Monteiro lobato o saci

  • View
    1.142

  • Download
    0

Embed Size (px)

DESCRIPTION

O SACI DE MONTEIRO LOBATO

Transcript

  • 1. 3 http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros http://groups.google.com/group/digitalsource

2. 4 Monteiro Lobato _________________________________________________________________ O Saci ___________________________________________________ editora brasiliense 3. 5 Copyright by herdeiros de Monteiro Lobato Nenhuma parte desta publicao pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrnicos, fotocopiada, reproduzida por meios mecnicos ou outros quaisquer sem autorizao prvia da editora. 56 edio, 1994 17 reimpresso, 2005 Lay-out de capa: Jacob Levitinas Ilustraes de capa e miolo: Manoel Victor Filho Dados Internacionais de Catalogao na publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lobato, Monteiro, 1882-1948. O Saci / Monteiro Lobato; [ilustraes de capa e miolo Manoel Victor filhos]. So Paulo : Brasiliense, 2005. Stio do Picapau Amarelo). 17 reimpresso da 56 Ed. De 1994. ISBN 85-11-19018-X 1. Literatura infanto-juvenil I. Victor Filho, Manoel. II. Ttulo. III Srie. 05-6607 CDD- 028.5 ndices para catlogo sistemtico: 1. Literatura infantil 028.5 2. Literatura infanto-juvenil 028.5 Editora brasiliense s.a. Rua Airi, 22 Tatuap CEP 03310-010 So Paulo SP Fone/Fax: (0xx11) 6198-1488 WWW.editorabrasiliense.com.br Livraria brasiliense s.a. Rua Emlia Marengo, 216 Tatuap CEP 03336-000 So Paulo - /SP Fone/Fax: (0xx11) 6675-0188 livrariasbrasiliense@editorabrasiliense.com.br 4. 6 NDICE ___________________________________________________ I. EM FRIAS .................................................. 07 II. O STIO DE DONA BENTA ........................... 09 III. MEDO DO SACI ........................................... 16 IV. TIO BARNAB ............................................. 18 V. PEDRINHO PEGA UM SACI ......................... 21 VI. A MODORRA ............................................... 25 VII. A SACIZADA ................................................ 28 VIII. A ONA ....................................................... 30 IX. A SUCURI .................................................... 32 X. A FLORESTA ................................................ 34 XI. DISCUSSO ................................................. 36 XII. O JANTAR .................................................... 38 XIII. NOVAS DISCUSSES ................................... 40 XIV. O MEDO........................................................ 44 XV. O BOITAT ................................................... 48 XVI. O NEGRINHO................................................ 49 XVII. MEIA-NOITE ................................................ 51 XVIII. SADA DOS SACIS ....................................... 53 XIX. LOBISOMEM ................................................ 54 XX. A MULA SEM-CABEA ................................. 55 XXI. MS NOTCIAS ............................................. 56 XXII. CHEGAM AO STIO ....................................... 60 XXIII. A CUCA ......................................................... 64 XXIV. O NOVELO DE CIPS ................................... 67 XXV. O PINGO DGUA .......................................... 69 XXVI. A IARA .......................................................... 71 XXVII. NA CAVERNA DA CUCA ................................ 74 XXVIII. DESENCANTAMENTO .................................. 76 5. 7 O SACI Monteiro Lobato ___________________________________________________ Captulo I Em frias Quando naquela tarde Pedrinho voltou da escola e disse Dona Tonica que as frias iam comear dali uma semana, a boa senhora perguntou: E onde quer passar as frias deste ano, meu filho? O menino riu-se. Que pergunta, mame! Pois onde mais, se no no stio de vov. Pedrinho no podia compreender frias passadas em outro lugar que no fosse no Stio do Picapau Amarelo, em companhia de Narizinho, do Marqus de Rabic, do Visconde de Sabugosa e da Emlia. E tinha de ser assim mesmo, porque Dona Benta era a melhor das vovs; Narizinho, a mais galante das primas; Emlia, a mais maluquinha de todas as bonecas; o Marqus de Rabic, o mais rabic de todos os marqueses; e o Visconde de Sabugosa, o mais "cmodo" de todos os viscondes. E havia ainda tia Nastcia, a melhor quituteira deste e de todos os mundos que existem. Quem comia uma vez os seus bolinhos de polvilho, no podia nem sequer sentir o cheiro de bolos feitos por outras cozinheiras. Pedrinho tinha recebido carta de sua prima, dizendo: "Nosso grupo vai este ano completar sculo e meio de idade e preciso que voc no deixe de vir pelas frias a fim de comemorarmos o grau de acontecimento." 6. 8 Esse sculo e meio de idade era contado assim Dona Benta, 64 anos; tia Nastcia, 66; Narizinho; 8; Pedrinho, 9. Emlia, o Marqus e o Visconde, l cada um. Ora, 64 mais 66 mais 8 mais 9 mais 1 mais l mais l, fazem 150 anos, ou seja, um sculo e meio. Logo que recebeu essa carta, Pedrinho fez a conta num papel para ver se a pilhava em erro: mas no pilhou. E uma danada aquela Narizinho! disse ele. No h meio de errar em contas. 7. 9 Captulo II O stio de Dona Benta O stio de Dona Benta ficava num lugar muito bonito. A casa era das antigas, de cmodos espaosos e frescos. Havia o quarto de Dona Benta, o maior de todos, e junto o de Narizinho, que morava com sua av. Havia ainda o "quarto de Pedrinho", que l passava as frias todos os anos; e o da tia Nastcia, a cozinheira e o faz-tudo da casa. Emlia e o Visconde no tinham quartos; moravam num cantinho do escritrio, onde ficavam as trs estantes de livros e a mesa de estudo da menina. A sala de jantar era bem espaosa, com janelas dando para o jardim, depois vinha a copa e a cozinha. E sala de visitas? Tinha? Como no? Uma sala de visitas com piano, sof de cabina, de palhinha to bem esticada que "cantava" quando Pedrinho batia-lhe tapas. Duas poltronas do mesmo estilo e seis cadeiras. A mesa do centro era de mrmore e ps tambm de cabina. Encostadas s paredes havia duas meias mesas tambm de mrmore, cheias de enfeites: trs casais de is vestidos, vrios caramujos e estrelas-do-mar, duas redomas com velas dentro, tudo colocado sobre os "pertences" de miangas feitos por Narizinho. Hoje ningum mais sabe o que isso. Pertences eram umas rodelas de croch que havia em todas as casas, para botar bibels em cima; para o lavatrio de Dona Benta; Narizinho fizera pertences de croch; e para a sala de visitas fizera aqueles de mianga de vrias cores; da bem miudinha. Antes da sala de visitas havia a sala de espera, com cho de grandes ladrilhos quadrados; "cor de chita cor-de- rosa desbotada". A sala de espera abria para a varanda. Que varanda gostosa! Cercada dum gradil de madeira, muito singelo, pintado de azul-claro. Da varanda descia-se para o terreiro por uma escadinha de seis degraus. Nas frias do ano anterior Pedrinho havia plantado em cada canto da varanda um p de "cortina japonesa", uma trepadeira que d uns fios avermelhados da grossura dum barbante, que depois ficam amarelos e descem at quase ao cho, formando uma verdadeira cortina viva. Aquela varanda estava se 8. 10 transformando em jardim, tantas eram as orqudeas que o menino pendurara l os vasos de avenca da mida que ele foi colocando junto grade. O jardim ficava nos fundos da sala de jantar, um verdadeiro amor de jardim, s de plantas antigas e fora da moda. Flores do tempo da mocidade de Dona Benta; esporinhas, damas-entre-verdes, suspiros, orelhas-de- macaco, dois ps de jasmim-do-cabo, e outro, muito velho, de jasmim-manga. Plantado na calada e a subir pela parede, o velhssimo p de flor-de-cra, planta que os modernos j no plantam porque custa muito a crescer. At cravo-de-defunto havia l, flor com que Narizinho se implicava por ter "cheiro de cemitrio". Bem no centro do jardim havia um tanque redondo com uma cegonha de loua, toda esverdeada de limo, a esguichar gua pelo bico. Mas a cegonha j estava sem cabea, em conseqncia das pelotadas do bodoque de Pedrinho. E um velho regador verde morava perto do tanque, porque era com a gua do tanque que tia Nastcia regava as plantas no tempo da seca. E o pomar? O pomar ficava nos fundos da casa, depois do "quintal da cozinha", onde havia um galinheiro, um tanque de lavar roupa e o puxado da lenha. O poo velho fora fechado depois que Dona Benta mandou encanar a gua do morro. Passado o quintal vinha o pomar aquela delcia de pomar! Por que delcia? Porque as rvores eram muito velhas, e rvore quanto mais velha melhor para a beleza e a frescura da sombra. rvore nova pode ser muito boa para dar frutas bonitas, baixinhas e fceis de apanhar. Mas para a beleza no h como uma rvore bem velha, bem craquenta, com os galhos revestidos de musgos, liquens e parasitas. Certas rvores do pomar tinham donos. Havia a clebre pitangueira da Emlia, as trs jabuticabeiras de Pedrinho, a mangueira de manga- espada de Narizinho e os ps de mamo de tia Nastcia. At o Visconde tinha sua rvore um pezinho de rom muito feio e raqutico. O resto das rvores no eram de ningum eram de todos. E quantas! Cambucazeiros, duas jaqueiras, os ps de cabeluda e grumixama, os trs ps de sapotis e aquele de fruta-do-conde que "no ia por diante." 9. 11 Era to antigo aquele pomar que os vizinhos at caoavam. Viviam dizendo: "O pomar de Dona Benta est to velho que qualquer dia se pe a caducar. As jaqueiras comeam a dar manga e as mangueiras a dar laranjas." Mas Dona Benta no fazia caso. No admitia que se cortasse uma s rvore nem o pobre p de fruta-do-conde encarangado. Dizia que cada uma delas lembrava qualquer coisa da sua meninice ou mocidade. Este p de laranja-baiana costumava dizer foi o primeiro que tivemos aqui, e dele saram os enxertos dos outros. Naquele tempo laranja-baiana era uma grande novidade. A muda foi presente do defunto Z das Bichas, um portugus muito trabalhador que morava numa chcara perto da vila. Impossvel haver no mundo lugar mais sossegado e fresco, e mais cheio de passarinhos, abelhas e borboletas. Como Dona Benta nunca admitiu por ali nenhum menino de estilingue, a passarinhada se sentia vontade e fazia seus ninhos como