que a prpria Igreja, no seu todo ou em parte, algumas vezes errou na sua formulao da verdade. A revelao especial de Deus o desdobramento gradual do conhecimento estereotipado de Deus e da idia remidora ligada a Cristo Jesus. um todo orgnico no qual as partes esto toda interrelacionadas, a expresso completa do pensamento divino. A Igreja, em suas tentativas para apreender a verdade, simplesmente tenta pensar os mesmos pensamentos que Deus pensa. Ela faz hso,sob a direo do Esprito Santo, que o Esprito da verdade e, como InI, gitntnle que ela ir vendo crescentemente a verdade como um oruntilNitio Internamente estruturado. A histria do dogma, talvez, no Hf]ii inem r m n l i i i , registrando a histria externa dos vrios dogmas da Ijivjii. I'1. a histria de um crescimento orgnico, bem como das o p era es internas da mente, da Igreja, pelo que tambm pressupe um desenvolvimento contnuo do dogma eclesistico.

    Sc- a Igreja do passado houvesse agido sobre a pressuposio, agora advogada por muitos, de que as condies mutveis da vida religiosa tie vez em quando requerem um novo dogma, e de que cada poca deve lormular seu prprio dogma, desfazendo-se do velho e substituindo-o por outro que melhor se harmonize com a condio espiritual do momento, ento teria sido perfeitamente impossvel escrever uma histria do dogma no sentido orgnico do termo. Teremos de prosseguir baseados na pressuposio de que a Igreja, apesar das melanclicas aberraes que caracterizam sua busca da verdade e que com freqncia a tm levado a caminhos errados, mesmo assim vai gradualmente avanando em sua apreenso e formulao da verdade. Teremos de supor que nem mesmo uma tremenda reviravolta religiosa como foi a Reforma constituiu rompimento completo com o desenvolvimento doutrinrio do passado. Apesar de que muitos erros foram desmascarados e corrigidos, os reformadores buscaram apoio para seus pontos de vista nos Pas da Igreja Primitiva, no hesitando mesmo

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  • em adotar algumas das posies que foram moldadas durante a Idade Mdia. Houve continuidade de pensamento at nisso.

    2. SEU ASSUNTO

    O fato que a histria do dogma aborda primariamente os dogmas da Igreja no quer dizer que ela no deva interessar-se por aqueles desenvolvimentos doutrinrios que ainda no tinham sido incorporados nos credos oficiais e que talvez nunca seriam. Seria equvoco supor que poderia comear com o Conclio de Nicia e terminar com a adoo da ltima das confisses histricas. A fim de descrever a gnese dos mais antigos dogmas da Igreja, o ponto inicial dela tem que ser o fim do perodo de revelao especial no estudo dos Pais Apostlicos. Ela ter de levar em conta aquelas formaes prvias dos dogmas da Igreja que resultaram das discusses teolgicas da poca e que receberam aprovao quase geral, embora no tenham gozado do selo oficial da Igreja, assim como aquelas verdades perifricas que necessariamente se derivaram do dogma central e controlador, embora no tivessem recebido sano eclesistica especial, e finalmente aqueles desenvolvimentos posteriores da verdade doutrinria que prevem e preparam o caminho para formulaes adicionais de dogmas teolgicos. J que o dogma da Igreja no fruto de construo mecnica, e sim de um crescimento orgnico, o estudo da histria dele no pode pensar em limitar sua ateno aos resultados claramente definidos que foram obtidos em diferentes pocas, mas tambm deve considerar os estgios intermedirios com sua promessa de frutos ainda melhores e mais ricos.

    Segue-se disso que, no que concerne histria externa, a histria do dogma no pode negligenciar as grandes controvrsias doutrinrias da Igreja, as quais foram as dores de parto de novos dogmas e que com freqncia exerceram influncia determinadora sobre sua formulao. Embora esse estudo nem sempre seja edificante, ele absolutamente essencial compreenso apropriada da gnese de dogmas eclesisticos. Nessas controvrsias tomaram-se patentes as diferenas de opinio e, em alguns casos, isso deu origem a diferentes linhas de desenvolvimento, tendo surgido formulaes doutrinrias que no combinavam com a conscincia unida da Igreja em geral ou de alguma denominao especfica. Entretanto, at mesmo tais desvios da linha principal de pensamento so importantes na histria do dogma, visto que com freqncia levaram a mais clara e aguda formulao da verdade.

    M as se a histria do dogma no pode ignorar qualquer dos fatos

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  • externos que esto vinculados ao desenvolvimento do dogma, jam ais deveria perder de vista o fato que ela se importa, primariamente, com o desenvolvimento do pensamento teolgico na conscincia da Igreja, razo por que deveria acompanhar o desenvolvimento da idia inerente revelao feita pelo prprio Deus. Hegel e Baur prestaram bom servio histria do dogma quando chamaram a ateno para o fato de que o desenvolvimento do dogma controlado por uma lei interna, embora o princpio interpretativo deles no se recomende ao pensamento cristo. Podemos discernir certa necessidade lgica nos estgios sucessivos do desenvolvimento de cada dogma, bem como na ordem em que se apresentaram os vrios problemas dogmticos. De modo geral, pode-se dizer que a ordem lgica, usualmente seguida no estudo da dogmtica, se reflete mais ou menos na histria do dogma.

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    O MTODO E AS DIVISES DA HISTRIA DO DOGMA

    Tem havido considerveis diferenas na diviso do assunto da histria do dogma e no mtodo seguido em seu tratamento. De modo resumido apresentamos algumas dessas diferenas.

    1. DIVISES DA HISTRIA DO DOGMA

    A diviso comum da maior parte das obras mais antigas sobre a histria do dogma tem sido histria geral e histria especial do dogma. Essa diviso seguida em cada um dos perodos sucessivos, nos quais a histria geral esboa o pano de fundo filosfico geral, os principais temas de discusso e a direo geral do estudo doutrinrio em cada perodo sob discusso. Semelhantemente, a histria especial traa a gnese e o desenvolvimento dos dogmas separados, especialmente aqueles que so centrais e exercem influncia controladora sobre a formao dos dogmas mais perifricos. Os dogmas especiais so geralmente discutidos sob os ttulos costumeiros de dogmtica: teologia, antropologia, cristologia, e assim por diante. Isso se chama o lokal- -methode, seguido por Hagenbach, Neander, Sheldon e outros. Ritschl rejeitou ambas as partes desse mtodo de diviso, sob a alegao que representam um mtodo anatmico, e no um mtodo orgnico de exame; e nas obras posteriores sobre a histria do dogma so abandonados tanto as suas divises em histria geral e histria especial como o lokal-methode. Essa uma das notveis diferenas entre as palavras de Hamack, Loofs, Seeberg e Fisher, por um lado, e a maioria das histrias anteriores, por outro lado. A grande objeo diviso da histria do dogma em geral e especial que ela separa o que pertence a uma coisa s. Do mesmo modo a objeo ao lokal-methode que ele artificial, ao invs de histrico, no fazendo justia diferena de nfase nos vrios perodos, e nem quilo que distintivo nas discusses sobre cada perodo. Os escritores posteriores, embora no totalmente acordes quanto diviso a ser aplicada no estudo da histria do dogma,

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  • esforam-se todos por expor um ponto de vista mais unificado sobre a gnese e o desenvolvimento do dogma da Igreja. As divises usadas por H am ack e Loofs revelam grandes similaridades, enquanto que as de Seeberg seguem de perto essas linhas. Ele divide da seguinte maneira: I. Formulao da Doutrina na Igreja Primitiva. II. Preservao, Transformao e Desenvolvimento da Doutrina na Igreja da Idade Mdia. III. Desenvolvimento do Sistema Doutrinrio durante a Reforma, e Cristalizao Opositora de Doutrina pelo Catolicismo Romano.

    2. M TODO DE TRATAMENTO

    Sob este ttulo geral duas distines exigem considerao.(a) A distino entre o mtodo horizontal e o vertical. Alguns

    seguem o mtodo horizontal e outros o vertical, ao estudarem a histria do dogma. Os que adotam o primeiro consideram a histria do desenvolvimento doutrinrio como um todo, em perodos, e traam a gnese de todos os vrios dogmas em cada perodo especfico, deixan- do-os no estgio em que so encontrados no fim do perodo, e ento os retomam nesse ponto a fim de seguir seu posterior desenvolvimento. Assim, o desdobramento da doutrina sobre Deus estudada at ao incio da Idade Media; da abandonado, sendo seguido pelo estudo do desenvolvimento da doutrina sobre Cristo at aquela altura; novamente isso interrompido, sendo sucedido pela considerao do desenvolvimento gradual das doutrinas antropolgicas do pecado e da graa ao longo do mesmo perodo; e assim por diante at o fim em todas as matrias: Por outro lado, os que seguem o mtodo vertical consideram o estudo dos dogmas separados na ordem em que se tom aram o centro da ateno da Igreja, seguindo seu desenvolvimento at atingirem sua forma final. A doutrina acerca de Deus a primeira a ser ventilada, por ter sido a primeira que mereceu a ateno da Igreja, e seu desenvolvimento acompanhado at ao tempo de sua formulao final nos credos histricos do perodo posterior Reforma. De modo semelhante, as doutrinas centrais restantes, tais como a sobre Cristo, o pecado, a graa, a expiao, e assim por diante, so estudadas em seus vrios estgios de crescimento at atingirem sua forma oficial e definitiva. O primeiro intodo seguido por Hagenback, Neander, Sheldon, Ham ack, Loofs e Seeberg; o segundo, embora com certas diferenas, por Thomasius, Shedd e Cunningham. Cada mtodo tem suas vantagens e desvantagens. Em nossa breve discusso, parece melhor seguir o segundo intodo, porquanto mantm os dogmas separados em alto relevo diante da mente, capacitando-nos a seguir seu desenvolvimento do comeo ao

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  • fim, sem desviarmos a ateno do fluxo regular de pensamento devido a uma diviso mais ou menos mecnica. Naturalmente, h sempre o perigo o qual deve ser evitado tanto quanto possvel de que as doutrinas sob considerao paream mais ou menos desligadas do seu fundo histrico e da sua conexo lgica com os sistemas de pensamento dos grandes telogos da Igreja, como Tertuliano, Orgenes, Agostinho, Anselmo, Toms de Aquino, Lutero, Calvino e outros. Felizmente, esse perigo afastado at certo ponto pelo fato que as doutrinas centrais da Igreja, com as quais nos ocupamos principalmente, no ocuparam o foco de ateno simultaneamente. Ademais, a leitura de outra obra sobre a histria do dogma, tal como a de Seeberg, a de Sheldon ou a de Fischer, ajudar a eliminar essa desvantagem. Enquanto seguirmos esse mtodo, no terminaremos nossa discusso histrica de cada um dos dogmas no ponto em que foram incorporados no ltimo dos grandes credos histricos, mas consideraremos as mudanas ou desenvolvimentos sugeridos pela literatura teolgica posterior, visto que, com a passagem do tempo, poderiam levar a formulaes dogmticas mais sadias, mais claras ou mais completas.

    (b) A distino entre um mtodo puramente objetivo e um mtodo confessional. Alguns opinam que o nico modo apropriado e cientfico de tratar da histria do dogma empregar um mtodo puramente objetivo. Acham que a tarefa do historiador descrever o incio e o desenvolvimento do dogma da Igreja sem quaisquer preconceitos, sem manifestar simpatia ou antipatia, e sem de maneira alguma julgar a veracidade ou falsidade das vrias formulaes doutrinrias. Dizem- -nos que tal juzo no cabe na histria do dogma, e sim somente na prpria dogmtica. Assim, sempre que o curso geral do desenvolvimento doutrinria se divide em vrias correntes, que produzem doutrinas diversificadas e at mesmo antitticas, como, por exemplo, nas igrejas grega, catlica romana, luterana e reformada, o historiador deveria simplesmente descrever as mesmas, uma aps outra, sem test- -las e sem expressar quaisquer preferncias. Contudo, dr. Kuyper corretamente chama ateno para o fato que ningum poderia usar esse mtodo ao descrever a histria do seu pas, ou ao escrever a biografia de um amigo, pois ningum poderia escrever como um espectador desinteressado.

    Assim tambm o historiador, o qual tenha convices doutrinrias definidas e concorde com certo credo, achar difcil, se no mesmo impossvel, escrever uma histria dos dogmas sem quaisquer preconceitos e sem deixar entrever seu ponto de vista eclesistico. Haver de preferir o mtodo confessional, segundo o qual ter como ponto de partida a sua prpria confisso, buscando dar uma explicao gentica

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  • de seu contedo. Ao avaliar os vrios desenvolvimentos doutrinrios, ele empregar no s o padro da Palavra de Deus, mas tambm o critrio de sua prpria confisso a Palavra como padro absoluto da verdade religiosa, e a confisso dele como resultado bem considerado e cuidadosamente formulado de investigaes anteriores que, embora no sejam infalveis, ainda assim deveriam ser consideradas uma verdadeira apresentao da verdade escriturstica at ser comprovado o contrrio. A histria assim escrita no ser descolorida, porm naturalmente refletir a perspectiva do autor quase em cada pgina. No perverter conscientemente os fatos da histria, todavia julg-los- - primariamente pelo padro das Escrituras, segundo o qual deveriam ser julgadas todas as verdades religiosas e, secundariamente, por um critrio eclesistico predeterminado. Esse o mtodo que preferimos seguir no nosso estudo da histria do dogma.

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    O DESENVOLVIMENTO DA HISTRIA DO DOGMA

    1. FATORES QUE ORIGINARAM A HISTRIA DO DOGMA COMO DISCIPLINA SEPARADA

    O estudo da histria do dogma como disciplina separada de data comparativamente recente. Material valioso para tal estudo foi recolhido nos sculos anteriores Reforma, mas, segundo diz Harnack, dificilmente prepararam o caminho e menos ainda produziram uma perspectiva histrica da tradio dogmtica. History o f Dogma I, pg.24. Posto que a igreja catlica romana agia sobre a suposio de que o dogma imutvel, e ainda mantm essa posio, pode ser dito que, tendo a Reforma rompido com esse ponto de vista, abriu caminho para um exame crtico da histria do dogma. Outrossim, foi um movimento que, em sua prpria natureza, contribuiu maravilhosamente para dar um incentivo especial a tal estudo. Levantou muitas indagaes sobre a natureza da Igreja e seus ensinamentos, e procurou respond-las no s luz da Bblia, porm tambm apelando aos Pais da Igreja Primitiva, o que forneceu motivo direto e poderoso para um estudo histrico do dogma. Contudo, os reformadores e telogos da poca da Reforma no deram incio a essa investigao. Embora tenham apelado aos Pais dos primeiros sculos para consubstanciarem suas opinies, no sentiram a necessidade de fazer inquirio cuidadosa e crtica sobre a gnese histrica de todo aquele corpo de doutrina que constitua o contedo de sua f. No abrigaram dvidas quanto ao carter escriturstico das doutrinas em que criam. Alm disso, essas doutrinas integravam suas prprias vidas, sendo constatadas na experincia. E a sua robusta f no s prescindia dessa investigao histrica, mas tambm os interesses dogmticos e polmicos que ocupavam a mente deles pouco tempo lhes deixavam para estudos histricos.

    Permanece de p o fato, porm, que as igrejas catlica romana e protestante se acusavam mutuamente de terem-se afastado da f

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  • histrica crist, e somente um cuidadoso estudo da histria poderia dar soluo a essa disputa. Apesar de ter ficado inoperante por longo tempo esse motivo, devido aos interesses polmicos e dogmticos, achava-se ele presente e fatalmente exerceria alguma influncia na ocasio oportuna. Todavia, s se fez operante quando reforado por outros motivos, suprido por movimentos inamistosos para com o dogma eclesistico. O pietismo nascera da convico que o escolasticismo protestante exercera influncia petrificadora, ameaando assim as verdades vivas da Reforma. Reagia contra o que era tido como o intelectualismo estril do sculo XVII, e nisso via um afastamento para longe da f dos reformadores. E o racionalismo se mostrou hostil ao dogma eclesistico por estar este baseado sobre a autoridade, e no sobre a razo humana; e com sua alegada estabilidade servia esse dogma de entrave livre perscrutao da mente humana. O racionalismo estava interessado em mostrar que os dogmas eclesisticos vinham se modificando repetidamente, e portanto no podiam reivindicar a permanncia e a estabilidade comumente lhes atribudas. Esses dois movimentos, embora distintos e at antagnicos entre si em alguns pontos, uniram suas foras em oposio ao dogma e comearam a estudar sua histria com o desejo oculto de solap-lo.

    Outro fator que deve ser levado em conta o despertar do esprito histrico, sob a influncia de Semler e outros. Semler deu incio ao moderno estudo histrico das Escrituras e escreveu a obra intitulada^ Experiment o fa Freer Method ofTeaching, trabalho pioneiro no qual se explicava o valor prtico do mtodo histrico. No campo da histria eclesistica o fruto desse novo esprito foi visto pela primeira vez na grande obra de Moshein. Apesar de no tratar da histria do dogma, mesmo assim deu grande mpeto a esse estudo. Importantes elementos favorveis a isso so vistos nas obras de Lessing e Semler.

    2. OBRAS ANTERIORES SOBRE A HISTRIA DO DOGM A

    As verdadeiras origens do estudo da histria do dogma se encon- liam nas obras de S.G. Lange e Muenscher. A obra de Lange foi planejada em larga escala, mas nunca foi terminada. M uenscher escreveu uma obra em quatro volumes, em 1797, e posteriormente um compndio. Mediante um estudo sem preconceitos ele tentou responder pergunta: como e por que a doutrina do cristianismo gradualmente fo i I om ando sua presente forma? Sua obra foi maculada pela influncia do racionalismo, e deixou de esclarecer se o objetivo prprio do estudo a doutrina ou o dogma. Foi ele que pela primeira vez fez a diviso do esiudo em estudo geral e estudo especial do dogma, o que se acha em

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  • muitas obras posteriores. Os manuais que surgiram depois da obra de M uenscher no assinalaram qualquer avano especial no estudo do assunto.

    Sob a influncia de Hegel teve incio um melhor mtodo histrico. Sua aplicao ao estudo da histria se v sobretudo na obra de F. C. Baur, pai da escola de Tuebingen de crtica neo-testamentria. O princpio hegeliano de evoluo foi introduzido para salientar uma ordem e um progresso definidos no surgimento dos dogmas eclesisticos. Passou a ser reputado como o objetivo da histria do dogma a fim de: (a) determinar os fatos em sua situao real, conforme testemunhas credenciadas; e (b) interpret-los de acordo com uma exata lei de desdobramento interno. Por muito tempo, no entanto, foi uma idia puramente especulativa de desenvolvimento, corporificada na familiar criada hegeliana, que foi fortemente imposta sobre esse estudo. Isso transparece mais claramente na obra de Baur.

    A idia de desenvolvimento, contudo, gradualmente foi adquirindo outras aplicaes alm da hegeliana. Ela pressuposta nas produes da escola teolgica de Schleiermacher. Tambm foi aplicada por escritores medianeiros como Neander e Hagenbach, que ultrapassam os hegelianos em sua estimativa do cristianismo como religio e do valor religioso da doutrina. Todavia, eles falham na aplicao do princpio histrico no ponto em que continuaram usando a antiga diviso em histria geral e histria especial, e quando a essa igualmente aplicam o chamado lokal-methode. Outras modificaes se acham nos escritos de confessionalistas como Kliefoth e Thomasius. Na obra do primeiro desses emerge a idia do dogma em distino idia de doutrina, e a primeira se torna o obejto mesmo desse estudo. Conforme esse escritor, cada poca produz seu prprio ciclo de verdades dogmticas, deixando-o como um tesouro a ser preservado, e no como material a ser refeito ou mesmo cancelado (Baur). Deve ser incorporado como um todo no desenvolvimento seguinte. Thomasius distinguia bem entre dogmas centrais e perifricos, em que os primeiros seriam as grandes doutrinas fundamentais sobre Deus, sobre Cristo, sobre o pecado e sobre a graa, e os ltimos seriam doutrinas derivadas, desenvolvidas sobre a base das doutrinas centrais. Ele escreveu sua obra do ponto de vista confessional da igreja luterana.

    A erudio catlico-romana demorou em interessar-se pelo estudo da histria do dogma. Quando o fez, teve seu ponto inicial na concepo distinta do dogma como declarao autoritria da igreja sobre as doutrinas fundamentais da religio crist. As obras mais antigas baseiam-se na suposio de que a Igreja Primitiva possuia o dogma completo do cristianismo, como se no houvesse possibilidade alguma

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  • de alterao com a passagem das geraes. Afirmam elas no ter havido qualquer adio ao depsito original, mas somente interpretaes do mesmo. Newman introduziu a teoria de desenvolvimento. Segundo ele o original depsito da verdade revelada na Bblia principalmente implcito e embrionrio, desdobrando-se apenas gradualmente sob o estmulo de condies externas. O processo de desenvolvimento, entretanto, absolutamente controlado pela igreja infalvel. Contudo, nem mesmo essa teoria, embora cuidadosamente colocada, foi bem aceita de modo geralnos crculos catlicos-romanos.

    3. OBRAS POSTERIORES SOBRE A HISTRIA DO DOGM A

    Obras posteriores sobre a histria do dogma revelam a tendncia de descontinuar o arranjo mecnico das obras mais antigas, que dividiamo lema em histria geral e histria especial e que aplicavam o lokal - methode. Isso ainda por ser visto, de fato, na obra de Sheldon, e

    parcialmente tambm na de Shedd; mas sua ausncia patente em oul rns obras recentes. H uma crescente convico de que a histria do domina deveria ser tratada mais organicamente. Nietzsche adotou um uitanjo gentico, sob os seguintes ttulos:/! Promulgao da Doutrina tl(lAntlx

  • Protestantismo no tempo da Reforma rejeitou em princpio o conceito dogmtico de cristianismo. Seus dogmas esto constantemente sujeitos a reviso. Estritamente falando, no h lugar para verdades fixas, para dogmas, porm somente para um Glaubenslehre. Ham ack assume um ponto de vista por demais limitado sobre o dogma, no fazendo justia averso dos primeiros Pais da Igreja influncia pag e pensando que a inteira histria do dogma um erro imenso.

    Loofs e Seeberg no seguem a diviso de Hamack, mas parecem sentir que a segunda diviso de sua grande obra na realidade abarca praticamente o total da histria do dogma, embora o primeiro exiba ainda um captulo separado sobre a gnese do dogma entre os cristos. E embora ele no concorde totalmente com o conceito de dogma de Hamack, Loofs mostra maior afinidade com ele do que o fez Seeberg em sua obra monumental. Essa obra serve bastante como fonte de informao, pois contm numerosas citaes de autores cujos pontos de vista doutrinrios so examinados. A semelhana de Hamack, S eeberg tambm escreveu um manual em dois volumes, traduzido parao ingls pelo dr. Charles E. Hay e publicado em 1905 sob o ttulo Textbook ofthe History ofDoctrine. obra de considervel valor parao estudante.

    Perguntas para Estudo Posterior

    Em que diferem os catlicos romanos e os protestantes em suas idias sobre o dogma? Como a teoria de Newman alterou o ponto de vista catlico-romano sobre a histria do dogma? Quais as objees que existem idia de Ham ack sobre o dogma? Suas idias foram geralmente aceitas entre os seguidores de Ritschl? Os catlicos romanos e os protestantes concordam quanto tarefa que cabe histria do dogma? O elemento mutvel do dogma, pressuposto em sua histria, est em sua forma, em seu contedo ou em ambas essas coisas? O que se pode dizer a favor e contra o mtodo hegeliano, quando aplicado histria do dogma? Ao aplicar o mtodo hegeliano, Baur fez justia aos fatos histricos externos? Acaso, a histria do dogma, para ser verdadeiramente cientfica, deve ser escrita de maneira puramente objetiva?

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  • DESENVOLVIMENTO DOUTRINRIO PREPARATRIO

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    OS PAIS APOSTLICOS E SUAS PERSPECTIVAS DOUTRINRIAS

    I. KSCRITOS A ELES ATRIBUDOS

    ( ).s Puis Apostlicos o os Pais que se supem ter vivido antes da morte do ltimo dos apstolos, sobre os quais se diz que alguns foram dUe (pulos (.tos apstolos, e ti quem so agora atribudos os mais antigos tw i IIon (.TiNlrtoN existentes, I i; seis nomes especiais que chegaram at luto, li Hitltct, Umiiah. g e m ias. ( Jementc (kvRoiiia, Policarpo, apiS V llirtoln. C) pl lllii'llo (; gonilmenle considerado, embora com evidncia tlwvTtlimu, o Itu^tuo 1 luruitlu* que se toniou conhecido como compa- iiliellii i|e 1'niiln, em Atos dos Apstolos, lile lido como autor de uma i

  • de Joo. Foi o autor de uma Exposio dos Orculos do Senhor , da qual apenas alguns doutrinariamente insignificantes fragmentos foram preservados por Eusbio. Incio, comumente conhecido como bispo de Antioquia, tambm viveu nos dias do ltimo dos apstolos. Quinze cartas lhe foram atribudas, porm s sete so agora consideradas genunas, e mesmo dessas alguns duvidam. A esses escritos devemos adicionar dois de autoria desconhecida, a saber, a Epstola a Diogneto e o Didache. s vezes o primeiro atribudo a Justino M rtir, porquanto ele escreveu uma Apologia a Diogneto. No entanto, tal autoria extremamente improvvel, em face de evidncias internas. O escritor explica os motivos pelos quais muitos cristos haviam deixadoo paganismo e o judasmo, descreve as principais caractersticas do carter e da conduta dos cristos, e liga essas coisas doutrina crist, da qual faz um admirvel sumrio. O Didache, descoberto em 1873, provavelmente foi escrito cerca do ano 100 d.C. A primeira parte contm preceitos morais sob o esquema dos dois caminhos, o da vida e o da morte, enquanto que a segunda parte fornece orientaes pertinentes ao culto e ao governo eclesistico, entremeadas com declaraes acerca das ltimas coisas.

    2. CARACTERSTICAS FORMAIS DE SEUS ENSINOS

    Com freqncia se tem observado que ao passarmos do estudo do Novo Testamento para os Pais Apostlicos, tem-se conscincia de tremenda mudana. No h o mesmo frescor e originalidade, profundidade e clareza. E no para admirar, pois indica a transio das verdades dadas por inspirao infalvel para a verdade reproduzida por pioneiros falveis. Suas reprodues tendem por escorar-se pesadamente sobre as Escrituras, alm de serem de tipo primitivo, ocupando-se com princpios elementares da f, e no com as verdades mais profundas da religio.

    Seus ensinos se caracterizavam por certa pobreza. Geralmente concordam no todo com os ensinos das Escrituras, e com freqncia so redigidos nas prprias palavras da Bblia, mas pouco acrescentam guisa de explicao e nunca so sistematizados. E ningum precisa admirar-se com isso, pois pouco tempo houvera para que os homens refletissem sobre as verdades das Escrituras e para que assimilassem a grande massa de material contido na Bblia. O cnon do Novo Testamento ainda no estava fixado, e isso explica por que os Prim itivos Pais to freqentemente citam a tradio oral, ao invs da Palavra escrita. Outrossim, devemos lembrar que no havia mentes filosficas entre eles, dotadas de treinamento especial para inquirir pela verdade

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  • c nem da grande capacidade necessria para uma apresentao sistemtica. A despeito de sua comparativa pobreza, a obra dos Pais Apostlicos, entretanto, se reveste de considervel importncia, pois prestam testemunho canonicidade e integridade dos livros neotestamentrios, formando um elo doutrinrio entre o Novo Testamento e os escritos mais especulativos dos apologetas, os quais surgiram no sculo II d.C.

    Uma segunda caracterstica dos ensinos dos Pais Apostlicos sua falta de preciso. No Novo Testamento h vrios tipo de Kerugma (pregao) apostlica: a petrina, a paulina e a joanina. Os trs tipos concordam fundamentalmente entre si, embora representem nfase di ferentes da verdade. Ora, pode parecer surpreendemente que os Pais A | Kistlicos, apesar de mostrarem alguma preferncia pelo tipo joanino, com o qual estavam mais familiarizados, no se vincularam de modo definido a qualquer desses tipos. Todavia, vrias consideraes podem NtT oferecidas como explicao. Considervel raciocnio requerido pn rn d ist i ng u i r entre esses tipos. Aqueles primeiros Pais viveram perto demais dos apstolos para captarem os pontos distintivos dos seus prprios ensinos. Oulrossim, para eles o cristianismo no era, em primeiro lugar, um conhecimento que se deve adquirir, e sim o plllieliilo ile li11ui liovii obedincia ao Senhor Deus. Mesmo estando wAtlMUlitH tio vnlor normativo das palavras de Jesus e da kerugma NIHMliSIlon, nflo loliliiriuii defnir as verdades da revelao, mas apenas MiU*hilMlli mi>< III/ tln seu riilrndimenlo. Finalmente, as condies (triiilu i m i que vl vl1111 influenciadas como eram pela filosofia pagptipiilin 'l.i rpm a e pela piedade paga e judaico-helnica no eram invomveis a uma compreenso ntida das diferenas caractersticas elitie a*, diversas modalidades da kerugma apostlica.

    .1. ('< )NTi : l)0 REAL DE SEUS ENSINAMENTOS

    I caso de observao comum que os escritos dos Pais Apostlicos eoiilem pouqussima substncia que seja doutrinariamente importante. Seus ensinos esto em harmonia geral com a verdade revelada naI *i i la vra de Deus, e com freqncia so vasados na pura linguagem das liseriluras; e exatamente por essa razo no se pode dizer que aumenta ii i ou a profundam nosso discernimento da verdade ou que lanam luz sobre os interrelacionamentos dos ensinos doutrinrios da Bblia. Testificam sobreum af comum em D eus como Criador e Governador< lo u n i verso, e em Jesus Cristo, o qual esteve ativo na criao e por toda a ve I ha dispensao, at haver, finalmente, aparecido em carne. Apesar de usarem a designao bblica de Deus como Pai, Filho e Esprito Santo, alm de falarem de Cristo como Deus e homem, eles no

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  • evidenciam ter conscincia dos problemas e das questes implcitas envolvidas. A obra de Cristo como Redentor no sempre exposta da mesma forma. s vezes Sua grande significao vista no fato que Ele, por Sua paixo e morte, libertou a humanidade do pecado e da morte; e noutras vezes, no fato relacionado, mas no correlacionado, que Ele revelou o Pai e ensinou a nova lei moral. Em alguns casos, a morte de Cristo apresentada como algo que ganhou para os homens a graa do arrependimento e que abriu o caminho para uma nova obedincia, e no tanto como a base da justificao do homem. Essa nfase moralista , talvez, o ponto mais fraco dos ensinamentos dos Pais Apostlicos. Relacionava-se ao moralismo existente no mundo pago da poca, que caracterizava o homem natural como tal, e tendia por servir aos interesses do legalismo. As ordenanas so expostas como meios mediante os quais as bnos da salvao so comunicadas aos homens. O batismo gera a nova vida e obtem o perdo de todos os pecados, ou dos pecados passados somente (Hermas e II Clemente); e a Ceia do Senhor o meio de transmitir aos homens a bendita imortalidade, ou seja, a vida eterna.

    O cristo se apossa de Deus pela f, a qual consiste de verdadeiro conhecimento de Deus, de confiana nEle e de auto-entrega a Ele. dito que o homem justificado pela f, mas no claramente entendida a relao entre a f e a justificao, entre a f e a nova vida. Com isso toma-se manifesta uma tendncia legalista anti-paulina. A f apenaso primeiro passo no caminho da vida, do qual caminho depende o desenvolvimento moral d indivduo. Todavia, recebido o perdo de pecados, no batismo, obtido pela f, em seguida o homem merece tal bno por suas boas obras, as quais se tomam, ento, num princpio secundrio e independente, paralelo f. O cristianismo muitas vezes apresentado como a nova lex, e o amor, que conduz a uma nova obedincia, toma o lugar principal. O que aparece em primeiro plano no a graa de Deus, e sim, s vezes, as boas obras.

    O crente apresentado como quem vive numa comunidade crist, a Igreja, a qual ainda se regozija na possesso dos dons carismticos, mas que tambm mostra crescente respeito pelos ofcios eclesisticos mencionados no Novo Testamento. Em alguns casos o bispo destacado como superior aos presbteros. Nesses escritos h um vvido sentimento do carter transitrio do mundo atual, bem como da glria eterna do mundo vindouro. Eles insinuam estar bem prximo o final de todas as coisas, e as descries do fim do mundo atual so derivadas da profecia do Velho Testamento. O reino de Deus tido como o bem supremo, e tambm como uma bno puramente futura. De acordo com alguns (Bamab, Hermas, Papias), sua forma final ser antecedida

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  • por um reino milenar. Entretanto, seja qual for a ateno dada ao milnio, h muito maior nfase sobre o julgamento futuro, quando o povo de Deus receber os galardes dos cus, e os mpios sero condenados perdio eterna.

    Perguntas para estudo posterior

    Como se explica o carter indefinido dos ensinos dos Pais A p o S t - licos? Em quais pontos esses ensinos so deficientes? Quais s e m e ii te s das doutrinas peculiares dos catolicismo romano j esto p re s e f lte s nesses escritos? Como se explica suas diferentes apresentaes da obra de Cristo? Em que pontos particulares surgem o moralismo cu o legalismo dos primeiros Pais? O que se pode dizer guisa de explpa- o desse fenmeno? Poderia ter sido motivado em qualquer sentido pelns afirmaes bblicas? Harnack estaria certo quando diz qtfe a ei'islolt)j>ia dos Pais A postlicos , em parte, a cristoltfgia iidopcionisla?

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  • 6

    PERVERSES DO EVANGELHO

    No segundo sculo a religio crist, como nova fora no mundo, a qual se revelou na organizao da Igreja, teve de lutar pela sua prpria existncia. Teve de defender-se de perigos externos e internos, de justificar sua existncia e de conservar sua pureza de doutrina diante de erros sutis. A prpria existncia da Igreja viu-se ameaada pelas perseguies do Estado. As primeiras perseguies foram de origem inteiramente judaica, devido a Igreja estar mormente confinada Palestina e que o governo romano, por algum tempo, considerava os seguidores de Cristo uma seita judaica, e portanto julgava a sua religio uma religio licita. Mas, ao tomar-se patente que o cristianismo reivindicava ter carter universal, pondo assim em perigo a religio oficial, e que os cristos quase todos desconsideravam os negcios do estado e se recusavam a participar do culto idlatra dos romanos especialmente do culto ao imperador ento o govemo romano lanou uma srie de perseguies que ameaaram a prpria existncia da Igreja. Ao mesmo tempo, o cristianismo sofreu muitssimo devido os ataques por escrito de algumas das mentes mais argutas da poca, como Luciano, Porfrio e Celso, homens de mentes filosficas, que lanaram suas invectivas contra a religio crist. Os argumentos deles so tpicos da oposio filosfica ao cristianismo atravs dos sculos, e com freqncia nos fazem lembrar de argumentos empregados pelos filsofos racionalistas e pela alta crtica da atualidade. Todavia, por grandes que fossem essas ameaas vindas de fora, havia perigos ainda maiores, que ameaavam internamente a Igreja. Estas ltimas consistiam de diferentes modalidades de perverso do evangelho.

    1. PERVERSES JUDAICAS

    Houve trs grupos de cristos judeus que revelaram tendncias judaizantes. Traos deles se acham at mesmo no Novo Testamento.

    (a) Os Nazarenos. Estes eram judeus cristos que haviam aceito as doutrinas da religio crist. Usavam somente o Evangelho de Mateus

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  • cm hebraico, mas, ao mesmo tempo, reputavam Paulo um autntico apstolo. Em distino a outras seitas judaicas eles criam na divindade e no nascimento virginal de Jesus. E apesar de se obrigarem na prtica a uma estrita observncia da lei, no exigiam isso da parte dos cristos gentios. Conforme diz Seeberg, Na realidade, foram cristos da raa judia, ao passo que os dois outros grupos foram apenas judeus cristos.

    (b) Os Ebionitas. Esta seita era formada, realmente, por continuadores dos oponentes judaizantes do apstolo Paulo, e era farisaica em sua natureza. Seus adeptos se recusavam a reconhecer o apostolado de Paulo, a quem reputavam apstata da lei, alm de exigirem de todos os cristos que se submetessem ao rito da circunciso. Sua idia de Cristo cni similar de Cerinto, o que provavelmente se devia ao desejo que tinham de manter o monotesmo do Velho Testamento. Negavam tanto n divindade de Cristo como o Seu nascimento virginal. Na opinio ildes, Jesus Se. distinguia de outros somente por uma estrita observncia da U*i, lendo sido escolhido como Messias por causa de Sua piedade Irjtnl. Ter Se iu tornado cnscio de tal coisa por ocasio de Seu linllNino, qiiimdo recebeu o Esprito, o que O capacitou a realizar Sua Inifln, luto i't a obiii de um profeta e mestre. Relutavam em pensar nEle(H)tttU NlgUttm Nlljello ao sol imenlo e morte.

    lNley.mpo representava um tipo de cristianismo fOililli1!! ii&hImiiIiiiIo poi rspeeulaoes teosicas e ascetismo estrito. Nrtm il riiuiiie, 'ieii'i ineiiiliM imc jeilarem o nascimento virginal de Cristo e til/ciem lei l'.le nascido como outros homens, eles julgaram-nO oNpliitooii anjo superior. ( 'onsideraram-nO encarnao do Ado ideal, iilin de eliama IO o mais elevado arcanjo. A circunciso e o sbado emiti grandemente honrados; havia repetidas lavagens, sendo-lhes iilril)iiidos poderes mgicos de purificao e reconciliao; e a mgica e a astrologia eram praticadas entre eles. Tinham suas doutrinas M-eretas acerca da observncia da lei. Esse movimento foi, provavelmente, tentativa de ganhar o reconhecimento geral para um cristianis- 111 o j 11 d i i i c o, a da ptando-o s tendncias sincretistas da poca. Com toda ii probabi lidade se referem a essas heresias a Epstola aos Colossenses e ii I Timteo.

    2. 1*1 WVERSES GENTLICAS: GNOSIS GENTLICO-CRIST

    No gnosticismo deparamos com uma segunda perverso do cristianismo. Em comum com as seitas judaicas, concebia como uma oposio as relaes entre o Velho Testamento e o Novo e suas respectivas religies. Sua forma original estava arraigada no judasmo,

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  • mas por fim evoluiu em estranha mescla de elementos judaicos, de doutrinas crists e de idias pags especulativas.

    (a) Origem do gnosticismo. H indicaes, no Novo Testamento, de que o gnosticismo j aparecera em forma incipiente nos dias dos apstolos. Havia, j naqueles dias, mestres herticos que derivavam seu impulso imediato do judasmo, ocupando-se em especulaes acerca de anjos e espritos, e que se caracterizavam por um falso dualismo, que redundava em ascetismo, por um lado,e libertinagem imoral, por outro lado. Esses espiritualizavam a ressurreio e faziam da esperana da Igreja o objeto de deriso. Ver Col. 2:18 ss.; I Tim. 1:3- 7; 4:1-3; 6:3ss; 2 Tim. 2:14-18; Tito 1:10-16; 2 Ped. 2:1-4; Jud. 4,16 e Apoc 2 :6 ,1 5 ,20ss. Tambm havia tendncia em prol das especulaes religiosas filosficas, que se destacavam sobretudo na heresia de Cerinto, o qual fazia distino entre um Jesus humano e um Cristo, que seria um esprito superior que descera sobre ele quando de Seu batismo e que t-lO-ia deixado antes da crucificao. Joo combate indiretamente essa heresia nos seus escritos. Ver Joo 1:14; 20:31; 1 Joo2:22; 4:2,15; 5:1, 5-6 e 2 Joo 7.

    Desde a primeira parte do sculo II d.C., esses erros assumiram uma forma mais desenvolvida, tendo sido publicamente proclamados, e de pronto tiveram notvel divulgao. Isso s podemos entender luz do sincretismo geral existente nesse perodo. Havia um generalizado desassossego religioso e uma surpreendente avidez por absorver todas as idias religiosas possveis, generalizando-as e harmonizando-as entre si. As religies do Ocidente no mais satisfaziam, e as seitas orientais, diligentemente propagados por pregadores itinerantes, foram abraados avidamente. O seu alvo era satisfazer a sede por um conhecimento mais profundo, pela comunho mstica com Deus e pela esperana de garantir uma vereda segura para a alma, em sua subida a mundo superior por ocasio da morte. No para admirar que essa tendncia se tenha juntado ao cristianismo, que parecia prestar-se mesma tarefa, e o que fazia com notvel sucesso. Outrossim, encontrava apoio na reivindicao crist de ser a religio absoluta e universal. Pode ser dito que o gnosticismo equivocadamente buscava elevar o cristianismo sua legtima posio de religio universal, adaptando-o s necessidades de todos e interpretando-o em consonncia com a sabedoria do mundo.

    (b) Carter essencial do gnosticismo. Antes de tudo, o gnosticismo era um movimento especulador. Esse elemento especulativo, estava sempre em primeiro plano. O prprio nome, gnostikoi, adotado por alguns de seus adeptos, indica que se arrogavam possuir um conhecimento mais profundo das coisas divinas do que aquilo que se poderia

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  • obter entre os crentes comuns. Os gnsticos se envolveram com alguns dos mais profundos problemas da filosofia e da religio, porm aproximavam-se dos mesmos de modo errado e sugeriam solues totalmente divergentes das verdades reveladas por Deus. Seus dois maiores problemas eram o do ser absoluto e o da origem do mal, problemas esses derivados do pensamento religioso pago, e no do cristianismo. Desenvolveram uma fantstica cosmogonia, fazendo largos emprstimos das especulaes orientais, e com o que tentavam combinar as verdades do evangelho. Indubitvelmente eram srios nessa tentativa de tomar o evangelho aceitvel para as classes educadas e cultas de seus dias.

    Apesar de seu carter especulativo, o gnosticismo tambm foi um movimento popular. A fim de influenciar as massas, precisava ser algo mais do que mera especulao. Portanto, houve tentativas, em associaes especiais, para popularizar a teoria csmica geral, atravs de ritos simblicos, de cerimnicas msticas e do ensino de frmulas mgicas. A iniciao nessas associaes constava de frmulas e de ritos estranhos que desempenhavam importante papel. Essas coisas eram tidas como proteo supostamente necessria e eficaz contra o poder do ptu mlo e da morte, alm de serem meios de acesso bem-aventurana tio mundo por vir, Nn realidade,a introduo delas foi uma tentativa de lINtlNloiiiuir o rvim yflho numa filosofia religiosa e numa sabedoria mlnllrii No entanto, o gnosticismo reivindicava ser cristo em seui /iiiilri Srmpn- i|nc era possvel, ele apelava para as declaraes alej.',oi leas de Jesus, e para uma tradio secreta, assim chamada, que teria sido transmitida desde os tempos dos apstolos. Em uitos acolhiam seus ensinamentos como se fossem genunas verdades crists.

    O gnosticismo tambm era um movimento sincretista, dentro da esfera do cristianismo. Continua sendo debatido se os gnsticos eram cristos em qualquer sentido do termo. Segundo Seeberg afirma, o f>noslocismo era pago, e no cristo gentlico. Ele propunha dar soluo aos problemas que se originaram no pensamento religioso do inundo pago, e meramente dava s suas discusses um colorido um tanto cristo. Aparentemente dava grande valor a Jesus Cristo, tom ando O um ponto decisivo na histria humana, um mestre de verdade absoluta. Ham ackcham a isso d ehelenizao aguda do cristianismo, e apoda os gnsticos de primeiros telogos cristos. O professor Walther mais correto ao dizer que o gnosticismo o "... furto de alguns trapos cristos para cobrir a nudez do paganismo. Isso corresponde descrio de Seeberg, quando se refere ao gnosticismo como uma etnicizao do cristianismo.

    (c) Ensinos principais do gnosticismo. No podemos ventilar os

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  • vrios sistemas gnsticos, como os de Valentino e de Basilides, mas podemos apenas indicar de passagem os ensinos gnsticos em geral. Um trao dualista percorre o sistema todo e se manifesta na posio que diz haver dois princpios originais ou deuses, que se oporiam um ao outro como superior e inferior, ou mesmo como bom e mau. O deus supremo ou bom um abismo insondvel. Ele intercala entre si mesmo e as criaturas finitas uma longa cadeia de aeons, seres intermedirios, emanaes do divino que em seu conjunto constituem a pleroma ou plenitude da essncia divina. Somente atravs desses seres intermedirios que esse deus mais alto poderia entrar em vrias relaes com os seres criados. O mundo no foi criado pelo deus bom, mas provavelmente foi o resultado de uma queda no pleroma, sendo obra de uma divindade subordinada, talvez hostil. Esse deus subordinado se chama Demiurgo, sendo identificado com o Deus do Velho Testamento, descrito como um ser inferior, limitado, cheio de paixes e vingativo. contrastado com o Deus supremo, fonte da bondade, da virtude e da verdade, o qual Se revelou em Cristo.

    O mundo da matria, por ser produto de um deus inferior, talvez mau, essencialmente mau. Encontram-se no mesmo, porm, remanescentes do mundo-esprito, a saber, a alma humana, uma fagulha de luz vinda do mundo superior de pureza que, de modo inexplicvel, viu- se enredado na matria m. Sua libertao s pode ser obtida mediante alguma interveno do deus bom. Um meio de livramento foi provido pelo envio de um emissrio especial do reino da luz a este mundo de trevas. No gnosticismo cristo , esse emissrio regularmente identificado com Cristo. Ele variegadamente representado, ou como um ser celestial que apareceu em corpo fantasmagrico, ou como um ser terrestre, com que um poder ou esprito superior se associou temporariamente. J que a matria m em si mesma, esse esprito superior no podia ter um corpo humano ordinrio.

    A participao na redeno, ou vitria sobre o mundo, s foi obtida atravs dos ritos secretos da associaes gnsticas. A iniciao nos mistrios de casamento com Cristo, de um peculiar batismo, de nomes mgicos e de uma uno especial, mediante a qual foi obtido o conhecimento secreto do Ser, tomou-se a vereda da redeno. A essa altura o gnosticismo se fez mais e mais um sistema de mistrios religiosos. Os homens so divididos em trs classes: os pneumticos, que constituem a elite da Igreja, os psquicos , que constituem os membros comuns da Igreja, e os hlicos, ou gentios. S a primeira dessas classes relamente capaz de obter o conhecimento superior (epignosis), conseguindo assim uma mais elevada bem-aventurana. A segunda classe, por sua vez, pode ser salva pela f e pelas obras,

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  • entretanto s pode obter uma bem-aventurana inferior. Os da terceira classe esto irremediavelmente perdidos.

    A tica ou filosofia moral que acompanhava essas idias acerca da redeno, era dominada por uma falsa estimativa da sensualidade, resultando ou em rgida abstinncia asctica ou em vil camalidade, gerada da certeza que nada realmente poderia atrapalhar os favorecidos pelo cu. Por um lado havia ascetismo e, por outro lado, libertinagem. A escatologia sustentada pela Igreja no tinha lugar nesse sistema. A doutrina da ressurreio dos mortos no era reconhecida. Quando aii Ima finalmente fosse libertada da matria, retomaria ao plerom a, e isso seria o fim.

    (d) Significao histrica do gnosticismo. O prprio gnosticismo, f< >rm id vel inimigo da verdade que ele foi, no pde entravar a marcha (le n va no do cristianismo. De fato, muitos foram arrastados, por algum lempo, pelas suas ousadas especulaes ou pelos seus ritos msticos, mas a grande maioria dos crentes no foi enganada pelas suas fants-I icas simulaes ou por suas atrativas promessas de felicidade secreta. Realmente, o gnosticismo foi de pouca durao. Como meteoro, iluminou o finnamenlo por um instante, e subitamente desapareceu. l'ol vencido pelas refulaes diretas dos Pais da Igreja, pela preparao n ulruulaAo de breves declaraes dos fatos fundamentais da religio 1'HhIR (ivhiiin de l't4), e pela mais racional interpretao do Novo 'l'eltimenlo, rum a limilaao do seu cnon, com excluso de todos os litlrioNeviingellioN, atose epistolas que ento circulavam. No obstante, mio deixou de imprimir uma duradoura impresso sobre a Igreja. Algumas de suas peculiaridades foram absorvidas pela Igreja, e no decorrer do lempo vieram a dar fruto na igreja catlica romana, com suas peculiares idias sobre os sacramentos, sua filosofia de um Deus eseuiulido, que s pode ser abordado mediante intermedirios (santos, anjusuu Maria), sua dmsacTos homens em ordens superior e inferior, e sua nfase sabre o ascetismo.

    A Igreja tambm derivou proveito real do aparecimento do movimento gnstico, porm s de modo indireto. Aprendeu a determinar claramente os limites da revelao divina e as relaes entre Velho e Novo Testamento. Outrossim, tomou-se agudamente consciente da necessidade de traar breves declaraes da verdade, baseadas em frmulas batismais correntes, que poderiam servir como padres de interpretao (regras de f). Tambm houve um avano doutrinrio muito evidente. Pela primeira vez o cristianismo foi concebido como uma doutrina e como um mistrio . Foi frisado o elemento intelectual da religio crist, e isso marcou o real ponto de partida do desenvolvimento doutrinrio. A idia crist sobre Deus foi salva das

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  • especulaes mitolgicas dos gnsticos. A Igreja entrou na posse consciente da verdade de que Deus o Ser Supremo, Criador e Sustentador do universo, o mesmo no Velho e no Novo Testamentos. Foi posta de lado a doutrina do Demiurgo e sua criadora atividade, e foi ultrapassado o dualismo dos gnsticos, que tomava a matria essencialmente m. Em contraposio tendncia gnstica de considerar Jesus Cristo meramente como um dos aeons, o Seu carter inigualvel como Filho de Deus foi enfatizado, ao mesmo tempo que Sua autntica humanidade era defendida contra todas as formas de negaes docticas. Os grandes fatos de Sua vida, o Seu nascimento virginal, milagres, sofrimentos, morte e ressurreio, foram todos conservados e postos em luz mais clara. Alm disso, a doutrina da redeno por meio da obra expiatria de Cristo foi posta em primeiro plano, em confronto com as fantasias especulativas dos gnsticos; e a aceitao universal do evangelho de Jesus Cristo pelos homens foi salientada em resposta ao exclusivismo e orgulho ds gnsticos.

    Perguntas para estudo posterior

    Existem quaisquer traos dos nazerenos, ebionitas e elquesatas no Novo Testamento? Como se deriva do judasmo a negao ebionita da divindade de Cristo? O Novo Testamento contm quaisquer indicaes de um gnosticismo incipiente? Onde se acham elas? H elementos, no ensino do Novo Testamento, dos quais o gnosticismo poderia valer-se, certa ou erradamente? Quais as fontes usadas pelo gnosticismo? De onde surgiu o carter anti-judaico do movimento, em sua forma final? Por que a sua cristologia chamada doctica? Qual mtodo de interpretao os gnsticos adotaram, ao fundamentarem seu sistema sobre as Escrituras? Que distino faziam os gnsticos entre pistis e gnostis? So de natureza tica as distines gnsticas entre o mundo eo reino de Deus, entre o bem e o mal? Existe algo noutros sistemas que corresponda doutrina gnstica de um Deus inabordvel e de seres intermedirios? O que deu ao gnosticismo sua temporria popularidade, suas especulaes ou sua religio esotrica? Por que dificilmente se justifica o dito de Ham ack de que foram os gnsticos os primeiros telogos cristos?

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    MOVIMENTOS REFORMADORES NA IGREJA

    I . M RCION E SEU MOVIM ENTO DE REFORMA

    (a) Seu carter epropsito. M rcion era nativo do Ponto (Sinope) c foi expulso de casa, aparentemente, por motivo de adultrio, tendo ido para roma cerca de 139 d.C. -nos apresentado como homem de zelo profundo e de grande habilidade, que labutava no esprito de um iv formador. A princpio procurou sujeitar a Igreja sua maneira de pensar, mas no conseguindo xito em sua obra reformista, sentiu-se constrangido a organizar seus seguidores numa igreja separada, buscando aceitao universal para seus pontos de vista atravs de ativa propagando. Com freqncia tem sido classificado como gnstico, contudo a preciso dessa classificao atualmente posta em dvida.I ,oofs diz que a declarao de Hahn, M rcion perperam gnosticus vocatur, vai ao mago da questo, porquanto ele tinha um propsito Nolcriolgico, e no cosmolgico; a f, no o conhecimento, ocupava lugar de destaque em seu sistema; ele no desenvolveu mitos orientais c* nem problemas filosficos gregos, alm de excluir as interpretaes alegricas. Isso concorda em linhas gerais com a afirmativa deI liirnack, o qual diz que no se deveria classificar M rcion junto com pnsticos como Basilides e Valentino, dando os seguintes motivos para sua opinio: (1) No era guiado por interesses metafsicos ou apologticos, e sim por interesses puramente soteriolgicos, (2) desse m< ulo, toda a sua nfase recaa sobre o evangelho puro e sobre a f (no Nobre o conhecimento), (3) no empregava a filosofia pelo menos c< >mo um princpio principal em sua concepo do cristianismo, (4) nno procurou fundar escolas de filsofos, mas apenas reformar, em consonncia com o autntico evangelho paulino, as igrejas cujo cristianismo ele cria ser legalista (judaizante), as quais, segundo pensava ele. negavam a graa livre. Fracassando nisso, formou uma igreja s mia . Seeberg tambm destaca M rcion para estudo em separado.

    (I>) Seus ensinamentos principais. Para Mrcion, o grande proble- 49 -

  • ma era como relacionar entre si o Velho Testamento e o Novo. Descobriu a chave do problema na Epst