of 91 /91
ETNOLOGIA BRASILEIRA: ROTAÇÃO DE PERSPECTIVA Eduardo Viveiros de Castro Museu Nacional — UFRJ ideologia da etnologia brasileira O objetivo do projeto ‘As Ciências Sociais no Brasil: tendências e perspectivas’ não é uma avaliação institucional das ciências sociais brasileiras, e sim um balanço teórico. Ao enquadrar a discussão em termos de etnologia (institucionalmente) brasileira, porém, ele suscita por força questões referentes às particularidades da disciplina tal como praticada no país, sua dependência de paradigmas formulados no exterior e outros assuntos conexos, que exigem um tratamento diferente de um simples ‘estado da arte’. O que se entende por ‘etnologia brasileira’? Esta pergunta não se refere aqui ao recorte empírico convencionado, mas define o objeto mesmo do presente artigo, que é a idéia de uma etnologia brasileira. Para responder a ela, será necessário tecer algumas considerações sobre a natureza e a qualidade da produção etnológica nacional; não se trata, porém, de apreciar substantivamente a contribuição dos estudos sobre os povos indígenas no Brasil (ou mais precisamente, na América do Sul) à teoria antropológica. 1 Não se trata, tampouco, de uma sociologia do campo intelectual, ou de uma antropologia da antropologia. Estes modos de análise exigem talentos (e gostos) que me faltam, e caberiam melhor a partes menos interessadas que eu. A embocadura escolhida é de outra ordem, algo como uma ‘epistemologia política’ da etnologia feita no país. Pois a idéia de uma etnologia brasileira está na origem de uma ideologia da etnologia brasileira — uma ideologia brasileira da etnologia — cujas origens e implicações merecem uma discussão. Estarei aproveitando esta ocasião, portanto, para tomar parte e partido em um debate que polarizou grandes extensões do meio etnológico nos últimos trinta anos. A 1 Algo que já fiz, para aspectos específicos da produção na área, em publicações anteriores: Viveiros de Castro 1992a, 1993a, 1993b, 1995, 1996a.

EVC Etnologia

  • Author
    fcastro

  • View
    270

  • Download
    26

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Eduardo Viveiros de Castro_Etnologia Brasileira

Text of EVC Etnologia

uma rotao de perspectiva: territrios e parentescos da etnologia no Brasil (197095)

O mal-estar da cultura

6

etnologia brasileira: rotao de perspectiva

Eduardo Viveiros de Castro

Museu Nacional UFRJideologia da etnologia brasileira

O objetivo do projeto As Cincias Sociais no Brasil: tendncias e perspectivas no uma avaliao institucional das cincias sociais brasileiras, e sim um balano terico. Ao enquadrar a discusso em termos de etnologia (institucionalmente) brasileira, porm, ele suscita por fora questes referentes s particularidades da disciplina tal como praticada no pas, sua dependncia de paradigmas formulados no exterior e outros assuntos conexos, que exigem um tratamento diferente de um simples estado da arte.

O que se entende por etnologia brasileira? Esta pergunta no se refere aqui ao recorte emprico convencionado, mas define o objeto mesmo do presente artigo, que a idia de uma etnologia brasileira. Para responder a ela, ser necessrio tecer algumas consideraes sobre a natureza e a qualidade da produo etnolgica nacional; no se trata, porm, de apreciar substantivamente a contribuio dos estudos sobre os povos indgenas no Brasil (ou mais precisamente, na Amrica do Sul) teoria antropolgica. No se trata, tampouco, de uma sociologia do campo intelectual, ou de uma antropologia da antropologia. Estes modos de anlise exigem talentos (e gostos) que me faltam, e caberiam melhor a partes menos interessadas que eu. A embocadura escolhida de outra ordem, algo como uma epistemologia poltica da etnologia feita no pas. Pois a idia de uma etnologia brasileira est na origem de uma ideologia da etnologia brasileira uma ideologia brasileira da etnologia cujas origens e implicaes merecem uma discusso.

Estarei aproveitando esta ocasio, portanto, para tomar parte e partido em um debate que polarizou grandes extenses do meio etnolgico nos ltimos trinta anos. A despeito de ter perdido algo de sua pertinncia objetiva (ou talvez justamente por isso), esse debate no parece prximo de perder sua candncia poltica na academia nativa, ao contrrio do que eu acreditava e, no sem otimismo, previra (Viveiros de Castro 1992a, 1995, 1996a). Com efeito, um recente ataque etnologia americanista contempornea (Oliveira [F] 1998), onde se prope, entre outras teses avanadas, uma viagem de volta aos anos dourados da antropologia brasileira as dcadas de 50 e 60 , levou-me a concluir que, se o debate sobre a ethnology Brazilian style (Ramos 1990a) pode no oferecer mais muito interesse, continua entretanto a revelar certos interesses.

a grande diferena

O debate a que estou me referindo ope duas concepes do objeto da etnologia. Ele foi recentemente qualificado de ciso que evitamos abordar, na verdade um divisor de guas entre dois modos distintos de construir o conhecimento sobre as sociedades indgenas e o desenvolvimento social (A. Lima 1998: 263). Tal ciso ou divisor distinguiria duas grandes vertentes dos estudos antropolgicos sobre populaes indgenas, sempre mencionadas pelos comentadores e classificadores da produo intelectual, e s vezes rotuladas de etnologia clssica e etnologia do contato intertnico. Elas so assim caracterizadas pelo autor (loc.cit.):

Uma [a etnologia clssica] depurada de compromissos com a administrao pblica, voltada puramente para o desvendamento das dimenses internas da vida dos povos indgenas; outra [a escola do contato intertnico] descendente direta de preocupaes administrativas, via Darcy Ribeiro, Eduardo Galvo e Roberto Cardoso de Oliveira, em suas passagens pelo spi, na presena em instncias como o cnpi, voltada somente para o estudo das interaes com a sociedade nacional etc.

Lima hesita entre ver tal dicotomizao do campo como expresso de uma oposio terica real na verdade um divisor de guas entre dois modos distintos de construir o conhecimento ou como mera imagem (errnea, supe-se) profundamente arraigada no senso comum antropolgico brasileiro, opo adotada na passagem acima, de tom deliberada e equanimemente distanciado. O autor tem razo em hesitar, pois ela provavelmente ambas as coisas, e nenhuma delas. provvel tambm que tal percepo dualista renda mais em ambientes como o Museu Nacional ou a UnB do que na USP, por exemplo. No Museu Nacional das duas ltimas dcadas, o surgimento de uma linha sistemtica de pesquisa em etnologia clssica em paralelo cristalizao de uma variante fundamentalista da tradio do contato intertnico tornou tal distino especialmente sensvel, e mesmo mais acentuada com o correr dos anos.

Em benefcio dos improvveis leitores no-etnlogos (ou distrados) deste artigo, esclareo que sou uma das encarnaes atuais da etnologia clssica naquela instituio, e que por variante fundamentalista da outra tradio refiro-me ao trabalho de J. Pacheco de Oliveira e seus discpulos. Estou ciente de que esta variante no se reconhece mais nas teorias da situao colonial ou da frico intertnica, das quais, entretanto, afirmou-se recentemente caudatria (Oliveira [F] 1998: 56). Ela privilegia agora conceitos como etnicidade, inveno da tradio, territorializao etc., e reivindica auto-definies mais vagas e ambiciosas, como antropologia histrica (op.cit.: 69). Mas como a tal ttulo no faltam pretendentes de outras e muito diversas origens tericas, a maioria delas perfeitamente clssica, continuarei a me referir s variantes atuais daquela tradio pela expresso genrica teoria do contato, ou escola contatualista.

Seria certamente bairrismo pretender que a ciso que evitamos abordar possua a mesma pregnncia e salincia em escala nacional. Isto posto, o fato de ela se manifestar com mais vigor em certos contextos e perodos no a reduz a uma oposio puramente local e conjuntural; e o fato de ser ideolgica no a torna uma oposio ilusria. Resta saber o que a dicotomia exprime efetivamente, e quais as lies gerais que se podem extrair dela.

Note-se a grande diferena que existe no estudo de grupos indgenas quando se os concebe como situados no Brasil, ou quando se os compreende como parte do Brasil. Esta observao de Mariza Peirano (1992: 73) no indica apenas uma grande diferena entre as muitas presentes em nossa disciplina; ela revela, a meu juzo, a grande diferena que atravessa e organiza o campo de estudos indgenas, cortando, por assim dizer, a prpria noo de etnologia brasileira pelo meio: h os que ficam com o substantivo, e h os que ficam com o adjetivo.

A frmula de Peirano remete a seus fundamentos um dualismo que outros comentadores (e a prpria autora, em outros momentos) exprimiram de modo menos feliz, associando-o a polaridades classificatrias duvidosas: foco nas dimenses internas das sociedades indgenas vs. foco nos processos de contato intertnico, pesquisadores estrangeiros versus nacionais, etnologia clssica vs. etnologia engajada e outras oposies semelhantes. Durante boa parte do perodo em exame, a grande diferena identificada por Peirano foi ativamente projetada sobre (e portanto ocultada por) essas polaridades, no interesse da fabricao de uma imagem normativa da etnologia brasileira: politizada, comprometida com a luta indgena, preocupada com a construo da sociedade nacional, anti-colonialista, processualista, materialista, histrica, dialtica e outras tantas virtudes. Do outro lado estaria uma certa antropologia metropolitana e seus agentes nativos, mentalmente colonizados e portanto colonialistas, escravos de paradigmas suspeitos paradigmas essencialistas, naturalizantes, exotistas e mais uma enfiada de pecados poltico-epistemolgicos.

Vou contestar aquelas polaridades acionadas nas lutas de classificao acadmicas, argumentando que elas so equivocamente simplistas, ou esto objetivamente superadas, ou sempre foram meramente falsas. Isto no significa que recuso o dualismo que lhes subjacente: no s o reputo muito real, como penso ser ele uma estrutura de longa durao da antropologia brasileira. Vou reafirmar tal contraste, mas vou ao mesmo tempo defender uma inverso das atribuies de valor entre as duas etnologias. Uma vez que se retraam as oposies entre elas at a alternativa formulada por Peirano, fica mais claro o que est realmente em jogo.

rotao de perspectiva

A grande diferena, disse eu acima, remete a uma estrutura de longa durao no campo etnolgico. Com efeito, ela havia sido claramente percebida, mais de quarenta anos atrs, por um dos fundadores da etnologia clssica no Brasil (e que foi tambm um dos inspiradores da etnologia do contato). Florestan Fernandes, em um clebre artigo crtico, evocava as explicaes histrico-culturais ento em voga sobre a colonizao e indicava uma alternativa de grande importncia para a trajetria ulterior da disciplina:

A hiptese [de Gilberto Freyre] de que os fatores dinmicos do processo de colonizao e, por consequncia, do de destribalizao, se inscreviam na rbita de influncia e de ao dos brancos, seria a nica etnograficamente relevante? No seria necessrio estabelecer uma rotao de perspectiva, que permitisse encarar os mesmos processos do ngulo dos fatores dinmicos que operavam a partir das instituies e organizaes sociais indgenas? ([1956-57] 1975: 128; grifoa meus).

A pertinncia destas perguntas vai alm do desafio histrico que Florestan identificava: compreender a dinmica de implantao do sistema colonial nos sculos iniciais da invaso europia mesmo porque tais processos no esto esgotados e, sob alguns aspectos (a destribalizao), no parecem caminhar na direo ento vista como inexorvel. Vai tambm alm do desafio intelectual com que Florestan se identificava: construir uma etnologia universitria relativamente autnoma frente s expectativas ideolgicas das camadas dirigentes mesmo porque tal autonomia ser sempre, e por vezes muito, relativa. As perguntas so pertinentes porque elas indicam um dilema aparentemente consubstancial a uma disciplina cuja condio de possibilidade o fato da articulao histrica entre ndios e brancos. Ou bem a etnologia, consciente de que tal articulao um processo de dominao colonial, define seu objeto como constitudo histrica, poltica e teoricamente pela dominao, e portanto sua tarefa como sendo a de cartografar criticamente tal constituio (com os olhos em uma futura reconstituio menos desfavorvel aos ndios); ou bem, buscando a perspectiva das instituies e organizaes sociais indgenas, ela conclui que, longe de estarem unilateralmente englobadas pela situao colonial, essas estruturas tomam tal situao como um contexto de efetuao entre outros, e assim a extrapolam de mltiplas formas, que cabe etnologia compreender (de modo a valorizar as possibilidades indgenas de colonizao do colonialismo).

Mas trata-se realmente de um dilema etnolgico? Ou ele no est, na verdade, indicando a grande diferena entre o ponto de vista da antropologia e uma abordagem alheia ao mandato epistemolgico desta disciplina? Pois a escolha, em ltima anlise, entre uma perspectiva centrada no plo colonial, uma sociologia do Brasil indgena (Cardoso de Oliveira 1978) que toma os ndios como parte do Brasil, na frmula de Peirano, e uma perspectiva centrada no plo nativo, voltada para a construo de uma verdadeira sociologia indgena, isto uma antropologia dos ndios situados no Brasil. A alternativa clara: ou se tomam os povos indgenas como criaturas do olhar objetivante do estado nacional, duplicando-se na teoria a assimetria poltica entre os dois plos; ou se busca determinar a atividade propriamente criadora desses povos na constituio do mundo dos brancos como um dos componentes de seu prprio mundo vivido, isto , como matria-prima histrica para a cultura culturante dos coletivos indgenas. A segunda opo parece-me a nica opo se o que se deseja fazer antropologia indgena. bvio que se podem estudar os ndios sob outras perspectivas; a antropologia no tem o monoplio desta frao da humanidade ou de qualquer outra. O problema s comea quando se pretende substituir globalmente a abordagem distintiva e a agenda variada da etnologia por uma perspectiva que toma o contato intertnico como pedra filosofal da disciplina.

rea de frico interetnlogica

A alternativa clara para mim; mas esta no , com certeza, a opinio dominante. Ao contrrio, estima-se que a principal caracterstica da antropologia brasileira , justamente, sua preocupao com a sociedade nacional (Crpeau 1995: 14243, que avaliza a observao com uma longa lista de autoridades). No caso dos estudos indgenas, isto significa que nossa antropologia teria se distinguido por no dissociar a investigao dos grupos tribais do contexto nacional em que esto inseridos (Cardoso de Oliveira 1988: 154, in Crpeau op.cit: 143). Estamos falando, claro, da teoria do contato intertnico, que j se disse ser the trademark of Brazilian ethnology (Ramos 1990a: 21), e mesmo a contribuio terica mais original trazida at hoje pela Antropologia brasileira (Zarur 1976: 6; ver tambm Peirano 1998: 11819).

Mas entre ser a principal caracterstica e ser a contribuio terica mais original vai uma certa distncia. O que caracteristicamente brasileiro na antropologia brasileira pode no ser o que antropologicamente mais original, ou sequer mais caracteristicamente antropolgico. A frase de Crpeau, sobre a antropologia brasileira em geral, neutra quanto a isso; j a de Cardoso quer nitidamente marcar um ponto a favor de nossa etnologia. Note-se, entretanto, a exata formulao da segunda: os grupos tribais esto inseridos no contexto nacional. Isto , eles so parte do contexto da sociedade nacional, inseridos (encapsulados, diro outros) como esto em um contexto que os engloba e explica. Em troca, para a etnologia que concebe os ndios como situados no Brasil, se algo parte de qualquer coisa, s pode ser o Brasil que parte das sociedades indgenas: parte, justamente, do contexto delas, isto , de sua situao histrica. Quando se estuda uma sociedade indgena, com efeito, preciso no se deixar impressionar pelas evidncias da presena da sociedade colonizadora, mas apreend-la a partir do contexto indgena em que ela est inserida e que a determina como tal.

A concepo que, no justo dizer de Peirano, compreende os ndios como parte parte, ela prpria, antes de uma sociologia poltica (no limite, administrativa) do Brasil que da antropologia indgena. A extensa linha de investigao derivada desta concepo trouxe aportes preciosos para o entendimento dos processos de sujeio das sociedades indgenas pela sociedade invasora o que aumentou, em particular, nossa compreenso desta ltima, enriquecendo a historiografia e a sociologia nacionais. Por outro lado, suas contribuies ao conhecimento antropolgico das sociedades indgenas situadas no pas estiveram e esto, a meu juzo, algo aqum do que sua importncia ideolgica na academia nacional permitiria esperar. Isto especialmente problemtico em vista da aspirao dessa etnologia caracterstica, manifestada por alguns de seus representantes atuais, a se constituir em abordagem exclusiva e excludente, a nica epistemolgica e politicamente correta, que viria desqualificar uma viso supostamente tradicionalista, cega realidade avassaladora da construo do objeto ndio pelo dispositivo colonial (e por seu brao acadmico, a etnologia clssica).Um parntese. Gostaria de advertir que no estou incluindo Roberto Cardoso de Oliveira nessa lista dos que vem a etnologia do contato como a nica abordagem admissvel para a etnologia brasileira. Ao contrrio, Cardoso sempre mostrou largueza de vistas e curiosidade terica. Alm disso, embora eu tenha discordncias de fundo com o modo pelo qual tanto Darcy Ribeiro (de que falarei adiante) como Roberto Cardoso viam ou vem o objeto da etnologia, no me passaria pela cabea minimizar suas contribuies inestimveis nossa disciplina e causa indgena no Brasil. Darcy foi o principal responsvel por uma maior conscientizao das camadas urbanas (e das elites dirigentes) do pas quanto situao indgena; Cardoso, por sua vez, no s modernizou amplos setores da prtica e da reflexo etnolgica, difundindo um ideal de trabalho cientfico na rea, como foi o fundador da ps-graduao em antropologia social no pas. Meu problema com a captura hegemonizante que seus sucessores e discpulos realizaram da idia de uma etnologia brasileira, inventando uma boa tradio que, paradoxalmente, pretende-se no-tradicional, em oposio ao tradicionalismo da tradio alheia. Fecho o parntese.

Estamos, ao que parece, diante de uma contradio irredutvel entre duas concepes do objeto da etnologia, to irredutvel quanto as contradies intertnicas famosamente analisadas por Roberto Cardoso. Como nestas, h o lado dos ndios e h o lado dos brancos, entenda-se: o ponto de vista dos povos indgenas e o ponto de vista do estado nacional. Estes so os dois atratores conceituais que polarizam a idia de etnologia brasileira. (Um ponto de vista, advirta-se, no uma opinio, e muito menos uma representao parcial de uma realidade intertnica, no caso da qual apenas o observador cientfico teria uma viso global). Entre os dois pontos de vista no h mediao possvel, pois se trata aqui de uma oposio hierrquica, para falarmos como Dumont, onde o que est em disputa o lugar de valor conceitual dominante. (No que no haja uma viso global, portanto; que h duas: cada ponto de vista perfeitamente global). A questo a de decidir o que o contexto de que, e, reciprocamente, quem est inserido no contexto de quem.

Esse dualismo no , portanto, o resultado perverso de uma postura dualista e reducionista. intil dizer que os estudos de contato intertnico levam em conta (espera-se!) a viso indgena pois o que est em jogo a visada do etnlogo, a partir da qual a viso indgena pode dar a ver coisas muito diversas. No adianta tambm argumentar que o contato intertnico gera uma estrutura unificada (ou, quem sabe, um campo situacional) onde as instituies coloniais so parte do mecanismo de reproduo das instituies nativas. Se no h dualismo, ento por que se fala em instituies coloniais e instituies nativas (Oliveira F 1988: 10)? Se h contato intertnico, preciso que haja algo em contato: e nada mais substancialista e naturalizante que a fsica ingnua do contato e da frico, que no melhora tanto assim quando se a substitui pela metfora igualmente fsica do campo. Mas se, como penso, no existe esse objeto chamado contato intertnico, porque no h outro modo de contar a histria seno do ponto de vista de uma das partes. No existe o ponto de vista de Sirius: no h situao histrica fora da atividade situante dos agentes. O problema, portanto, com a grande vertente da etnologia contatualista no , como Lima supe que se supe, que ela esteja voltada somente para as interaes com a sociedade nacional (cf. supra), mas sim que ela est voltada para as sociedades indgenas a partir do estado nacional, pois neste plo que ela fixou a perspectiva. No limite, alis, poder-se-iam dispensar as sociedades indgenas e suas interaes com a sociedade nacional, ficando s com esta ltima e suas construes de e sobre as sociedades indgenas.

igualmente equivocada uma outra alegao usual contra a etnologia no-contatualista: a de que ela operaria com uma distino entre aspectos internos e externos, privilegiando as dimenses internas dos coletivos indgenas devido a uma paixo pr-cientfica pela interioridade (Oliveira F 1988: 27). Aqui talvez valha a pena explicar que a preocupao da etnologia no-contatualista contempornea melhor cham-la apenas de antropologia indgena no com as dimenses internas da vida dos povos indgenas. Em primeiro lugar porque, ao contrrio do que parecem crer Oliveira ou Lima, seus praticantes no consideram que as dimenses externas, tal como concebidas pelos diversos regimes sociocosmolgicos indgenas, sejam a mesma coisa que a sociedade nacional isto seria muita presuno etnocntrica. Em segundo lugar porque, uma vez fixada a perspectiva no plo indgena, tudo interno a ele inclusive a sociedade envolvente. Todas as relaes so internas, pois uma sociedade no existe antes e fora das relaes que a constituem, o que inclui suas relaes com o exterior. Mas essas relaes que a constituem s podem ser as relaes que ela constitui. O contato intertnico, disse um destes autores, um fato constitutivo, que preside prpria organizao interna e ao estabelecimento da identidade de um grupo tnico (op.cit.: 58; grifos originais). O problema saber quem o constitui, pois no h fatos sem algum que os faa. Fatos constitutivos so fatos constitudos. Dizer que o fato intertnico preside prpria organizao interna mas ento h um interno? de um coletivo humano tom-lo como um fato transcendente, como princpio causal superior e exterior a uma organizao que ele explica mas que no o explica (e muito menos o compreende). O ponto de vista que o constitui, portanto, est situado fora da organizao interna do grupo: o fato constitutivo da organizao indgena no constitudo por ela.

A crtica suposta nfase clssica nas dimenses internas das sociedades indgenas deriva assim de uma concepo que converte o fato da dominao poltica em princpio de governo ontolgico. O interior presidido pelo exterior e este ltimo visto como auto-constitudo. Enquanto a antropologia indgena toma o exterior e o interior como dimenses simultaneamente constitudas por um processo indgena de constituio que no tem nem dentro nem fora anterior como ele a essa distino a que ele preside, e portanto exterior a si mesmo , a sociologia politicista do contato intertnico, ao tomar ambos como dimenses de um dispositivo colonial que engloba do exterior a realidade indgena, v-se forada a contra-reificar no plano conceitual uma dimenso subordinada do interno. (S acredita em dimenses internas quem no as leva a srio, portanto; ou vice-versa). Finalmente, pode bem ser que o fato intertnico presida organizao de um grupo tnico; mas nem toda sociedade indgena um grupo tnico, nem todo grupo tnico o tempo todo um grupo tnico, e nenhum grupo tnico apenas um grupo tnico. A reduo dos multiformes e multi-situados coletivos indgenas situao uniforme de grupo tnico, tornada norma do objeto etnolgico, uma das consequncias de se tomar este fato constitutivo particular que o fato intertnico como sendo o fato constitutivo geral: a razo, em todos os sentidos da palavra, da existncia social de tais coletivos. E o contato intertnico acaba assim virando, para usarmos uma expresso cara escola contatualista, um obstculo epistemolgico.

Ao criticarem a etnologia clssica por privilegiar o interior dos coletivos indgenas, Oliveira F e Lima parecem, em suma, fazer uma confuso entre uma metafsica da interioridade e uma ontologia das relaes internas. Esta ltima caracteriza vrias abordagens antropolgicas anti-empiristas, no devendo nada, diga-se de passagem, dualidade sociedade indgena/sociedade algena. Como essa filosofia das relaes internas no se confunde, justamente, com nenhuma fantasmtica substancialista da interioridade, pode-se tanto dizer que tudo interno sociedade indgena estudada, inclusive a sociedade colonial, como dizer que tudo lhe externo, inclusive as fontes nativas de instituio cosmolgica do socius. Na verdade, tal imaginrio da interioridade autctone parece persistir principalmente no seio da teoria do contato, onde ele faz as vezes de espantalho que se precisa exorcizar como preldio a uma anexao discursiva das sociedades nativas pelas dimenses, agora sim, internas da sociedade nacional: pois apenas esta, na medida em que se encontra unificada e representada por um estado, exige e estabelece uma verdadeira interioridade metafsica (Deleuze & Guattari 1980: 445). E por falar em mitos de interioridade, recorde-se que no foram propriamente os etnlogos clssicos que inventaram esta contradio em termos, a noo de colonialismo interno, nem que a aplicaram aos estudos de frico intertnica.

a inveno da tradio

Mas retomemos a representao dualista da etnologia brasileira a partir de uma verso ao mesmo tempo mais explcita e menos polemizante. Alcida Ramos, em um artigo significativamente intitulado Ethnology Brazilian style, apresenta a uma audincia norte-americana as contribuies brasileiras etnologia, destacando duas perspectivas (1990a: 14) influentes em nossa academia. importante registrar que Alcida no v as duas perspectivas como opostas, mas apenas como distintas; e de fato, a prpria autora deu contribuies importantes para ambas as linhas.

A primeira perspectiva representa, grosso modo, o que vamos chamando aqui de etnologia clssica. Ainda que devendo algo aos trabalhos pioneiros de Nimuendaju ou Baldus, diz Alcida, ela derivaria diretamente dos estudos sobre os povos J, realizados no mbito do Harvard-Central Brazil Project coordenado por D. Maybury-Lewis, que reuniu quatro etngrafos americanos (J. Lave, J. Bamberger, T. Turner e J.C. Crocker) e dois brasileiros (R. DaMatta e J.C. Melatti). A autora v nas pesquisas deste grupo, cujo pico de atividade se deu no final dos anos 60, a origem de uma temtica depois desenvolvida por pesquisadores como M. Carneiro da Cunha, A. Seeger e E. Viveiros de Castro sobre as concepes de pessoa e de corporalidade prprias s sociocosmologias indgenas. Ela indica brevemente a conexo desta linha de investigao com algumas questes tericas da poca, notadamente com o consenso estabelecido no Congresso de Americanistas de 1976 (Overing Kaplan [org.] 1977) sobre a necessidade de se buscar uma nova linguagem para descrever as sociologias amaznicas. Alcida evoca, por fim, os numerosos desdobramentos contemporneos desta perspectiva em plena expanso, da arte ao ritual, do parentesco ao canibalismo, do corpo cosmologia (Ramos 1990a: 1416).

A segunda perspectiva ilustrada exclusivamente por nomes nacionais, e recebe maior ateno da autora: trata-se da tradio contatualista (op.cit.: 1622). Alcida comea por sublinhar a preocupao desde cedo manifestada pela etnologia brasileira em documentar os mecanismos de dominao tnica e a transformao das sociedades indgenas from self-sufficient units to helpless appendages of the national powers. A autora mostra como esta preocupao nacional (que ela contrasta com a etnografia do rescaldo prpria da antropologia indgena norte-americana) j se percebia nas pesquisas sobre aculturao iniciadas nas dcadas de 40-50 em So Paulo. A abordagem aculturativa seria reformulada pelas figuras-chave da etnologia brasileira das duas dcadas seguintes, Darcy Ribeiro e R. Cardoso de Oliveira, ambos egressos do meio acadmico paulistano mas que iro transferir para o Rio o centro de gravidade da disciplina. Alcida sugere que a markedly nationalist phase of Brazilian history em que se deu formao destes autores influenciou os rumos que eles imprimiram etnologia. Assim, Darcy teria vindo politizar, em vrios sentidos, a problemtica formalista da aculturao, denunciando o etnocdio que se escondia sob esse rtulo neutro, inserindo-o no quadro da expanso diferencial da fronteira econmica nacional e prevendo a extino sociocultural dos povos indgenas, em um livro de enorme impacto (Os ndios e a civilizao). Acrescente-se a isso um engajamento ativo no Servio de Proteo aos ndios, onde Darcy iria se definir como continuador da obra de Rondon e formular uma teoria governamentalista do indigenismo, de grande influncia sobre problemtica latino-americana de mesmo nome. Roberto Cardoso, por sua vez, viria romper com o paradigma aculturativo ainda subscrito por Darcy (junto a quem trabalhou no SPI). Inspirado na noo de situao colonial, extrada da sociologia africanista de Balandier, Cardoso deslocou o foco analtico da cultura para as relaes sociais, ao propor o conceito de frico intertnica. Se Darcy politizou a aculturao, Cardoso a sociologizou, lanando mo de uma paleta ecltica de referncias, do marxismo etnocincia, do estruturalismo fenomenologia. Mais tarde, ele iria migrar da problemtica da frico para a da identidade, e depois para a da etnicidade em um percurso repetido por vrios de seus discpulos , sem abandonar a questo geral do contato intertnico.

Como bem diz Alcida, Cardoso de Oliveiras influence on Brazilian anthropology cannot be overemphasized (p.22). Embora tenha tido, como seu antecessor, uma expressiva participao no campo do indigenismo oficial latino-americano, tomando assento em organismos internacionais e escrevendo textos programticos sobre a questo indgena, a influncia de Cardoso sobre a antropologia deu-se essencialmente no plano universitrio. Fundador e condutor de instituies, referncia intelectual central de pelo menos duas geraes de antroplogos, foi graas sua atividade que o tema do contato intertnico

was definitely established as a trademark of Brazilian ethnology. For the best part of three decades, many students of indigenous societies have been stimulated by Cardoso de Oliveira and have taken to the field one or another version of his model of interethnic friction (pp. 2122).

O estilo brasileiro de etnologia de que fala o artigo portanto associado pela autora a essa segunda perspectiva: trinta anos de contato intertnico tornaram o tema a nossa marca registrada. Que marcou, alis, mais que a etnologia propriamente dita: como mostra Alcida, a questo do contato logo se articulou questo da fronteira e do campesinato, estando na origem da linha de estudos rurais desenvolvida no Museu Nacional e alhures. Com efeito, acrescento, assim como a sociologia do contato buscara instrumentos de compreenso e de explicao da realidade tribal, vista no mais em si, mas em relao sociedade envolvente (Cardoso de Oliveira 1967: 187), a sociologia do Brasil rural a ela associada iria criticar em termos muito semelhantes as abordagens culturalistas dos estudos de comunidade, produzidos nas dcadas anteriores: estes desdenhariam a histria, no veriam a realidade como processo, isolariam a comunidade do contexto ou sistema poltico-econmico mais amplo etc.

Comentemos a apresentao das duas perspectivas por Alcida. Observe-se, de sada, o carter notavelmente desequilibrado dos respectivos temrios: de um lado, o contato intertnico; do outro, a pessoa e a corporalidade, mas tambm o parentesco, a organizao sociopoltica, o xamanismo, a mitologia, o ritual e, acrescente-se, o contato intertnico. Na verdade, o discurso terico sobre o contato, nos termos em que ele foi articulado pela escola que vamos chamando por esse nome, no chegou a contribuir significativamente para a compreenso dos fenmenos e dimenses estudados pela outra etnologia. Esta, em troca, veio a incorporar o tema do contato em sua agenda, aprofundando uma orientao de que j se podiam ver sinais desde o incio dos anos 70.

Note-se tambm que o esquema de Alcida, ao projetar tematicamente a ciso que evitamos abordar, procede a uma reduo de um esquema tripartite tradicionalmente utilizado nos sobrevos da etnologia brasileira. Refiro-me classificao, proposta por Florestan e seguida por vrios comentadores, que indexava as pesquisas etnlogicas sob as rubricas: organizao social e poltica; religio e mitologia; e mudana cultural ou social (depois frico intertnica e etnicidade). No arranjo de Alcida, os dois primeiros temas esto contidos dentro da primeira perspectiva. Isto corresponde, a meu ver, a algo real: a dcada de 70 viu ruir a barreira entre sociedade e cultura, instituio e representao, que justificava a diferenciao entre aqueles temas (Overing Kaplan 1977; Viveiros de Castro 1986; Rivire 1993). O fim dessas distines tradicionais, que podem ser lidas em sentido tanto durkheimiano como marxista, deve-se influncia fundamental de uma figura que o texto de Alcida s menciona de modo muito alusivo. Estou-me referindo, naturalmente, a Lvi-Strauss, cuja antropologia tinha como trao distintivo the eradication of the Durkheimian distinction between the social base and the cultural reflection of it (Ortner 1984: 137). A presena do estruturalismo na etnologia americanista ser comentada adiante.

De seu lado, a escola do contato ensaiou alguns passos no sentido de articular os temas da organizao social e da mudana. Mas ela o fez ao preo de uma exacerbao daquela distino entre o social e o cultural no interesse, claro, do primeito conceito que j havia sido erradicada pelo estruturalismo. Ela revelava com isso sua dependncia de um estrato mais arcaico do campo terico, onde se defrontavam o culturalismo norte-americano e os vrios funcionalismos britnicos (verses London School, Oxford, Cambridge, Manchester). A sociologia do contato contempornea permanece presa a essa dicotomia, e sua dileo por autores como Gluckman e Barth remonta cruzada ao mesmo tempo anti-culturalista e pr-estruturalista das dcadas de 50 e 60, a poca de ouro de nossa etnologia. Confrontados mais tarde com a ecloso de um vigoroso culturalismo poltico indgena, os contatualistas se vero obrigados a reintroduzir a detestada noo de cultura residual mas irredutvel, j advertira Carneiro da Cunha (1979) pela porta dos fundos, isto , disfarada de etnicidade, e tambm a reinvidicar alguns ps-tudlogos (afterologists, diria Sahlins) egressos da tradio norte-americana.

Do lado da etnologia clssica, reunio dos dois primeiros temas da tripartio tradicional, ocorrida na dcada de 70, seguiu-se, na dcada de 80, a incorporao do tema da mudana. A inspirao para este movimento veio de Marshall Sahlins, que em um opsculo publicado em 1981 reformulou de um golpe a questo das relaes entre estruturas socioculturais e transformao histrica, oferecendo finalmente ao tema do contato intertnico uma possibilidade de interpretao antropolgica. O exemplo de Sahlins veio desestabilizar de vez a polaridade, j ento precria, entre as etnologias da tradio e da mudana. Tal desestabilizao se reflete nos pargrafos finais do artigo de Alcida, onde a autora registra muito rapidamente o surgimento do que seria uma terceira perspectiva na etnologia brasileira, a saber, o interesse crescente pela etnohistria (op.cit.: 25). significativo que, dos poucos autores que ela cita aqui, a maioria pertena ao contexto acadmico paulista; interessante tambm observar que esta maioria e isso ficaria ainda mais claro na grande produo sobre histria indgena, contempornea ou posterior data do artigo, esteja teoricamente identificada antes com paradigmas da etnologia clssica que com o contatualismo. A implantao paulista dessa terceira perspectiva parece-me significativa porque foi justamente em So Paulo que as doutrinas de Darcy e Cardoso tiveram menor penetrao acadmica. Em outras palavras, a esquematizao dualista presente em comentadores como Mariza Peirano, Alcida Ramos, A.C. Souza Lima e eu mesmo reflete sobretudo a etnologia produzida na rea de influncia intelectual destes dois grandes antroplogos, que de certa forma inventaram a tradio da etnologia brasileira. Ao faz-lo, eles ou (no caso de Cardoso) seus epgonos definiram o que se fazia fora deste marco normativo como constituindo uma contra-tradio to brasileira quanto a outra, eu diria, mas talvez menos ocupada com sua prpria brasilidade, confiando que esta seria antes a consequncia que a causa de seu fazer etnolgico.

Os comentrios de Alcida sobre a carreira e obra de Darcy e Cardoso pedem adendos. A politizao do tema da aculturao efetuada por Darcy estava associada a dois componentes de sua personalidade terica: de um lado, a fascinao pelos esquemas grandiosos do neo-evolucionismo americano (apimentado, diz a autora, por uma certa marxian inclination), o qual se constituiu em ruptura com o paradigma boasiano dominante nos estudos de aculturao; de outro, a deciso de inserir a problemtica indgena assim redefinida no quadro das teorias do Brasil formuladas na dcada de 30. Isto o levou a escrever uma srie de amplos panoramas histrico-culturais de pouca repercusso acadmica (mas ver infra, A marca nacional). Darcy props-se, na verdade, a ser um Gilberto Freyre indigenista e de esquerda, que iria recontar a formao da nacionalidade a partir do duo europeu-indgena (e no do europeu-africano). Sua preocupao ltima era com o ndio como ingrediente-chave da mistura sociocultural brasileira, e sua visada poltica era o nacionalismo de estado, como o mostra sua identificao com Rondon nos tempos do SPI e sua carreira pblica posterior.

A ruptura de Roberto Cardoso com a tradio da aculturao seguiu caminhos diversos, mas no inteiramente. O conceito de frico intertnica deve tanto a Balandier como ao modelo das relaes raciais de Florestan Fernandes, professor de Cardoso. Como observa Mariza Peirano, a etnologia de Roberto Cardoso marcada por um dilogo terico com os estudos sobre relaes raciais e no com os Tupinamb; as monografias indgenas de Florestan no podiam assim servir de inspirao para a abordagem que caracterizou a antropologia indgena no Brasil (1992: 7374; grifo meu). Se Darcy foi o Gilberto Freyre indigenista, Cardoso, de certa maneira, tambm ps o ndio no lugar do negro s que nos termos classistas de Florestan, no nos racialistas do socilogo pernambucano. A etnia foi vista como um anlogo da classe social: a frico intertnica era o equivalente lgico do que os socilogos chamam de luta de classes (Cardoso de Oliveira 1978: 85). Com este enquadramento dos povos indgenas no esquema das relaes raciais e da luta de classes, em que pese sua bem-vinda radicalidade interpretativa, enraizou-se ainda mais firmemente a etnologia em uma teoria do Brasil.

A outra matriz terica direta da sociologia indigenista de Cardoso foi, como se sabe, a teoria da dependncia de Gunder Frank, Stavenhagen e outros menos votados, que utilizava o mesmo modelo da luta de classes para pensar as relaes internacionais. A escola do contato iria se articular diretamente com as discusses da poca sobre a troca desigual, o colonialismo interno, as famigeradas formas de transio ao capitalismo etc. Negros, camponeses, o Brasil: tais foram as fontes analgicas utilizadas pela escola do contato para pensar a realidade tribal; para pens-la, isto , no mais em si, mas em relao sociedade envolvente, como disse Cardoso.

Esta oposio entre tomar a realidade tribal em si ou em relao sociedade envolvente reveladora: aquela realidade em si aparece como substncia, e no como complexo imediata e intrinsecamente relacional; e o em relao em relao sociedade envolvente, note-se, no com a sociedade envolvente significa: na qualidade de parte ontologicamente subordinada. A relao de que se fala uma relao entre parte e todo, e o em relao indica o ponto de vista que se est assumindo. A sociedade indgena no vista como relacional, mas como relativa relativa a um absoluto que a sociedade envolvente, a qual ocupa o trono do em si que se recusou realidade tribal. Contra esta alternativa entre tomar seu objeto em si ou em outro, a antropologia indgena escolheu tom-lo como constituindo desde o incio um para si, isto , como um sistema auto-intencional de relaes. O em si e o em relao so, neste caso, sinnimos, no antnimos.

Por fim, cabe observar que a oposio entre uma etnologia clssica ou tradicional e a etnologia da marca registrada no um acidente peculiar ao contexto acadmico nativo; se o rebatimento ideolgico sobre a brasilidade brasileiro, sua codificao terica traz marcas estrangeiras. Pois tal polarizao muito semelhante quelas que marcaram outras tradies nacionais, como o cabo-de-guerra entre materialistas e idealistas que dividiu a antropologia norte-americana dos anos 50 at os 80, ou a polmica dos antroplogos marxistas contra os estruturalistas na Frana ps-68. Um mesmo ar de famlia perpassa as trs. O debate americano teve menos eco no pas, devido pequena popularidade do materialismo cultural (ou ecologia cultural) em nossas plagas; mas no se deve esquecer que Darcy e seus associados mais diretos eram adeptos entusiasmados dessa corrente, e que ela se opunha, em sua traduo brasileira, ao mesmo tipo de gente os malditos idealistas anatematizado pelos descendentes da escola da frico, que importaram da Frana o antagonismo entre Balandier (e demais africanistas de persuaso marxista) e Lvi-Strauss (e demais americanistas de persuaso estruturalista) e o utilizaram como chave de classificao. importante pr em continuidade essas trs polarizaes, pois isto permite ver que a ruptura cosmolgica entre a fase Darcy e a fase Cardoso da etnologia do contato foi menos profunda do que se pode pensar. Assim, o esquema de tipo teoria da dependncia adotado pela etnologia contatualista, que veio a fazer grande sucesso na antropologia dos anos 70 sob o nome genrico de Political economy school, tem pelo menos um ponto em comum com o materialismo ecolgico-cultural, como observou perspicazmente S. Ortner (1984). As pesquisas inspiradas no paradigma antropolgico da economia poltica, diz Ortner,

Have shifted the focus to large-scale regional political/economic systems Insofar as they have attempted to combine this focus with traditional fieldwork in specific communities or micro-regions, their research has generally taken the form of stydying the effects of capitalist penetration upon those communities The emphasis on the impact of external forces, and on the ways in which societies change or evolve largely in adaptation to such impact, ties the political economy school in certain ways to the cultural ecology of the sixties, and indeed many of its current practicioners were trained in that school But whereas for sixties cultural ecology, often studying relatively primitive societies, the important external forces were those of the natural environment, for the seventies political economists, generally studying peasants, the important external forces are those of the state and the capitalist world system (op.cit.: 14142).

Com efeito, entre a natureza (americana) e a histria (europia), desaparece a sociedade (indgena). Atirados de um lado para o outro pela necessidade natural e pelas necessidades do capital, os povos indgenas so vistos como registros contingentes de realidades mais eminentes. O capitalismo ou o estado colonial disputam assim com a ordem natural o papel sobrenatural de Grande Objetivador. Longe de estarem situados no Brasil, os ndios, segundo ambas estas concepes, so situados pelo Brasil: ora pelo Brasil ecolgico, ora pelo Brasil poltico. (Quando, mais tarde, o ecolgico se tornou uma manifestao privilegiada do poltico as coisas se complicaram para os dois lados).

Aqui talvez valha a pena dirimir uma ambiguidade entre a referncia puramente cartogrfica da situao no Brasil de que fala Peirano e o uso conceitualmente motivado da palavra situao pela escola contatualista, onde ela costuma aparecer adjetivada como situao histrica. A ambiguidade possvel porque em ambos os casos a noo de situao tomada no sentido substantivo de condio, isto , como facticidade: uma situao histrica uma condio temporalmente circunscrita. Os ndios de que falamos esto situados geograficamente no pas, sem dvida; e o Brasil , certamente, um elemento de sua situao histrica, nesta acepo passiva. Mas, na frmula de Peirano, a situao visa indicar um carter circunstancial; para a escola do contato, ao contrrio, ela designa uma propriedade condicionante dos coletivos indgenas: a situao define o situado. A noo de situao histrica funciona como anlogo do conceito de ambiente ecolgico de um organismo, mas sob uma perspectiva adaptacionista que v a unidade situada ou ambientada como sendo o resultado de presses externas objetivas que a penetram e constituem; o ambientado parte e produto do ambiente. Contra semelhante entendimento, a antropologia indgena contempornea toma a noo de situao no mesmo sentido em que a biologia fenomenolgica toma o par organismo/ambiente. Uma situao uma ao; ela um situar. O situado no definido pela situao ele a define, definindo o que conta como situao. Por isso, ao introduzir o Brasil na situao histrica dos ndios, no estou simplesmente dizendo em outras palavras que o dispositivo colonial explica (situa) as sociedades indgenas O que Peirano chamou Brasil s parte da situao histrica das sociedades indgenas porque ele um dos objetos de um trabalho histrico ativo de posio em situao realizado pelas sociedades indgenas. A etnologia dos ndios situados no Brasil est interessada assim, entre muitas outras coisas, em saber como os ndios situam o Brasil e, portanto, como eles se situam, no Brasil e em outros contextos: ecolgicos, sociopolticos, csmicos

a tradio da inveno

digno de nota que a ordem de exposio adotada por Alcida inverta a sequncia temporal das duas perspectivas apresentadas, e que ela no se preocupe em comentar as origens tericas da primeira delas, evocada apenas no marco etnogrfico do Harvard-Central Brazil Project. Ofereamos aqui uma outra narrativa.

Os ltimos trinta anos, ao mesmo tempo em que assistiram a um enorme avano quantitativo e qualitativo nos estudos indgenas, viram tambm uma diferenciao da linguagem at ento comum aos etnlogos e aos outros cientistas sociais do pas. Ainda que sendo, em boa medida, uma consequncia da institucionalizao da ps-graduao, da acumulao de conhecimentos e da expanso da populao de pesquisadores, fatores que conduzem especializao, esse afastamento foi sobretudo o resultado de uma mudana de horizonte na etnologia brasileira. proporo que se comeou a dedicar uma ateno mais aprofundada s instituies e organizaes sociais indgenas, que se passaram a adotar protocolos mais rigorosos de pesquisa, com o aprendizado das lnguas nativas e estadas mais prolongadas no campo, e que o intercmbio setorizado com especialistas de outras partes do mundo se intensificou, os marcos de inscrio do objeto se deslocaram. As relaes entre as sociedades indgenas brasileiras e outras sociedades morfologicamente semelhantes de outras partes do mundo, bem como as conexes histrico-estruturais entre as diversas formaes sociais indgenas do continente, passaram a ocupar um lugar de destaque na reflexo etnolgica, reduzindo (sem chegar a inverter) a hegemonia de uma abordagem que via os ndios essencialmente como um captulo findo ou menor da histria e sociologia do Brasil, isto , como populaes cujo interesse antropolgico se resumia s suas contribuies cultura nacional ou a seu papel de smbolo passado ou perene dos processos de sujeio poltico-econmica que se exprimiriam de modo mais moderno na dinmica da luta de classes de nosso capitalismo autoritrio.

Se o deslocamento acima mencionado, que comeou timidamente no final dos anos 60, desembocou em um modo de investigao distante das preocupaes caractersticas da ideologia do nation-building e com isso afastou parte da etnologia das demais cincias sociais, quase sempre entretidas com temas brasileiros , contribuiu tambm para um divrcio entre duas linhas de pesquisa presentes na etnologia universitria das dcadas anteriores, e que at ento haviam convivido sem problemas, praticadas sucessiva ou simultaneamente pelos mesmos pesquisadores (nacionais e estrangeiros): a linha dos estudos preocupados em descrever etnograficamente as formas socioculturais nativas, mais tarde identificada como etnologia clssica; e a linha dos estudos de aculturao ou mudana social, mais tarde associada noo-emblema de contato intertnico e seus derivados. Essa fratura, que chegou, entre 1975 e 1985 aproximadamente, a definir algo como linhagens antagonistas os etnlogos dos ndios puros ou isolados versus os dos ndios aculturados ou camponeses , continua, como vimos, em vigor em alguns centros do pas, embora com uma significao terica bastante esvaziada, em vista das mudanas ocorridas a partir dos anos 80, tanto na prtica antropolgica como na participao poltica dos povos indgenas nos cenrios nacional e internacional, que dissolveram a oposio evolucionista entre tradio e mudana, ndios puros e ndios aculturados.Mas essa dissoluo no tomou a direo que se poderia imaginar porque o que se dissolveu era, justamente, imaginrio. Assim, depois de anos de polmicas acerbas, em que os partidrios da etnologia do contato martelavam que a condio camponesa (com opo de proletarizao) era o devir histrico inexorvel e portanto a verdade das sociedades indgenas, e que a descrio destas sociedades como entidades socioculturais autnomas supunha um modelo naturalizado e a-histrico, eis que de repente os ndios comeam a reivindicar e terminam por obter o reconhecimento constitucional de um estatuto diferenciado permanente dentro da chamada comunho nacional; eis que eles implementam ambiciosos projetos de retradicionalizao marcados por um autonomismo culturalista que, por instrumentalista e etnicizante, no menos primordialista nem menos naturalizante; eis, por fim, que algumas comunidades rurais situadas nas reas mais arquetipicamente camponesas do pas se pem a reassumir sua condio indgena, em um processo de transfigurao tnica que o exato inverso daquele anunciado por Darcy Ribeiro (1970) em profecia acreditada, com um retoque ou outro, pelas geraes subsequentes de tericos do contato. Estes agora descobrem que o que estudavam como se fossem comunidades rurais que apresentavam a particularidade de ser indgenas eram na verdade comunidades indgenas que tinham a particularidade de ser camponesas. Redistribuio das qualidades primrias e secundrias, do necessrio e do acessrio? Em face das preocupaes metafsicas, caractersticas dessa escola, com a natureza ltima de seu objeto (natureza que ela s vezes chama, por curiosa antfrase, de construo), tal reviravolta deve estar sendo difcil de administrar.

A partir do incio dos anos 70, a etnologia sul-americana iniciou um amplo e concertado salto adiante na cobertura etnogrfica do mundo indgena; ao mesmo tempo, ela procedeu a uma completa atualizao terica desta fronteira fssil da antropologia que era o americanismo tropical at ento (Taylor 1984). No caso brasileiro, isto significou uma deciso de se restabelecer o equilbrio entre a sociologia do contato, que havia progredido muito nos anos anteriores (desdobrando-se em complicadas discusses sobre o campesinato e os modos de produo), e a antropologia indgena, que permanecia notavelmente pobre dos pontos de vista descritivo e conceitual. A conscincia deste descompasso entre a proliferao de estudos intertnicos e o pouco que efetivamente se sabia sobre os sistemas nativos tornava necessrio estender o avano realizado pelo grupo de Maybury-Lewis e outros especialistas no Brasil Central at outras reas culturais, e em especial at a Amaznia brasileira, criando uma interlocuo com pesquisadores como P. Rivire e J. Overing, que haviam comeado uma reflexo rigorosa sobre as sociologias nativas do escudo da Guiana. Esse movimento, como eu disse acima, teve por um de seus objetivos a elaborao de paradigmas apropriados aos regimes indgenas, isto , ele efetuou uma crtica amazonizante das linguagens analticas importadas de outras regies estudadas pela antropologia, notadamente a frica e a Oceania, fontes principais dos modelos etnolgicos da poca. Em funo deste propsito caracterizar de modo mais preciso os sistemas sociocosmolgicos indgenas , a questo do contato intertnico foi tratada, ao menos de incio, algo perfunctoriamente. De seu lado, os captulos dedicados aos elementos de organizao social das monografias produzidas pelos tericos do contato mostravam que estes continuavam prisioneiros da superficialidade etnogrfica e da linguagem tipolgica de que nos queramos livrar.

As dcadas de 70 e 80 assistiram a um renascimento da etnologia americanista em escala mundial. O primeiro resultado foi a proliferao de etnografias tecnicamente modernas, onde as influncias europias superavam as norte-americanas, mais fortes nas dcadas anteriores. Logo em seguida, snteses comparativas regionais, temticas ou conceituais foram construindo um campo problemtico comum, em um trabalho que prossegue.A contribuio da etnologia feita no Brasil a este renascimento foi decisiva, como atestam as referncias a uma escola de pensamento europia-brasileira (em oposio a uma escola norte-americana) ou a uma teoria brasileira do parentesco. Alguns textos da dcada de 70 escritos por pesquisadores brasileiros, alis, anteciparam questes s levantadas bem mais tarde pela antropologia, como os artigos seminais de DaMatta (1970) e Carneiro da Cunha (1973) sobre as relaes entre mito, ritual e histria, ou o artigo de Seeger et al. (1979) sobre a corporalidade, que prefigurava a temtica do embodiment hoje to em voga e que teve, no obstante sua difuso restrita, um certo impacto na disciplina.

Essa expanso da antropologia indgena nas duas dcadas passadas levou muitos etnlogos cuja carreira se iniciou no comeo dos anos 80 a reverter certas pr-escolhas tericas, passando da sociologia do contato antropologia indgena. Enquanto Oliveira F (1988: 1112), em meados da dcada anterior, abandonara o projeto de estudar a ideologia de parentesco dos Ticuna para mergulhar em uma anlise do campo indigenista local, pesquisadores mais jovens, como Vanessa Lea (1986) e Peter Gow (1991), que saram a estudar os Kayap e os Piro munidos do iderio da escola do contato, visando documentar os processos de penetrao do capitalismo e do colonialismo na vida indgena, terminaram escrevendo estudos detalhados justamente sobre o parentesco esse emblema da antropologia clssica , ao perceberem que esta era a dimenso que os ndios lhe colocavam frente. Trocaram, assim, a sociologia da questo indgena por uma antropologia das questes indgenas, tornadas teoricamente acessveis a partir dos anos 70: rotao de perspectiva.

Mas, neste momento, comeava tambm a ser possvel uma retomada do tema do contato e da histria em novas bases. Isto foi realizado, entre outros, por Gow, que em sua monografia sobre os Piro da Amaznia peruana adotou uma estratgia que demoliu a distino entre os ndios puros e seus etnlogos puristas, de um lado, e os ndios misturados e seus etnlogos radicais, de outro. Escrevendo sobre um grupo indgena que parecia a encarnao mesma de um estado avanado de aculturao, acamponesamento e sujeio aos poderes nacionais, Gow mostrou como s se poderia atingir uma compreenso adequada do mundo vivido piro atravs de sua insero no panorama construdo pela etnologia dos ndios puros. Rejeitando explicitamente a perspectiva da sociologia do contato e da etnicidade (1991: 1115), o autor lanou mo dos trabalhos de Overing e de Viveiros de Castro sobre as filosofias sociais amaznicas (op.cit.: 27581, 290ss) para argumentar que o estado aculturado dos Piro era uma transformao histrica e estrutural dos regimes nativos tradicionais, e mais que isso, que a transformao era um processo inerente ao funcionamento destes regimes, que sempre tiveram a aculturao por origem e essncia da cultura e a exterioridade social por plo em perptua interiorizao. Gow mostraria, alm disso e sobretudo contra estertipos ainda hoje em vigor que a obra americanista de Lvi-Strauss oferecia instrumentos muito mais ricos para se entender a inscrio temporal do mundo vivido dos Piro que as teorias meta-colonialistas do contato e da sujeio.

A dita etnologia clssica, assim, incorporou a questo do contato intertnico, valendo-se dos conhecimentos que viera acumulando desde as dcadas anteriores. O tema da transformao foi dissociado da teoria do acamponesamento (que parece ter sido, alis, sepultada sem muita pompa por seus antigos fiis) e de outras objetivaes igualmente redutoras, passando a se inscrever no plano mesmo dos pressupostos sociocosmolgicos dos regimes nativos. Recusando-se a tomar o mundo indgena como simples cenrio de manifestao de uma estrutura de dominao algena, como um arbitrrio cultural (Oliveira F 1988: 14) com valor meramente particularizador de uma dinmica geral de sujeio arbitrrio de medocre rendimento analtico, dada a presso inexorvel exercida pelos processos homogeneizadores prprios da situao colonial , a etnologia clssica estendeu sua prpria visada terica de um modo que lhe permitiu redefinir os brancos, o estado ou o capitalismo como outros tantos daqueles arbitrrios histricos com que sempre se houveram e havero os sistemas nativos (Albert 1988, 1993; Gallois 1993; Gow op.cit.; S. Hugh-Jones 1988; Turner 1991, 1993; Vilaa 1996a). Para isso foi-lhe indiscutivelmente necessrio abrir esses sistemas, abandonando as imagens conceituais de sociedade e de cultura legadas pelo funcionalismo britnico ou o culturalismo americano. Embora inspirada na crtica estruturalista s concepes totalizantes do objeto vigentes nos paradigmas anteriores, semelhante abertura foi acima de tudo o resultado e este um detalhe absolutamente fundamental de uma anlise mais fina das premissas socioculturais nativas, no de um a priori objetivista que reivindicasse um maior naturalismo (Barth 1992) para este ou aquele modelo analtico geral que o pesquisador, criador e criatura de seu prprio arbitrrio terico, imagina ser a perfeita traduo da realidade. A nova sociologia indgena que emergiu dos anos 70 teve como instrumento e objetivo, portanto, uma indigenizao da sociologia e isto que lhe deu seu carter propriamente antropolgico.

Para que essa incorporao da histria e do contato acontecesse, entretanto, foi preciso primeiro liberar a perspectiva estrutural da interpretao excessivamente britnica que ela sofrera por parte dos etnlogos do Harvard-Central Brazil Project. Orientado pelas leituras que Needham e Leach haviam feito de Lvi-Strauss, o grupo de Maybury-Lewis, como outros etngrafos da Amaznia de ento, dedicou-se a aplicar os princpios da anlise estrutural a sociedades e cosmologias particulares, expurgando assim o estruturalismo de alguns de seus aspectos mais radicais (Ortner 1984: 137), e evitando a questo da relao entre as estruturas indgenas locais e o fundo histrico-cultural panamericano. A referncia principal do grupo eram as obras da primeira e mais durkheimiana fase de Lvi-Strauss, notadamente As estruturas elementares do parentesco e os artigos sobre o Brasil Central, onde o antroplogo francs retomava a etnografia de Nimuendaju; e seu tema por excelncia foi a organizao dualista, particularmente pregnante no caso das sociedades J e Bororo. Alm disso, se Lvi-Strauss era a inspirao terica (ou sobretudo temtica) principal desses estudos etnogrficos, sua orientao metodolgica devia mais s monografias funcionalistas da tradio britnica. Seu objetivo era descrever cada sociedade estudada como um sistema total, ou holista, para em seguida inseri-la em um srie comparativa composta de outros sistemas do mesmo tipo (Gow 1999), o que no corresponde nem idia de comparao de Lvi-Strauss, nem sua idia do que conta como unidade comparativa.

Abra-se um parntese. Que muitas das mais influentes etnografias sul-americanas das dcadas de 70 e 80 tenham sido cortadas pelo molde das monografias clssicas inglesas, no h como contestar. Que elas devam ao estruturalismo antes uma agenda temtica e alguns princpios tericos limitados que uma orientao sistemtica, tambm verdade. Que elas (e no me refiro apenas s do grupo de Maybury-Lewis) tenham dedicado pouca ateno histria, adotando um certo holismo apriorstico e um certo descontinusmo, como notam Gow (op.cit.) ou Albert (1988), eis outro fato. Mas tais limitaes no podem de forma alguma servir para desqualificar in limine a contribuio dessas monografias etnologia do continente uma contribuio incomparavelmente maior que a trazida pelos estudos aculturativos ou friccionistas das dcadas anteriores e posteriores. Ao contrrio, Gow apoiou-se justamente nelas, mostrando como os princpios que os etnlogos identificaram como constitutivos do fechamento holista dos sistemas indgenas eram os mesmos acionados pelos Piro para situarem o sistema intertnico em que estavam situados e assim fez desaparecer a distino entre sociedades puras tradicionais vs. part-societies camponesas, porque as primeiras se mostram muito mais abertas e as segundas muito mais indgenas do que se imaginava. Albert, por sua vez, partiu de sua esplndida anlise estrutural da cosmologia yanomami (1985) para produzir uma reflexo no menos inovadora sobre a etnicizao do discurso xamnico-poltico indgena (1993). De minha parte, utilizei um enquadramento aparentemente holista para questionar precisamente a imagem auto-contida dos sistemas amaznicos e a representao totalizante de sociedade, tendo como contraponto retrico a etnografia centro-brasileira (Viveiros de Castro 1986). Alguns autores da escola contatualista, ao contrrio, parecem ter tomado as limitaes daquelas monografias pioneiras como pretexto para ignorar sua existncia e a de toda a etnologia amaznica que se seguiu , dando prova de certa estreiteza terica e de desinteresse etnogrfico. Os grupos que ela estuda (ou constri) so tanto mais parte do Brasil quanto menos situados esto na Amrica indgena, parecendo flutuar em um vcuo histrico-cultural. No so sequer parte de si mesmos, como s vezes se constata em certas obras desta escola, onde a frao alm-fronteira de um povo indgena transnacional objeto de um profundo silncio descritivo e at cartogrfico (Oliveira F 1988: 8). Feche-se o parntese.

As prximas levas de etnlogos influenciados pelo estruturalismo iriam partir da tetralogia Mitolgicas, que deram ao americanismo um instrumento de alcance continental (Lvi-Strauss 19641971). A publicao de seu primeiro volume (O cru e o cozido) desempenhou o mesmo papel paradigmtico que O ndio e o mundo dos brancos, aparecido no mesmo ano (Cardoso de Oliveira 1964), teve para a escola do contato. Sendo, primeira vista, um estudo puramente formal dedicado s mitologias amerndias, as Mitolgicas revelavam algo que os etnlogos que iniciavam seu trabalho na Amaznia no demoraram a perceber: que os materiais simblicos de que as sociedades sul-americanas lanam mo para se constiturem, e assim as estruturas construveis pelo analista, eram refratrios s categorias tradicionais da antropologia. Princpios cosmolgicos embutidos em oposies de qualidades sensveis, uma economia simblica da alteridade inscrita no corpo e nos uxos materiais, um modo de articulao com a natureza que pressupunha uma socialidade universal eram estes os materiais e processos que pareciam tomar o lugar dos idiomas juralistas e economicistas com que a antropologia descrevera as sociedades de outras partes do mundo, com seus feixes de direitos e deveres, seus grupos corporados perptuos e territorializados, seus regimes de propriedade e herana, seus modos de produo linhageiros. Longe de se constiturem em contedos superestruturais ou culturais das formaes sul-americanas, aqueles materiais e processos articulavam diretamente uma sociologia indgena. por isso que as Mitolgicas ensinavam mais sobre as sociedades amerndias que, por exemplo, os textos antigos do mesmo autor sobre a chefia ou a guerra na Amrica do Sul, permitindo, alis, uma recuperao no-durkheimiana da problemtica dAs estruturas elementares do parentesco. Antes que se impusesse a constatao de que os modelos analticos clssicos eram inadequados para as sociedades que estudvamos, as Mitolgicas (e os estudos delas derivados: Lvi-Strauss 1975, 1985, 1991) foram a primeira tentativa de apreender as sociedades do continente em seus prprios termos em suas prprias relaes , bem como de fornecer um inventrio geral do repertrio simblico a partir do qual cada formao social gera suas diferenas especficas.

Enquanto os etnlogos do contato estavam preocupados em sublinhar os processos homogeneizadores que submergiriam os arbitrrios culturais indgenas em uma condio de indianidade genrica, os etnlogos estruturalistas da Amaznia no se contentaram en produzir descries particularizantes de sistemas discretos, mas logo buscaram restabelecer a continuidade entre os diversos sistemas indgenas seja analisando os processos de inter-transformao estrutural, seja determinando as modalidades de abertura ao exterior prprias a cada sistema e situar os processos de articulao entre instituies nativas e instituies coloniais neste quadro histrico-sociolgico nativo. Pois, se h processos homogeneizadores presididos pelo estado e a sociedade invasora, no os h menos do lado indgena; e certas estruturas cosmolgicas panamericanas (Viveiros de Castro 1996b) certamente devem ter codeterminado os processos de instituio do indigenato. Mas quanto a isso pouco se sabe, porque os estudiosos dos processos de governamentalizao ou territorializao parecem sempre correlacionar o plo indgena ao particular ou passivo, e o plo nacional ao universal ou ativo. verdade que eles insistiram bastante sobre o carter multiforme, no-monoltico, historicamente varivel das agncias de contato (como j o haviam feito no modelo das frentes de expanso de Darcy Ribeiro); mas isto visava justamente mostrar como um mesmo grupo indgena, em situaes moldadas por agncias de contato (ou frentes de expanso) diversas, diferenciava-se em formas organizacionais distintas, tornando-se semelhante a outros grupos semelhantemente situados:

A minha idia era de que a situao de encapsulamento de um segmento de um grupo indgena por um tipo especfico de agente de contato gerava padres de organizao social de um tipo bem determinado, que aproximariam aquele segmento de outras tribos (ou segmentos de tribo) apesar da diversidade cultural. Paralelamente, isso separaria um tal segmento de outros segmentos da mesmo tribo, os quais apesar da homogeneidade cultural possussem uma diferente situao de contato. (Oliveira F 1988: 13; grifos meus).

V-se bem como a situao define exaustivamente o situado: este tomado como matria plstica e passiva pronta a receber uma forma que, por especfica, no funciona menos como universal constitutivo, exercendo-se apesar da cultura. A diversidade ou homogeneidade cultural dos grupos indgenas aparece como um arbitrrio inerte, em oposio diversidade ou homogeneidade social ativamente imposta pelas agncias de contato. Contraste-se esta concepo da agncia do contato (no sentido ingls de agency como agencionalidade) com a viso da agncia nativa presente, por exemplo, em alguns estudos estruturalistas recentes sobre a missionarizao de sociedades amaznicas, onde os efeitos culturais de agncias religiosas distintas so examinadas luz de suas possibilidades de reinterpretao pelos pressupostos sociais de um dado grupo indgena (Vilaa 1996a, b). Mais geralmente, essa preocupao em mostrar como a sujeio ao estado gera uma condio comum apesar das diferenas de contedo derivadas das diferentes tradies culturais envolvidas (grifo meu) ou seja, um modo de ser caracterstico dos grupos indgenas assistidos pelo rgo tutor que eu poderia chamar aqui de indianidade para distinguir do modo de vida resultante do arbitrrio cultural de cada um (Oliveira F 1988: 14; grifos originais omitidos) essa preocupao contrasta de modo notvel com a abordagem que identifica um modo de ser caracterstico tanto dos grupos indgenas indianizados pelo estado como dos grupos menos afetados por este processo (Gow 1991). Neste ltimo caso, o foco sobre a continuidade inter-indgena visvel apesar, digamos assim, das diferenas de contedo derivadas das diferentes situaes de contato envolvidas.

Se me preocupei em registrar a grande influncia de Lvi-Strauss sobre a etnologia dos ltimos trinta anos, devo entretanto sublinhar que a produo do perodo est muito longe de ser epigonal. Na verdade, a maioria do que foi escrito pelos pesquisadores influenciados por Lvi-Strauss (a comear pelos membros do grupo de Maybury-Lewis) foi, de uma forma ou de outra, escrito contra aspectos gerais ou especficos da obra deste antroplogo; e muitos dos americanistas rejeitariam qualquer associao com o rtulo estruturalismo. Mesmo aqueles mais alinhados com a inspirao estrutural dedicaram-se justamente a problematizar, corrigir ou subverter certas teses ou nfases da obra lvi-straussiana. Recordem-se, por exemplo, as modificaes do modelo das Mitolgicas exigidas por sua aplicao a um corpus discursivo circunscrito (S. Hugh-Jones 1979); ou a transformao bastante drstica da noo de estrutura elementar de parentesco no contexto amaznico (Viveiros de Castro 1993a, 1998a; A.C. Taylor 1998); ou ainda a inverso da nfase sobre a leitura totmica e metaforizante da oposio Natureza/Cultura em favor de processos de tipo metonmico (Descola 1992; Viveiros de Castro 1986, 1996b; T. Lima 1996). Mas pouco importa. O ponto que praticamente toda a etnologia da Amrica do Sul praticada fora do marco do contatualismo ps-estruturalista no sentido correto da expresso, isto , ela supe a existncia anterior da obra de Lvi-Strauss e reconhece que os termos de mais de um problema etnolgico crucial foram decisivamente estabelecidos ou reformulados por esse antroplogo. A etnologia sul-americana atual escrita a partir de Lvi-Strauss, mesmo quando escrita contra ele. O ponto merece ateno porque, para os americanistas, a obra de Lvi-Strauss no est associada apenas (para alguns, sequer principalmente) ao estruturalismo como escola, e seu autor no mais um dos nomes destronados pelas mudanas sobrevindas no mercado consumidor de matres penser. Trata-se de uma obra e de um autor que se referem privilegiadamente etnologia americana, que propuseram teses e argumentos especficos a respeito dessa realidade, e que introduziram o pensamento indgena na teoria antropolgica geral, retirando-o do gueto em que jazia desde o sculo XVI. Em suma, a influncia de Lvi-Strauss sobre o americanismo se deve tanto ao fato de que a antropologia estrutural esteve em evidncia acadmica durante alguns anos, quanto ao fato, mais importante e menos visvel aos observadores externos, de que este autor um americanista, tendo erguido a parte principal de sua obra a partir da etnografia do continente. Quanto ao mais, diga-se apenas que a influncia da antropologia estrutural sobre vrios etnlogos contemporneos uma entre muitas outras influncias, algumas bem distantes do paradigma lvi-straussiano. J vi at estruturalistas ps-modernos...

digresso: Paris, Par

H poucos meses atrs, apresentei, em um simpsio em Manchester que reunia principalmente historiadores da cultura ocidental, um texto sobre algumas concepes amerndias de natureza e cultura e suas diferenas frente vulgata cosmolgica da modernidade. Durante os debates, um dos participantes me provocou: Seu trabalho muito interessante; mas seus ndios parecem ter estudado em Paris Respondi que, na realidade, havia ocorrido exatamente o contrrio: que alguns parisienses haviam estudado na Amaznia. Argumentei que minha anlise devia tanto ao estruturalismo francs quanto este devia antes etnologia americanista, e, dessa forma, aos meus ndios: no fra o Par que estivera em Paris, mas sim Paris no Par

Meu interlocutor, cavalheiro de impressionante e agradvel presena que depois me foi apresentado como Stuart Hall, um dos pais fundadores dos Cultural Studies britnicos (verso original), pareceu dar-se por satisfeito com isso. Eu, entretanto, nem tanto. Parecia-me que a espetadela pedia uma resposta mais refletida. parte o tema bvio da influncia de Lvi-Strauss na produo etnolgica sobre a Amrica indgena, havia uma questo fundamental embutida nas palavras de Stuart Hall: o que a antropologia deve teoricamente aos povos que estuda? Ou, inversamente: as diferenas e mutaes internas teoria antropolgica se explicam principalmente (e para todos os efeitos histrico-crticos, exclusivamente) pelas estruturas e conjunturas dos campos intelectuais e contextos acadmicos de onde provm os antroplogos? Parafraseando aquela citao de Florestan pois se trata, no fundo, da mesma questo: seria essa a nica hiptese teoricamente relevante? Ou no seria necessrio estabelecer uma rotao de perspectiva que mostrasse como numerosos conceitos, problemas, entidades e agentes propostos pelas teorias antropolgicas se enrazam no esforo imaginativo das sociedades mesmas que elas pretendem explicar? No estaria a a originalidade da antropologia, nesta sinergia dialgica entre as concepes e prticas provenientes dos mundos do sujeito e do objeto? Reconhecer isso ajudaria, entre outras coisas, a amenizar nosso complexo de inferioridade frente s impropriamente chamadas cincias exatas, e a trocar nosso cansado repertrio crtico da desnaturalizao e outros clichs anlogos.

The description of the kula is on a par with that of the black holes. The complex systems of social alliance are as imaginative as the complex evolutionary scenarios conceived for the selfish genes. Understanding the theology of Australian Aborigines is as important as charting the great undersea rifts. The Trobriand land tenure system is as interesting a scientific objective as the polar icecap drilling. If we talk about what matters in a definition of a science innovation in the agencies that furnish our world anthropology might well be close to the top of the disciplinary pecking order (Latour 1996a: 5).

Cuido que preciso levar a srio a idia de que as sociedades e culturas que so objeto da investigao antropolgica influenciam, de modos variados e decisivos, as teorias sobre a sociedade e a cultura formuladas a partir dessa investigao inclusive de modo a pr sob suspeita radical os conceitos mesmos de sociedade e cultura (Strathern 1987, 1988). Quem duvida disso aceita um construtivismo de mo nica que, sob pena de auto-imploso solipsista, forado a desembocar na pequena narrativa usual: a antropologia, at o exato momento em que escreve o autor da denncia, sempre andou mal-construindo seu objeto, mas agora (por que sempre agora?) viu-se a luz e ela vai comear a constru-lo adequadamente. Na verdade, quando se lem diagnsticos como o de Fabian (1983), e sobretudo quando se lem as leituras que so feitas de Fabian e assemelhados, nunca se sabe se estamos diante de mais uma crispao de desespero cognitivo diante da inacessibilidade da coisa-em-si, ou da velha taumaturgia iluminista em que o autor pretende encarnar a razo universal chegada para dispersar as trevas da superstio. (Ver Argyrou [1999] para uma anlise lcida dos pressupostos ultra-ortodoxos dessa antropologia heterodoxa).

Estou portanto sugerindo, entre outras coisas, uma relevncia especfica para a velha problemtica do regionalismo antropolgico, isto , a organizao transnacional e tradicional da disciplina em subespecialidades como americanismo, africanismo etc., hoje execrada por essencialista, pr-ps-globalizao e indecncias similares (ver Fardon 1990; para ecos locais, Oliveira [F] 1998: 69). Esse regionalismo vem sendo interpretado exclusivamente em termos dos condicionantes no plano do sujeito de conhecimento, que so obviamente fundamentais, merecendo-lhes ser aplicado todo o desconstrucionismo disposio na praa. Mas ele tambm possui uma dimenso de realidade no plano do objeto que costuma ser minimizada, quando no soberbamente ignorada: como se os amerndios devessem seus mundos vividos e concebidos aos americanistas

Certamente no penso que a antropologia seja o espelho da natureza ou no caso, da sociedade (alheia). Mas tambm no penso que ela seja simplesmente o espelho da nossa sociedade. No h histria e sociologia que disfarcem o subjetivismo dessa tese, nem seu irritante paternalismo epistemolgico, que transforma os outros em fices da imaginao ocidental sem qualquer voz no captulo. Duplicar tal subjetivismo por um apelo dialtica da produo objetiva do outro pelo sistema colonial , para usar a expresso inglesa, acrescentar um insulto a uma injria. Parece-me visceralmente anti-antropolgica uma atitude que, vez por outra, pe a cabea de fora: a de achar que todo discurso sobre os povos de tradio no-europia s serve para iluminar nossas representaes do outro. Isto procede da convico de que a antropologia, inevitavelmente exotista e primitivista, no passa de um teatro perverso (o tom sempre moralizante) onde o outro sempre representado segundo os interesses srdidos do Ocidente. O problema que, de tanto ver no Outro sempre o Mesmo de dizer que sob a mscara do outro somos ns que estamos olhando para ns mesmos , o passo curto para ir direto ao assunto que nos interessa, a saber: ns mesmos. Pessoalmente, estou mais interessado em saber como os outros representam os seus outros que em saber como ns o fazemos; afinal, os outros so outros porque seus outros so outros que os nossos (ns, por exemplo).

A alternativa a esse construtivismo de mo nica no , portanto, um objetivismo transcendental; nem, de resto, um subjetivismo invertido que tomasse as chamadas teorias nativas como reflexes auto-transparentes sobre os mundos vividos que integram. J Lvi-Strauss (1950) havia famosamente argumentado que as teorias indgenas so parte do problema que se apresenta ao observador, no sua soluo. Sem dvida: mas o mesmo se aplica s teorias antropolgicas. A alternativa, portanto, s pode ser um construtivismo de mo dupla, onde a antropologia reconhea que suas teorias sempre exprimiram um compromisso, em contnua renegociao histrica, entre os mundos do observado e do observador, e que toda antropologia bem feita ser sempre uma antropologia simtrica em busca de um mundo comum (Latour 1998).

o marco nacional

Voltemos ao problema da ethnology Brazilian style, e examinemos seus ttulos de brasilidade, que no so assim to patentes. Os estudos indgenas no Brasil sempre contaram com um contingente expressivo de praticantes estrangeiros; como se sabe, nossa etnologia comeou em larga medida com eles, dos naturalistas viajantes do sculo passado aos pesquisadores e professores que se fixaram no pas a partir das dcadas de 20 e 30, e que at o incio do perodo em revista tiveram um peso determinante. Mas j nos anos 4050 em So Paulo, e nos anos 5060 tambm no Rio, inicia-se o processo de substituio de importaes acadmicas, com a formao crescente de etnlogos do e no pas. Com a criao dos cursos de ps-graduao em antropologia a partir de 1968, a participao nacional na produo etnolgica cresceu vertiginosamente, e hoje a imensa maioria de pesquisas em curso no Brasil feita por brasileiros. Apesar disto, ainda so muitos os grupos indgenas que s foram estudados de modo aprofundado por pesquisadores vindos do exterior; em muitos casos, devido precedncia histrica e ao estilo etnogrfico escolhido, a monografia de referncia permanece sendo estrangeira. tambm digno de nota que a etnologia seja ainda hoje a rea de atuao preferencial de pesquisadores estrangeiros. Uma proporo muito considervel dos etnlogos em atividade nas universidades do pas de origem estrangeira, em todos os graus possveis de aculturao (do sotaque carregado mera certido de nascimento). Esse nmero provavelmente maior do que o encontrado em todas as outras sub-reas, somadas, da antropologia.

A importncia histrica da produo estrangeira, como seria de se esperar, tambm reconhecida em outras cincias sociais, mas sua incidncia no foi exatamente a mesma em todas elas. No caso da historiografia do Brasil, por exemplo, Laura Mello e Souza observou que as obras influentes escritas por no-brasileiros dedicaram-se antes dimenso poltico-econmica, ao passo que a histria cultural foi uma provncia desde cedo ocupada por pesquisadores nativos. Na etnologia teria sido o inverso que ocorreu, a se acreditar em uma observao frequentemente feita: a de que o foco nas sociedades indgenas como totalidades socioculturais seria caracterstico dos pesquisadores vindos de fora, os nacionais preferindo anlises polticas e econmicas das situaes de contato intertnico (Melatti 1982: 266; Ramos 1990a: 2; Peirano 1992: 7273).

Tomando-se de modo puramente impressionista a marcante presena estrangeira na etnologia, visvel ainda hoje, algumas idias cruzam a mente. A primeira que os estrangeiros seriam mais sensveis a um ideal de exotismo e primitividade que, at bem pouco, no seduzia muito os brasileiros estes pareciam preferir, reciprocamente, os exotismos da modernidade metropolitana. A segunda que os cientistas sociais brasileiros privilegiariam, por sociologicamente mais representativas e ideologicamente mais relevantes, outras populaes e categorias sociais do pas: no seria ento por acaso que os etnlogos (culturalmente) brasileiros tenderiam a favorecer precisamente os processos de articulao da sociedade nacional com os povos indgenas, isto , o contato intertnico. O interesse pela alteridade radical, ainda que interna s fronteiras do pas, no seria portanto uma caracterstica tipicamente nacional (Peirano 1998: 11619). No estou convencido de que este seja realmente o caso; pois se fosse, ento s nos restaria concluir que o pas e sua etnologia tm, felizmente, muitos brasileiros atpicos.

A associao entre etnologia da tradio e estrangeiros, de um lado, e etnologia da mudana e nacionais, do outro, empiricamente discutvel. Um dos primeiros etnlogos universitrios a se interessar pelos estudos de mudana cultural no Brasil foi Herbert Baldus, e nas dcadas seguintes pesquisadores como James e Virginia Watson, Charles Wagley, Kalervo Oberg e Robert Murphy ilustraram-se nessa linha de pesquisa (ver as referncias em Melatti 1983: 2021). O mesmo se aplica ao interesse mais recente pela histria do contato intertnico, onde se podem recordar os trabalhos de Thomas ([1968] 1982), Hemming (1978, 1987) ou Davis (1977). Por sua vez, o primeiro grande estudo sobre um sistema social indgena tomado como totalidade sociocultural foi levado a cabo pelo brasileiro, para nossa honra, Florestan Fernandes.

verdade que, a partir do final dos anos 50 at o final da dcada de 70, a problemtica da mudana foi-se identificando a uma linhagem especfica de etnlogos nacionais, originria do cruzamento da etno-sociologia paulistana com o indigenismo do spi. Refiro-me, claro, aos j citados Darcy Ribeiro, Roberto Cardoso de Oliveira e a seus seguidores. Nesse mesmo perodo, por sua vez, os pesquisadores estrangeiros (mas tambm alguns nacionais) tenderam a se concentrar em certos avanos da teoria antropolgica que no punham em primeiro plano a situao colonial. Estou-me referindo, claro, ao estruturalismo. Mas convm no esquecer que Cardoso de Oliveira e seus alunos operaram em ambas as frentes por algum tempo (alguns deles permanentemente), e que D. Maybury-Lewis, cabea do grande projeto estruturalista de estudo dos ndios do Brasil Central nos anos 60, coordenou tambm, juntamente com Cardoso, o Projeto de Estudo Comparado Nordeste-Brasil Central, que est na origem da linha de pesquisa sobre o campesinato do Museu Nacional.

A partir dos anos 80, o nmero de etnlogos de origem metropolitana que vm trabalhando, no Brasil e em outros pases latino-americanos, sobre temas como missionarizao, governamentalizao, territorializao, etnicidade e etnopoltica veio crescendo sem cessar. Ao contrrio, entretanto, da tradio nacional de estudos de contato iniciada no fim dos anos 50, e mais particularmente de sua posteridade fundamentalista, esses pesquisadores, e vrios de seus colegas brasileiros menos identificados com tal tradio, tambm trabalham sobre outros assuntos. Os processos e estruturas do contato intertnico so tomados como parte da circunstncia histrica das sociedades indgenas, e no o contrrio.

O segundo e bem mais importante problema a brasilidade dos povos estudados. Etnologia brasileira, mais que etnologia feita por brasileiros, denota muitas vezes simplesmente a antropologia dos ndios situados em territrio nacional (Schaden 1976: 4). Como as demais cincias sociais no pas, entretanto, a etnologia institucionalmente brasileira trata apenas, com rarssimas excees, de populaes juridicamente brasileiras. As razes para isso so variadas; algumas delas so at razoveis. Trinta ou quarenta anos atrs, sabia-se bem pouco sobre todas as sociedades nativas sul-americanas; a concentrao de esforos dos pesquisadores nacionais, que se formavam ento, sobre os ndios situados no Brasil era uma escolha lgica. Outros fatores, porm, menos ligados a decises relativas ao estado do conhecimento, foram tanto ou mais relevantes para determinar essa focalizao sobre sociedades indgenas situadas no Brasil: fatores inerciais, como a especializao regional dos formadores de novos etnlogos e a ausncia de uma tradio de estudos em outras reas ou pases; fatores econmicos, como a pouca disponibilidade de recursos para pesquisas de campo no exterior. Mas, acima de tudo, fatores ideolgicos, em especial a premissa partilhada por sucessivos governos de toda cor poltica, pelas agncias financiadoras nativas ou aliengenas, a intelectualidade progressista ou conservadora, a Igreja, a imprensa e os porta-vozes da classe dominante em geral a premissa de que a tarefa primacial das cincias sociais brasileiras conhecer a chamada realidade brasileira. Conhecer para transform-la, claro, resolvendo problemas brasileiros como a questo indgena. Este compromisso ao menos verbal (mas onde entra um forte desejo de auto-convencimento) com a expectativa de se fazer uma cincia social interessada (Peirano 1992: 79) o que no sempre sinnimo de uma cincia social interessante foi decisivo para fixar nossa etnologia no estudo de ndios dentro do territrio brasileiro. E o padro resultante foi o esperado: Paris pensa o mundo, So Paulo pensa o Brasil, Recife pensa o Nordeste (Reis 1991: 30).

Acontece, naturalmente, que a questo indgena, que legitima tantas carreiras acadmicas no pas, no existe como tal para os ndios. Para eles no h o problema dos ndios, ou por outra, um dos (maiores) problemas dos ndios o problema dos brancos. Com isto estou apenas chamando a ateno para o fato de que as fronteiras geopolticas contemporneas esto muito longe de definir (ainda que sobredeterminem de vrias maneiras) os conjuntos socioculturais pertinentes dos pontos de vista antropolgico e indgena, e que portanto a concentrao da produo brasileira sobre os povos aqui localizados traduz antes um a priori ideolgico dos pesquisadores que propriedades objetivas do universo estudado. Vale recordar que 35 dos 206 povos indgenas no Brasil listados em 1994 (Ricardo 1995) tm parte de seu contingente em pases limtrofes; que entre eles esto alguns dos povos demograficamente mais importantes, como os Guarani, os Ticuna (ou Tukuna), os Makuxi (ou Pemon) e os Yanomami; e que vrios povos, inclusive dois dos quatro precedentes, tm a frao mais numerosa de sua populao alm das fronteiras nacionais.

O reconhecimento de que a localizao dos povos indgenas dentro dos limites do pas no uma condio fundante (se as h) da constituio social destes povos, mas apenas uma circunstncia adventcia ou superveniente, tem se exprimido no uso cada vez mais comum do locativo ndios no Brasil em lugar do tradicional genitivo ndios do Brasil, de forte conotao possessiva. Com isso se est recusando a gramtica da integrao e da assimilao que por tanto tempo guiou a doutrina do estado para os povos indgenas, e que persiste como projeto oficioso em diversos setores oficiais. Essa pequena reforma lingustica permite, por exemplo, que se tirem todas as consequncias do fato de que a trajetria histrica das sociedades nativas no comeou com a partilha europia do continente: assim, um livro intitulado Histria dos ndios no Brasil (Carneiro da Cunha [org.] 1992) inclui ensaios sobre populaes localizadas no Chaco e na Amaznia subandina.

Isto posto, os membros individuais dos coletivos indgenas localizados no Brasil so cidados brasileiros, sendo-lhes constitucionalmente reconhecidos organizaes socioculturais diferenciadas e direitos originrios sobre as terras que ocupam. Alm disso, uma parcela muito significativa da populao indgena no pas fala alternativa ou exclusivamente o portugus, e est em interao regular com grupos, agncias e instituies da sociedade envolvente. Sobretudo, os ndios no Brasil foram e so alvo de polticas pblicas especficas, tendo sido submetidos a uma srie de dispositivos homogeneizadores a comear por uma condio jurdico-administrativa uniforme que, ao incidirem sobre formaes socioculturais muito diversas, constituram a categoria histrica ndio brasileiro como correlato e objeto desse processo de governamentalizao. O estatuto derivativo, digamos assim, deste objeto no diminui seu bvio interesse do ponto de vista da antropologia, no s porque os etnlogos tiveram, neste sculo, uma participao de destaque em sua criao e recriao jurdicas, como porque a condio de ndio brasileiro um elemento do contexto de reproduo social das populaes assim definidas, e tem sido um instrumento estratgico de mobilizao poltica.

Isto posto, por sua vez, preciso insistir em um ponto fundamental. Parafraseando a observao de Lvi-Strauss (1958: 17) sobre o funcionalismo: dizer que no h sociedade indgena fora de uma situao de contato com a sociedade nacional um trusmo; dizer, porm, que tudo nessa sociedade se explica pela situao de contato com a sociedade nacional um absurdo. Se alguns trabalhos se mostraram pouco atentos a todas as consequncias do trusmo, h outros que continuam a apostar teoricamente no absurdo. Mas a etnologia brasileira no precisa dessa ltima hiptese, a menos que se contente em ser um ramo menor da sociologia poltica do Brasil. A necessidade de se romper com o senso comum que identificaria a condio de ndio a uma essncia tnico-cultural naturalizada (quantificvel em graus de pureza, por exemplo) no pode desembocar em uma nova reificao, desta vez savante, que toma talvez confundindo o discurso da constituio com o texto da Constituio, o constitutivo com o constitucional a categoria jurdico-poltica ndio (brasileiro), expresso de uma certa relao com o estado, como se ela encerrasse o alfa e o mega da existncia dos coletivos assim (auto)identificados, e portanto todo o interesse que eles podem oferecer etnologia. Tais coletivos certamente tm outras coisas com que se ocupar alm de ser ndios, e a etnologia deve segui-los. Ela s no o far se, em nome de alguma pretensa cesura epistemolgica (uma ruptura com o exotismo, talvez?), termine se sujeitando de fato a uma censura epistemolgica que probe a aproximao a tudo aquilo que, na vida dos povos indgenas, no traga estampado bem visvel o signo da sujeio. Se assim proceder, a etnologia estar aceitando ser o mero reflexo terico (positivo ou negativo, pouco importa) do movimento objetivo de anexao sociopoltica dos povos indgenas pelo estado